segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Sete Pés Dezassete

Dali para a frente o Caminho faz-se por uma meia encosta coberta de arvoredo, que oculta o rio Valga lá ao fundo. Sabe-se do rio porque se ouve a sua voz, também ele a caminho duma foz onde outro rio o há-de levar ao oceano que lhe chamará um figo.
Entrou em Padrón, junto às margens do rio Sar, por onde teria entrado a barca que trouxe o corpo do Apóstolo, até desaguar num enorme parque com carrosséis, tendas e tendinhas. Também ali se festejava a Páscoa e, pelo aspecto do recinto, em grande.

Atravessou o rio e procurou a famosa fonte do Carmo, localizada aos pés do Monte Gregório, para banhar os pés. Todos os pés nadaram ao seu modo, louvando no chapinho o fim da dura etapa. Pé de Atleta pisou a meta, Pé de Meia contabilizou o percurso, Pé Ante Pé pensou no do dia seguinte, Pé Descalço sentiu as bolhas, Pé Chato disse-se farto, Água Pé propôs “uma tasca” e Pé de Vento reclamou “quero o abrigo dum albergue!”.

Porque Pé de Vento, na qualidade de último a falar, melhor falou e porque nestas coisas era o que melhor levava a vela ao seu moinho, todos seguiram de vela a ordem e subiram o monte. A meia encosta encontraram o albergue, discreto e integrado na zona histórica do Convento do Carmo. Na porta estava um número de telefone para contactar o hospedeiro.

Subindo uma escadaria aproveitaram para visitar a igreja do convento que tem sete fantásticos altares de arte barroca, tão diversos na estética e no desenho que a cada pé, segundo a sua natureza, coube uma imagem para encaixar a sua prece: Pé de Atleta correu para o mais dinâmico, Pé de Meia contemplou o mais dourado, Pé Ante Pé procurou o mais sólido, Pé Descalço reteve-se no com mais nus, Pé Chato entreteve-se no mais barroco, Água Pé no da última Ceia e Pé de Vento, porque lhe sobrou o que tinha o Omnipresente com os pés pregados, deu meia volta pelos outros todos e lembrou:
- Nenhuma das coroas desses santos quietos tem o número de telefone! “Vou à sacristia
e... já vim”
e não encontrei almas da terra, o melhor é descermos à cidade para encontrar um telefone público, antes que seja tarde e ninguém nos venha abrir a porta.

Só ao fim de duas horas se conseguiu entrar no albergue, tomar banho e fazer descanso.
À noite provaram-se os famosos pimentos de Padrón, Pé de Vento e Pé de Atleta vaguearam pela grande festa e todos, no fecho da volta, acabaram a assistir a um espectáculo de sevilhanas. Pensou-se como, afinal de contas, apesar da Andaluzia ficar mais perto de Portugal do que da Galiza, era mais normal encontrar ali aquele género de música e dança do que no seu país. A Espanha existe, concluíram.
Surpresa das surpresas, Pé De Vento, com olhinhos de moço gaiteiro, engatou, ou foi engatado, e não dormiu sozinho no albergue impondo arredo aos outros pés. Na manhã seguinte não estava um bilhetinho afectuoso, como aquele que a francesa deixara em Caldas, mas constatava-se apenas a falta de alguns pertences.
- Mais um sinal!
Rezou Pé Ante Pé. E Pé de Meia:
- O relógio que se lixe, é um objecto que não faz falta nenhuma a um caminhante mas o corta-unhas!...
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra

6 comentários:

antonio - o implume disse...

Bolas, deixaste que te roubassem o corta-unhas? Está cada vez melhor esta tua escrita, de não se despregar os pés...

Zé Povinho disse...

Pobres unhas que vão incomodar o peregrino, mas afinal cá se fazem cá se pagam, e ele estava a pedi-las, eheheh
Abraço do Zé

MARIA disse...

É de uma criatividade impressionante este texto, sempre tão bem escrito.
Um prazer enorme lê-lo.
Mas, percebi bem ?
Ele dormiu com outra desconhecida e ela roubou-o ?
Relógio e corta unhas ?
A avaliar o percurso dos Pés até aqui, se não lhe deixarem lembrança chata, ou a requerer tratamento permanente, tem Vossa Majestade de introduzir na estória um caderninho para 7 Pés começar a elaborar a sua lista de "Homme".

Cá aguardo com muito interesse pela continuação das venturas e desventuras dos 7 pés.

Um beijinho amigo

Maria

opolidor disse...

Pata
escreves como quem come marisco, quanto mais melhor... e, insisto, o gajo dos peses quer comê-la outra vez e, isto, é claro como a´agua(pé)...

samuel disse...

E a assaltante nem precisou de usar pé de cabra...
Inglório! :-)))
A distribuição pelos altares é particularmente bem esgalhada!

Abraço.

Kássia Kiss disse...

Espectáculo de sevilhanas, olé! Assim, vale a pena peregrinar. A Espanha existe!!!

Deixa lá o relógio - também digo.