sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Pequeno contributo para o regresso do termo crica

1969. Na 3ªclasse éramos 4 rapazes e uma menina mas ela não nos dava confiança.

Pela reputação, a velha nem merecia que o seu nome fosse precedido de tia ou de "ti", era apenas a Albertina. Era velha, de idade ou com história suficiente para contar histórias das invasões francesas, vestia escuro como as outras velhas do lugar e não se lhe via família. Porque conhecia de toda a sua vida o chão que pisava, o facto de já pouco enxergar não a afetava. Porque dada a sua idade já tinha ouvido e dito tudo o que tinha a ouvir e dizer, a sua surdez grave não a incomodava. Andava completamente curvada, sendo-lhe difícil levantar a cabeça, sempre com um lenço queimado pelo tempo à volta da cabeça, uma saia das costas com a mesma textura e os seus afazeres reduziam-se a fazer sopa e a arranjar lenha. Terá sido, porventura, a última mulher da aldeia que não usava cuecas.

O Gaio garantia que vira claramente vista, no caminho de regresso a casa, com todo o à vontade e pormenor, a coisa da Albertina. Ela posava com ela exposta, recostada no monte dos carolos, guardados na parte coberta da eira e que serviam para acender o lume e limpar o cu. Ela gozava ali o sol de outubro, dos seus últimos outubros, quem sabe se no singular, e estava-se já cagando para o mundo quanto mais para que lhe vissem a crica!

Para que o Gaio não passasse mais uma vez por mentiroso, lá fomos os quatro, ávidos, confirmar ou descobrir aquilo que precisávamos e tínhamos direito a conhecer mais em detalhe. A Albertina, se não dormia era como se dormisse, não deu pela nossa cautelosa presença mas, embora estivesse no estado ou pose que o Gaio assegurara, da crica nada se lhe via. O guia, visto em maus lencóis, não acanha as mãos: pega num cavaco e com cuidado para não espantar o modelo, levanta a saia e, seguidamente, num gesto professoral aponta o sítio ao espanto dos companheiros. Apesar do sono da Albertina pairar entre este e outro mundo, a sensibilidade das peles fracas a um toque inadvertido, pregou-nos susto quando irrompeu a voz:
- Caralho do gato!
Recordada a história e a minha escola, chamem-me tarado, machista, labrego, ordinário, porco:
- Porra! Eu nunca tinha visto uma coisa daquelas!...

E eis a razão pela qual, entre outras coisas que não sou,  também não sou ginecologista e também não sei a diferença entre cricos e berbigão embora também goste muito de ambos.

12 comentários:

Maria disse...

Ouso perguntar se gosta de mexilhão, Majestade......
:)

O Puma disse...

Lá no fundo

nem sempre se tem razão

José Lopes disse...

Da crica ou do grelo, à descoberta do berço da vida, tudo faz parte do crescimento masculino... ou pelo menos era nos meus tempos...
Cumps

Pata Negra disse...

Dona Maria, minha Majestade responde:
obviamente, que um incidente de infância não afeta o meu gosto por mexilhão ou berbigão. Uma vez, num soluço, engoli mesmo a concha de um crico e ainda conservo a impressão nas costelas com tantas palmadas nas costas que levei da minha mãe, para quem o termo simpático e carinhoso era mesmo crica.
Dois bejos abraçados e bons ares de costa e pesca de bivalves.

Amigo da onça disse...

Afinal a dona da crica era a Albertina ou a Carolina. Da Carolina não me parece pois dessa me lembro bem e não se assemelha à da figura.

Pata Negra disse...

Amigo da onça! Carolina?!...

cid simoes disse...

Uma gargalhada pela manhã é a melhor terapia para nos aliviar de tantas preocupações. Obrigado.

Amigo da onça disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Amigo da onça disse...

Ó Pata Negra, eu, àquela hora, estava bêbado. Li qualquer coisa como 'levantar a saia' e prontos. Veio-me logo à lembrança aquela moda da 'saia da Carolina'. E eu saí. Saiu-me. Peço desculpa.

Amigo da onça disse...

Saí, mas saí contrariado.

Zambujal disse...

Sobretudo muito bem contado! És um mestre no contar.
Mexilhão é marisco?

heretico disse...

crica? a velha exibia a crica? não sei, não.

mas a crica faz "cri-cri"!

aquilo era talvez uma "abébora"... passada.

saíste cá um "criqueiro", pá!