domingo, 26 de fevereiro de 2017

Mural do casamento guei


Arnaldo Matos tinha a barriga grande, o bigode farto, a trunfa a dever três cortes e o seu nome estava gravado numa placa de chapa de matrícula, exibida na parte interior do para brisas. Era, portanto, um camionista. Aliviou a ansiedade, a tensão, a tesão numa casa de luz vermelha e não se contentou com uma. Fez-se à estrada cansado na sua Scania e o cansaço ajeitou uma curva para fora de mão. Eram três da manhã, despertou, assustou-se, pareceu-lhe ver uns faróis na direção contrária,  ziguezagueou e continuou.

Jorge Coelho tinha a barriga grande, um fato clássico, um relógio de ouro e um Mercedes cinzento. Era construtor e regressava a casa, de noite alongada, não se podendo afirmar se vinha dum jantar com clientes se duma reunião com engenheiros ou duma casa de luz vermelha. Aconteceu a tragédia, ponto final, funeral! O cansaço, um pneu, um coelho, um camião fora de mão, uma distração. Embateu mortalmente contra um mural de motivação revolucionária.

Maria Luís tinha os dias muito ocupados: o café da manhã, as compras do dia, as camas e o almoço, o café do meio dia e o chá da tarde, a cabeleireira e a lida da casa e o cuidar da filha. Sim, porque o somítico do marido nunca permitiria que a esposa doméstica exigisse uma doméstica assalariada para limpar o pó e dar banho ao cão e à criança. E, dum momento para o outro, ficou viúva.

Assunção Esteves nunca fez outra coisa na vida senão trabalhar. Ou melhor, uma vez, num fim de baile, enrolou-se atrás duns arbustos com um rapaz forte e bem parecido que lhe assegurou andar a tirar a carta de pesados. Aquilo foi só um cheirinho mas ficou mãe-solteira.

 A mãe de Ana, quando se viu livre do marido finado num acidente automóvel, em circunstâncias nunca explicadas, aproveitou o seguro de vida e a boa situação financeira que ele lhe deixou para gozar a vida e começou por contratar uma criada de servir.

A mãe de Mariana, a braços com uma filha sem pai, amiga do trabalho e de ganhar dinheiro, não se fez rogada quando lhe apareceu à porta um emprego para criada de servir duma viúva bem abonada.

Ana e Mariana cresceram e brincaram juntas, desatentas das suas diferenças sociais e mutuamente carinhosas, com mães que não ligavam a homens, escaldadas para o fim para que estes se julgavam criados, para se servirem das mulheres.

Os anos passaram-se e, um dia, Ana, já formada em advocacia, disse à mãe:
- Mãe, vou casar!...
- Com quem Ana, pois se eu não te conheço homem?
- Com Mariana.
Maria Luís, conservadora por educação, já tinha, no entanto, visto muitas telenovelas para pensar modernamente e mastigar a surpresa a ponto de a poder vencer e de encarar com naturalidade as provocações encapuzadas que lhe iriam aparecer no salão da cabeleireira.

Também Mariana, já formada em sociologia, disse à mãe:
- Mãe, vou casar!...
- Com quem Mariana, pois se eu não te conheço homem?
- Com Ana.
Assunção Esteves, queimada muito jovem por entusiasmos da flor da idade, não compreendendo da memória dos seus calores como duas fêmeas se haveriam de desenrascar, engoliu a surpresa aliviada pelo conhecimento próprio de saber que a futura nora ou o genro, ou o diabo que fosse, tinha herança sobeja.

Teria a história murchado por aqui, e não nos faltam coincidências e ideias para admitir que já está por aqui sémen e óvulo suficiente para o embrião do enredo duma telenovela, se dos valores do autor não se exigisse mais, se não tivesse sempre uma razão mais profunda, mais casuística, quando o autor faz o tratamento duma ideia.

E disse Maria Luís a Assunção Esteves na presença das duas moças:
- Pois agora, já que as nossas filhas se vão unir perante Deus, ou o Diabo, posso dispensar os teus serviços de assalariada. Bem sabes que advogada ou socióloga não são ofícios que, hoje em dia, deêm para comprar leite. Eu contribuirei com a minha parte para o sustento das nubentes e tu, fazendo o que sempre fizeste nesta casa, darás a tua parte sem receberes salário.

E respondeu Assunção Esteves a Maria Luís na presença das duas moças:
- Saiba, senhora, que todo o trabalho que lhe vendi teve como fim o dia em que a minha filha se casasse. Não servirei mais.  Chegou a minha hora de ter uma criada de servir e de viver em paz na minha casa. E não pense que a minha criada me exigirá salário! Serei eu própria, serva de mim mesmo.

Refletindo sobre o texto presente, poderemos concluir que a incontinência sexual dum camionista ou um mural revolucionário, podem determinar o destino de outras pessoas sem que estas tenham conhecimento disso. Alerta-se também para a injustiça que quase todos cometeram até certa altura do texto, ao desconsiderar o autor - afinal, neste caso "mural" é com "u". E depois são as coincidências, as tais que dão cor às histórias reais ou não, as vidas que se cruzam nas estradas e nas casas asseadas, os nomes comuns coincidentes com o de figuras incomuns. 

Mural da história, aceita a morte e a vida como ela é mas nunca permitas que brinquem com o teu salário, nem brinques com porcos nem com morais e, lembra-te sempre: um mural revolucionário pode vir a determinar um casamento.

Notas do autor: sou contra o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e de sexo diferente também; nem Ana nem Mariana tinham o apelido Mortágua.

4 comentários:

João Miguel Salgueiro Gameiro disse...

O texto é, como tudo o que escreve, de esmagadora boa escrita.
Criativa, imaginativa, excelente estória, com aquele toque queirosiano que retira humor do maior drama. :-)
Eu acho que o amor não precisa casar para acontecer, mas precisa estar perto. No mínimo.
De casamento formal também não gosto muito.
Como este " eu quero é namorar " https://youtu.be/sVXm5LT6Hh4 :-)

Um abraço ao Rei !

Anónimo disse...

Cá para mim o rei é gay

Manuel Veiga disse...

uma história com todos os condimentos para um final feliz.

e com "mural", sem qualquer dúvida.

abraço

(boa patada no meu Pêndulo)

Zambujal disse...

Ora aqui está prosa. Da boa. Ou das boas...
Apesar de matares machos e procriares fêmeas.
Agora a onomástica é escolhida cá c'uma pinta.
Grande abraço e até já.