quarta-feira, 1 de março de 2017

Porque não comprei um disco do Zeca Afonso no dia 23 de fevereiro


No pretérito dia vinte e três de fevereiro dirigi-me à FNAC do centro comercial Forum, em Coimbra, a fim de comprar um Disco Compacto - fazia anos. A família, farta dos meus maus humores contra prendas, aniversários e efemérides, deixou, justamente, de me fazer lembranças em dias especiais. Os amigos, esquecidos de mim, distraídos por outros acontecimentos ou recordando o meu mau feitio, deixaram-me lembranças de mercador. E eu, lembrei-me de mim, de ter nascido e do dia em que o Zeca morreu

Lembrei-me de como para mim, quando jovem, comprar um disco era um sinal de reconhecimento pela arte de outros, um exercício egoísta de propriedade, um investimento com futuro, consumado no ato de me dirigir à discoteca, ouvir, escolher e pagar.

Acontecia sempre, na frequência que os rendimentos de estudante trabalhador e boémio me permitiam, na livraria e discoteca Almedina, Ferreira Borges, Coimbra, que eu consumava as aquisições que se resumem a um património de cerca de cinquenta trinta e três rotações. E era sempre lá, porque era atendido por uma senhora, na altura velha porque eu era novo, talvez quase cinquenta, de vestimenta simples e cabelo curto, sempre atenta ao perfil do cliente, conhecedora informada de tudo o que era editado, apreciadora da excelsa qualidade, de conversa atraente, senhora do seu gosto, verdadeira profissional do ramo, funcionária que fazia a casa em cada gesto ou palavra. 
Quantos reconheceriam essa mulher, de que não lembro o nome, se lessem este texto? 

Folheavam-se os discos e ela, atenta, sem darmos por isso, poderia despoletar o impulso que nos punha debaixo do braço a roda de vinil que iria fazer vibrar as nossas estimadas agulhas. 

Na altura, comprar um disco era um ato pensado,  ia ser um objeto de companhia durante uns bons tempos, quiçá toda a vida e até na vida da descendência ainda não pensada.

Mas pronto, os tempos são outros e a menina e o ar condicionado da FNAC são muito confortáveis e a indústria discográfica  é outra e o consumidor é outro e o tempo é outro e até eu sou outro.

Mas a menina, quando eu lhe perguntei se tinha o primeiro disco do José Afonso, “Fados de Coimbra”, não me devia ter falado assim:
- É porque morreu hoje? Ouvi no rádio quando vinha para aqui! Julguei que fosse mais velho! Tinha só cinquenta e sete anos!

No imediato congeminei, este “hoje” refere-se ao “faz anos hoje”. Mas não, a menina tinha ouvido mas não tinha percebido que já faz trinta anos e muito menos desconfiou que eu fazia mais uns tantos.

Juro que tenho por aqui mentido muitas vezes, que aqui quase tudo é ficção, que este texto é divagação fantasiosa mas, juro a patas juntas que a menina que vende discos na FNAC tem uma cultura assim.

E o que é que eu lhe respondi? Nada, desisti do fado e fui ao lado à secção de jogos. Eu que já não gosto de fazer anos, que já só faço décadas, que não gosto que me dêem os parabéns mas que me dêem do Dão, que quero renascer e voltar a ser menino, perguntei à menina da secção de jogos, colega da menina da secção de discos:
- Tem o FIFA 2017?

E então ela falou-me de fifas, placas gráficas e ronaldos e assegurou-me que o Eusébio já tinha morrido há três anos e que se eu lhe dissesse o dia em que faço anos seria capaz de adivinhar o meu signo.

4 comentários:

José Aguiar disse...

Adelina, Excelência !!! A senhora da Almedina chamava-se Adelina e era um gosto pedir à senhora se "podia, fachavor pôr o disco dos Area que tem a Internacional?"

Pata Negra disse...

José da Sé Velha, é um prazer a ouvir-te e estou quase tentado a reescrever o post e a escrever o nome da Senhora Adelina.
Obrigado pá Zé

Rogerio G. V. Pereira disse...

Azar o teu
eu fiz anos no dia seguinte
dia em que ninguém morreu

Pá, vai lá pôr o nome
a Adelina merece

Manuel Veiga disse...

Majestade

que menina se chamarias hoje Adelina?
Adelina era minha tia-madrinha e morreu velha, solteira e virgem

hoje são Sandras e Vanessas e, valhamedeus, a música é outra!