quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

23- A Fábrica pra quê

Passámos a noite junto à fornalha da caldeira. O último contacto que tivemos, eram cinco da manhã, foi um telefonema da mulher do Cossa a perguntar se queríamos café. Continuava a ser Dia de Portugal. Pelas sete horas, depois de termos saboreado o dito café e da partida da serviçal, começou-nos a bater a lucidez maldita. Não se via vivalma, nem povo, nem guarda, nem TVI!
- Podíamos incendiar tudo e fugir para a Ribeira de Pracana!...
- Pra quê?!...
- Podíamos telefonar para a TVI!...
- Pra quê?!...
- Podíamos ir a casa do patrão e fazê-lo refém!...
- Pra quê?!...
- Podíamos ir cada um para sua casa!...
- Pra quê?!...
- Podíamos ficar aqui por mais uns dias!...
- Pra quê?!...
- Podíamos telefonar para umas companhias?!
- Pra quê?!...
- Podíamos!... Podíamos!... Podíamos!..........
- Ora experimenta dizer, “podíamos”, puxando os cantos da boca com os indicadores!
- Hoje é Dia de Portugal e nós aqui! Portugal não quer saber de nós para nada!...
- Portugal não existe, é uma miragem!
- Calma! Ainda não chegámos ao fim!
- Podíamos ao menos identificar a qual de nós pertence cada uma destas bocas!...
- Pra quê?!
- Podíamos escrever a história desta fábrica!...
- Pra quê?!
- Podíamos fugir naquele carro de mão!...
- Pra onde?!
- Prá…Pró… ai que já ia dizer uma asneira!...
(sei que alguns leitores desejam ardentemente o fim mas isto ainda não acabou)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

22- A Fábrica no Dia de Portugal

Tocou o telefone, o indicativo é da terra, é o número do meu primo. Só me telefona quando morre alguém ou há outra desgraça.
- Amanhã não trabalhas! Tens de vir cá!
- Qual é a má notícia desta vez?!
- Nem queiras saber, está para aqui uma cena que se fosse em Lisboa já estava a dar em directo nas quatro televisões!
- Desembucha lá homem!
- O Cossa está barricado na Fábrica, regou por lá tudo com agua-rás, está armado com a sua caçadeira e ameaça incendiar aquela porra se não lhe fizerem as vontades.
- Mas o que é que lhe deu?
- O dono daquela merda agora - não o conheces?! - é um tipo lixado! Parece que lhe disse que não precisava mais dele, que ia fechar a fábrica e que indemnizações só em tribunal! Sabes como é o Cossa, não está com meias medidas!...
- Eu vou para aí!
- Espera aí pá! Tem calma! Deixa-me pôr-te ao corrente da situação!... Alguma malta cá da terra tem estado na estrada a tentar falar com ele! Ele responde lá de dentro mas não se deixa ver! O patrão já deve saber do caso mas não atende o telefone! Ninguém quer chamar a polícia!... Acontece que, não só eu, alguns acham que tu és a pessoa indicada para vires aqui falar com ele e resolver o problema. Porém, há também umas almas que afirmam que o culpado disto és tu que lhe meteste ideias destas na cabeça!
- Nada que surpreenda! Eu vou já, daqui a uma horita estou aí!
- Calma, podes vir mas não apareças no local sem eu te telefonar! Vou para lá preparar o terreno! Sabes como é a populaça, se lhes der para te coçarem, coçam-te, se lhes der para te eleger, elegem-te!...

Com o terreno preparado, estacionei na estrada junto à fábrica. Estariam por lá duas dúzias de pessoas das quais, uma, seguindo o meu primo, cumprimentou-me, incentivou-me e sugeriu-me procedimentos. A outra dúzia manteve-se afastada deixando perceber entre os olhares a reprovação da minha pessoa, mais do que da minha presença. A santa esposa do Cossa veio ter comigo com uma alcofa e sussurrou-me baixinho:
- É para vocês comerem e beberem durante a noite!
Dirigi-me, no passo de todos os meus afazeres, para as instalações onde o Cossa estava, sem cautelas, sem receios, sem protagonismos, com segurança, confiança e em causa própria.
- Alto! Quem vem lá?!
- Ribeira de Prá quê?!
- Prá cona! Contra-senha confirmada! Só podes ser tu!...
- Diz-me lá camarada o que estás aqui a fazer?
Apontou-me para o topo dum depósito onde tinha exposto um pedaço de barrote com uma palavra escrita em baixo relevo. Estivera um dia todo entretido com o canivete a escavar na madeira a sua obra de arte cuja mensagem se resumia a uma palavra.

Teorizou sobre as mais diversos significações da palavra e, esgotada a filosofagem, devolveu-me a pergunta inicial:
- E tu? Diz-me lá camarada o que estás aqui a fazer?
Tentei demovê-lo e convencê-lo de que poderiam existir outros caminhos. Mas Cossa não era um homem qualquer, era meu amigo! Não partira para um acto daquela natureza de ânimo leve. Sabia bem porquê, para quê e a quem se dirigia! Tinha muitos anos de fábrica! A fábrica, mais do que dos seus sucessivos proprietários, sempre fora da aldeia, dos que lá trabalhavam e, neste ponto da história, sobretudo dele! Eu não tinha razão e, sobretudo, não tinha direito, para pensar diferente dele. Enconei um pedaço de cartão que encontrei à mão para servir de megafone, posicionei-me num local onde podia ser visto pelos populares que se encontravam na estrada e :
- Caros conterrâneos, esta fábrica é tanto nossa quanto vossa! Era só um, agora somos dois! Chamem a guarda, a polícia, o presidente da junta, a TVI! Nós só sairemos daqui com um papel de doação, assinado pelo dono ilegítimo destes barracos! A fábrica é nossa! A fábrica é nossa! A fábrica é nossa! ...
O Cossa enrolou-me o braço à volta do pescoço, puxou-me para o interior das instalações e começou a largar velhas lágrimas que tinha acumulado ao longo da sua vida.
- Diz-lhes que se riscarmos o fósforo não será só a fábrica que arde, é o lugar inteiro que irá pelos ares! Eles não têm o direito de se acobardar! Isto não tem só a ver comigo ou contigo, tem a ver com eles!
Cumprida a ordem, trocámos mais umas ideias, tentámos sossegar e deitámos mão ao farnel que a mulher do Cossa me deu de encomenda. Às onze da noite já não se via vivalma. Está tudo calmo. Fui buscar o portátil ao carro e redigi este post sob a supervisão do Cossa. Já passa da meia-noite. Já é Dia de Portugal.