sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Do outro lado da crise

O Zé começou por cortar nos copos e no tabaco. Depois começou a fechar o chuveiro enquanto punha o sabão. Cortou de seguida a refeição semanal de leitão. Cortou nos cortes de cabelo. Vendeu o cão. Deixou de viajar. Deixou atrasar as quotas da Associação. Não foi de férias. Não foi ver o musical La Féria. Não comprou o último livro do pivot de televisão (para poupar a sua própria inteligência começou a fazer só rimas em ão e em vez de chamar ao Passos porco começou a chamar-lhe cão). Mas nem por isso fundiram os seus rendimentos, nem tão pouco ouviu melhoras no equilíbrio das contas da nação. Fundiu-se ele. Em nome da dívida pública, fecharam-lhe o acesso aos serviços públicos, cortaram-lhe os rendimentos e  aumentaram-lhe a contribuição. E, como se não bastasse, convenceram-no que esse era o único contributo que podia dar para a solução. Está difícil o Zé convencer-se que o único contributo que pode dar para a solução é afirmar de todas as maneiras que não é essa a solução.

Entretanto o Zé está desempregado, com problemas bem maiores que os do país. As sardinhas estão caras mas o peixeiro Belmiro de Azevedo tem permanentes promoções de bacalhau e lá se vai desenrascando. 

O Zé começa a compreender que está do outro lado da crise, o lado que não é o da troika dos tecnocratas,  do governo ou da televisão. A crise que se resolve da forma que eles dizem, não é a dele. A dele tem de ser resolvida amanhã mesmo, num balcão do banco ou das finanças, na banca do peixe ou num amigo que lhe empreste algum. O Zé já se está nas tintas para o serviço nacional de saúde, voltou a fumar, "amegou-se" com uma enfermeira e diz que quando morrer, o futuro vai ficar cá.


7 comentários:

Zé Miguel disse...

O Zé tem muita razão. O futuro vai ficar cá.? Não sei se este país irá ter futuro. A mim que não sou de cá, pois, sou marciano, não me parece que alguma vez haja futuro para esta boa gente. Os governantes já os mandam emigrar e para bem longe. Espero-vos em Marte um dia destes. Até breve, gente.
Ah, não mandem o Passos nem gente dessa laia.

samuel disse...

Mas... afinal há futuro?! :-) :-)

cid simoes disse...

Como é que o "futuro vai ficar cá" se ele não tem futuro?

Compadre Alentejano disse...

Qualquer dia o Zé volta para a casinha onde nasceu, limpa o poço, substitui algumas telhas, cultiva a horta e manda o senhor Belmira dar uma curva... (retrato de um ex-func.público)
Abraço
Compadre Alentejano

O Guardião disse...

Que futuro para o Zé se não der uma sapatada na crise (leia-se governos)?
Cumps

José Rodrigues disse...

Os Zés profs.amanhã já vão fazer barulho para as portas dos centros de desemprego.Isto tem que ter futuro nem que seja à cachaporra...

Abraço e um beijo para enfermêra!

ferroadas disse...

O futuro é/foi sempre igual, só difere o número de futuristas. Antes, bastante antes (anos 30/40 e até 50 do sec. passado) Portugal tinha 7/8 milhões de almas, talvez +-500 mil ricos, +-5 milhões de pobres mesmo pobres e +-2/3 milhões de classe media uns mais pobres que outros. Nos anos 60/70 (ainda do sec. passado, os números foram ligeiramente alterados, os ricos aumentaram, os pobres mesmo pobres diminuíram e foram engrossar os seguintes - classe média/baixa (muito por força da imigração). Actualmente de +-10 milhões de tugas, teremos (nas minhas contas) duas/três dúzias de ricos mesmo ricos, 2 milhões de tipos/as que vivem bem e os restantes são pobres, destes cerca de 4 milhões vivem abaixo do (chamado) limiar da pobreza.

Portanto social e economicamente estamos a regredir aos anos 30/40/50 do sec.XX. A chamada classe média está e ao contrário dos anos 60/70 a regressar à classe pobre.

Nota
Não costuma entrar no meu vocabulário a palavra "CLASSE" pois sempre defendi e continuo a defender uma sociedade sem as ditas.

Abraço