domingo, 29 de janeiro de 2017

Texto para a gaveta


Escrever assim, como um homem que caminha sem destino; escrever só por escrever, como um homem que caminha só por gostar de andar mas que sabe que a algum lado há-de ir parar; não escrever coisa com coisa como dizem com "dizer"; escrever como a viúva que monda a vinha sabendo que os filhos só bebem cerveja. 

Talvez na curva dum parágrafo apareça uma ideia a desenvolver, uma história que contribua para fazer mais humana a humanidade. Talvez fosse mais proveitoso ler em vez de escrever, com o conhecimento de que o conhecimento só vale alguma coisa se for para mudar o mundo. Lugar comum dizer-se, que todas as palavras já foram escritas - ou foi o Almada Negreiros? - só falta dizer-se que também os livros já fazem algazarras. 

Escrever só por escrever também não tem sentido. Mas que hei-de fazer então? Os livros novos repetem as ideias e os ideais dos que já foram lidos. 
Em janeiro, na fazenda, não há nada para fazer, ainda é cedo para a poda, o gado está tratado; não vou à igreja e não gosto de futebol; já acendi a lareira; na televisão, uma série americana de fraca qualidade, um programa da tarde, de fraca qualidade, ao vivo numa cidade da província; uma mesa de esnobes conversa sabiamente das consequências da tomada de posse do novo presidente da América, sem nunca falar de índios; tal como quase toda a gente que lê por gosto, já não leio jornais; que coisa esta o tédio de domingo, ao menos que eu pudesse comer e beber uns copos mas o doutor...; ao menos que existissem por aqui pequenos para jogarmos à sardinha - era o único jogo que o meu pai jogava comigo.

Provado, portanto, que estamos perante um texto para enfiar na gaveta; um texto de escrever só por escrever para dizer nada; um texto a não ler; mas olhem que não é só para passar o tempo que o tempo sempre passa, digamos que é uma tentativa gorada de escrever alguma coisa que alguém tivesse gosto em ler. Já sei, vou fazer companhia ao gato a olhar as chamas da lareira.
- Olha, é o melhor que fazes! - disse o eventual leitor apanhado que nem um rato na discorrência da presente prosa.

Peço desculpa mas, quando comecei a escrever, tinha esperanças que algo de novo, alguma ideia, alguma fantasia me tocasse e alguma coisa interessante me assaltasse. Tenho de reconhecer que me perdi, um dia destes hei-de encontrar-me.

Para terminar peço à Nossa Senhora de Fátima que mantenha o Passos Coelho muitos anos à frente do PSD. Lembrei-me também doutra: para muita gente o pluripartidarismo é o melhor sistema desde que os partidos sejam todos iguais, mesmo que passem a vida a queixar-se disso mesmo. Se na TSU, o U é de única, só uma é pouco, devia criar-se outra, a TESA, Taxa Económica Social Absoluta.
Eu até tenho ideias, não são é valiosas. 

sábado, 21 de janeiro de 2017

Hei-de morrer

Estou a escrever
Para dizer que vou morrer
Ainda há-de haver
Em nome de Deus virgens a explodir em Telavive
Em nome da América soldados gordos a morrer em Kandahar
E em meu nome homens que não me conhecem a falar

Estou a escrever
Porque irei morrer
Ainda há-de haver
Crianças a morrer de fome em Mogadíscio
E um menino chamado Aparício
Assassinado em Janeiro no Rio

Caramba irei morrer
De frio a escrever
E ainda há-de haver
Um Portugal pobre e amordaçado
E um povo orgulhoso de lhe chamarem zé

É hei-de morrer
A escrever a mesma coisa
Com outros confortáveis blogueres de T3
Conformado por ter passado a minha vez
De despir e ter nua a verdade à minha frente
Entre operários que desceram a rua que era para subir

É hei-de morrer a rir
De mim e qualquer coisa
Hei-de partir a loiça a definhar
Com o Sol todos os dias a pôr-se e a nascer
Com a Lua aluada a crescer e a minguar
E por cá a Terra a rodar em voltas sempre iguais

Ah hei-de morrer
Se não morresse era demais
A ver as gerações passarem em mutação
E os pobres desgraçados humilhados
Sempre à espera duma tal revolução
Que sempre é vencida

Escrevam da vida escritores de secretária
Cantem o amor cantores de luminária
Que hei-de morrer a ouvi-los escrever e a cantar
Sem nunca pegarem numa palavra a atirar
Forte nos dentes dos párias que demandam
Às castas baixas o vinho sem papéis
Andam para aí uns que se dizem democratas
Abatam-nos são mentirosos e ranhosos

Hei-de morrer de baba e ranho
Num futuro igual a antanho e a dormir
Com a América Latina a sonhar
Com a Europa em obras
Com Putin entre ursas
Com Trump entre vacas
Com uma dor do caraças a moer-me o juízo

Ai a vida é desesperançada sei
Porque não há decreto que mude este mundo e este país
Não quero ter esperança nem medo
Quero, quis, quererei

Hei-de morrer
E se eu morrer de dia a seguir haverá uma noite
E se eu morrer de noite a seguir haverá um dia
E quer seja de noite ou de dia haverá uma madrugada
Em que depois se irá lutar
E depois de se lutar haverá dia ou nada
E depois da noite haverá luto ou alvorada

Olha se eu morresse
Ainda gostava de viver o que acontece
Talvez depois de eu morrer por escárnio
Alguém invente a paz o amor e a democracia

sábado, 14 de janeiro de 2017

Deprimido mas... avante!

Estou num estado de depressão pós-parto,
pari um rato,
sou uma montanha.

Subam-me nem que sejam só para aquecer,
passeiem por mim já, que comer-me a mim? não podem,
vão-me ao cume, nem que seja só para me descer,
mas não esqueçam que há montanhas que se movem.

Já rato feito nasceu o rato nado,
o safado há-de safar-se sem a mão da parideira,
o que não quer dizer que não seja envenenado
ou apanhado na primeira ratoeira.

Pari um rato e então? Há problema? Pari coisa pequena.
Sou grande, sou uma montanha, ninguém me pode abraçar?
Também ninguém me pode ter na mão! Azar o vosso!
De escrever isto já me passou a depressão!
Posso passar à frente, adiante, avante.

Foram apenas umas linhas com uns sentimentos de adolescente,
ou mais umas rimas, como a presente, a de ter visto este filme
e ficar contente:


domingo, 8 de janeiro de 2017

Nem uma palavra

Tinha-me comprometido, depois de ter escrito a "crónica duma morte anunciada" a não abrir a boca nem para uma palavra. Contudo, farto de ouvir a expressão "pai da democracia" não me contenho.
Pai da democracia? Então a democracia tem pai? Se tem pai tem de ter mãe! Quem é a mãe então? A Nossa Senhora de Fátima?

O pronunciamento dessa paternidade encerra, por si só, um conceito muito reduzido do que é ou deve ser a democracia. A democracia nasce do povo e vive do povo.


Pai da democracia!... Pai da democracia!... Pai da democracia!... Mas porquê?!....

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Crónica duma morte anunciada


Isto não é bem como um nascimento que se sabe mais dia menos dia acontecerá, isto não é bem como o Revirão em que a ansiedade explode na hora marcada,  isto não é bem como a notícia duma vitória eleitoral que as sondagens anteriormente asseguraram.

Um homem incomum, com alguma idade, está muito doente, dizem.

As televisões já têm em cima da mesa as peças montadas com as imagens de arquivo, os locutores já gravaram as verdades encomendadas, já estão convidados os comentadores para dizerem de sua justiça, já estão de piquete, com a lista de individualidades de entrevista obrigatória, os operadores que irão fazer os diretos, já se espera a gaboralice dos que fizerem o anúncio em primeira mão que distarão dos concorrentes por um unha negra.

Os jornais já têm pronta a primeira página do dia esperado e colunas escritas com antecedência, textos com espaços em branco para completar com dados clínicos, pormenores do velório, itinerário do cortejo e lugares para as fotos com legendas dos nomes de gente que de certeza vai aparecer.

A necrofilia dos media em todo o seu esplendor.

E no facebook e nos blogues é que vai ser!!! Ocasião maior para o exercício do jornalismo doméstico, para a exibição de sentimentos à altura, para o cultivo de raivas passadas, para o humor negro de anónimos e até para os foguetes de indigentes energúmenos.

É para não fazer esse papel que eu escrevo antecipadamente, agora, com todo o cuidado, incluindo o de não referir o nome do homem que, não sendo homem dos meus círculos, a sua vida ou a sua morte me merecem a mesma consideração do que as de qualquer homem comum. De qualquer forma será sempre um momento triste, pelo menos um triste espetáculo mediático já começou.

Se para Alexandre O Grande para quem não bastou o mundo, bastou um túmulo, para este que se insinua deveria bastar uma morte e não que fosse morto tantos dias.