segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sete Pés Cinco

Quando chegou ao albergue percebeu que a nova companheira já estava deitada. Enrolou-se no saco cama preocupado com o facto de poder ressonar e incomodar. Não viria a pregar olho, os ruídos da festa e a ansiedade da caminhada não o permitiram.

Seriam seis da madrugada quando pressentiu a partida da francesa. Sentiu-se feliz e aliviado por poder preparar-se em solidão. Com a trouxa pronta, desceu as escadas e sentou-se cerimoniosamente à secretária para assinar o livro de registo e carimbar a credencial de peregrino. Escreveu, como viria a escrever em todos os livros do Caminho, o nome dos Sete Pés, sem qualquer outra referência a não ser a da nacionalidade de origem. Fixou o nome que o precedia na lista: Marie France.

A cidade estava ainda deserta e denunciava a noite de festejos, quando os sete pés de Sete Pés se fizeram ao Caminho. O Pé de Meia, o Pé Chato e o Água Pé queixavam-se do pequeno almoço e do preço. O Pé de Atleta e o Pé de Vento pareciam cavalos a galopar pelos campos. O Pé Descalço e o Pé-Ante-Pé mediam cada passo e apontavam as vieiras estampadas em azulejos que indicavam o Caminho de Santiago.


Ainda não havia uma légua de caminho e já o Água Pé e o Pé Chato reclamavam por uma paragem onde o corpo fosse recompensado. Uma mercearia de aldeia apareceu na hora certa, uma sandes de “xamón” e uma “cerveza” prepararam os pezinhos para atravessar a monotonia do longo Polígono Industrial Las Gándaras. Não era aquilo que se esperava do mítico caminho, os pés começaram a desentender-se e armaram um pé de vento por causa dos diferentes ritmos de andamento.
Ao fim da estrada que serve o complexo industrial, um complexo de nós encontra a auto-estrada e a carretera nº550 que servem a Galiza de alto a baixo. Entre as poeiras, os ruídos e os rails, sobranceira a um viaduto e isolada, uma casa de rés-do-chão a duas águas, uma taberna quase portuguesa e uma mulher quase minhota a aviar, resistem. O cenário pôs de acordo os sete pés e, ali mesmo, no silêncio do corpo a que pertencem, entre perguntas e respostas circunstanciais com a taberneira, ditaram regras e sentenças uns aos outros.
Saíram de acordo quanto ao facto que seria de bom viajante ir recolhendo informações, expressões e alimento, parando em todas as tabernas que aparecessem pelo Caminho. Não era só o Água Pé que gostava de tabernas, todos os pés gostavam, não porque gostassem de vinho mas porque das recordações de infância, a taberna lá do sítio que não gostara de engolir o facto da Puta ter dado à luz um filho, era o único local público onde Sete Pés pudera aprender e exercitar um pouco de vida social. A mãe mandava-o ir comprar tabaco, fósforos ou uma lata de atum e ele lá ia preparado para as graçolas dos fregueses e para reagir às suas tentativas de tirar nabos da púcara acerca das andanças da mandatária da compra. Por vezes, aviado e com troco, saía de corrida sem dar troco às provocações. Outras vezes dava-se ao jogo e elaborava inteligentes respostas e mentiras.
Para além de razões saudosistas, encantava-o também o romantismo, a austeridade e a humildade das tabernas: o calor do vinho, gerador de conversas, discussões, desgarradas e às vezes também de zaragatas; o balcão cheio de manchas que nunca era pintado, dois ou três bancos mochos, três ou quatro fregueses, quatro ou cinco pipos e cinco ou seis produtos - vinho, tabaco, fósforos, latas de conserva, amendoins, castanha pelada e pouco mais. Aos Domingos também havia tremoços.
- Por pensar nisso, já se comiam uns tremoços!...

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Na próxima semana há mais. Pode ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra

8 comentários:

MARIA disse...

Que texto!!!
Magnífico, tão criativo, imaginativo, bem escrito, bem humorado.
Sete vezes sete abençoado no seu talento para escrever Majestade e para dar-nos novas da vida intrigante do já herói Sete Pés!

Este é seguramente um dos seus melhores textos de sempre, embora não tenha lembrança sincera de textos seus que não fossem de grande qualidade.

Parabéns. Aguardarei o demais enredo.

Um beijinho amigo

Maria

O Guardião disse...

Vim pelos meus pés(dois) e saio de fininho pronto para voltar para o próximo episódio desta caminhada.
Cumps

antonio - o implume disse...

Gostei das fotos. Será que fizeste o caminho de Santiago? Sete personagens principais é obra, não adira que pares em cada tasca.

Camolas disse...

Gosto de locais ultrapassados pelo progresso onde o tempo não conta.
Não gosta da optimização e do modernamismo das mais-valias, um grande viva a todas as tabernas paradas no tempo.

"Que nos nos cierren el bar de la esquina..."
(j. Sabina)

Camolas disse...

Gosto de locais ultrapassados pelo progresso onde o tempo não conta.
Não gosta da optimização e do modernamismo das mais-valias, um grande viva a todas as tabernas paradas no tempo.

"Que nos nos cierren el bar de la esquina..."
(j. Sabina)

Kássia Kiss disse...

As reflexões dos Sete Pés continuam muito interessantes e bem escritas. Também me quer cá parecer que o amigo Pata Negra conhece o Caminho de Santiago...
Aguardo as próximas tabernas!

opolidor disse...

Oh Pata...
dá gosto ler-te e seguir a imaginação.
Gosto mesmo.

abraço

Milu disse...

Mas eu estava à espera que a história da francesa e do sete-pés desse molho! Perdeu-se uma óptima oportunidade de romance... :(

Ao descrever a taberna você esqueceu-se de uma outra coisa que também era muito comum encontrar nestes recintos... Era o petróleo, que se vendia a esmo, tanto para alimentar os candeeiros, como para alimentar os fogões, onde se cozinhava o panelão da sopa, prato principal daqueles tempos. Ainda me lembro desse fogão, era de cobre, que a minha mãe areava com vigor, para o acender tinha que lhe dar à bomba. Não há dúvida de que evoluímos muito, basta-nos ver os fogões actuais. Em contrapartida, noutros domínios continuamos na idade das trevas... Basta ver a actuação dos nossos políticos! Governar assim até eu sei... nem precisava de secretários... nem de assessores.