sábado, 14 de abril de 2018

Mísseis para cima deles!...


Tentar desativar o perigo dum barril de pólvora com um fósforo não é lá muito inteligente: é claro que a pólvora vai explodir. 
Bombardear um arsenal de armas químicas, na minha modesta inteligência, ativaria os agentes químicos e provocaria forçosamente efeitos muito mais trágicos do que a sua utilização num combate pontual. Portanto, se tal não aconteceu, ou as armas foram retiradas atempadamente ou nunca lá estiveram.

Impressiona-me também que, dum momento para o outro, o perigoso Trump, o anedota, o burro, tenha passado de besta a bestial, só porque ativou o seu cérebro do tamanho dum tweet e as suas perigosas bombas, históricamente pulverizadoras de paz e democracia pelo mundo inteiro.

Hoje, no café, ouvindo a conversa da mesa ao lado pensei: esta gente não pensa, não lê, não aprende, não merece um mundo melhor - seu eu tivesse à mão um spray!...


sábado, 7 de abril de 2018

Um pedaço de pequeno ódio numa grande cena

A Cena do Ódio é um dos maiores desabafos da minha vida e nem sequer tive o trabalho da escrever. Tenho, portanto uma grande dívida para com o Almada Negreiros. Por estes versos, bolço pedaços de alma, limo unhas em palavras de pedra, contenho ais em carateres fechados, aconchego a minha pequenez no grande poeta, beijo os meus, ergo dedos médios aos demais, peido-me, mijo-me, cago-me, entorno o vinho, olho para mim, olho para ti, dente por dente, verso por verso e, passados tantos anos, o ódio continua pertinente e a cena é a mesma num cenário diferente. 
....
Eu invejo-te a ti, ó coisa que não tens olhos de ver!
Eu queria como tu sentir a beleza de um almoço pontual
e a felicidade de um jantar cedinho
co'as bestas da família.

Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam
porque são muitas mais que as boas
e enche-se o tempo mais! 
Eu queria, como tu, sentir o bem-estar
que te dá a bestialidade!
Eu queria, como tu, viver enganado da vida e da mulher,
e sem o prazer de seres inteligente pessoalmente!
Eu queria, como tu, não saber que os outros não valem nada
p'ra os poder admirar como tu!
Eu queria que a vida fosse tão divinal
como tu a supões, como tu a vives!
Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
a boiar à tona d'água, à mercê dos ventos,
sem nunca saber que fundo que é o Mar!
Olha para ti!
Se te não vês, concentra-te, procura-te!
Encontrarás primeiro o alfinete
que espetaste na dobra do casaco,
e depois não percas o sítio,
porque estás decerto ao pé do alfinete.
Espeta-te nele para não te perderes de novo,
e agora observa-te!
Não te escarneças! Acomoda-te em sentido!
Não te odeies ainda qu'inda agora começaste!
Enjoa-te no teu nojo, mastodonte!
Indigesta-te na palha dessa tua civilização!
Desbesunta te dessa vermência!
Destapa a tua decência, o teu imoral pudor!
Albarda te em senso! Estriba-te em Ser!
Limpa-te do cancro amarelo e podre!
Do lazareto de seres burro!
Desatrela-te do cérebro-carroça!
Desata o nó-cego da vista!
Desilustra-te, descultiva-te, despole-te,
que mais vale ser animal que besta! 
...

um pedaço da Cena do Ódio de Almada Negreiros

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Uma gigantesca prova de corta-mato nacional

Bush filho, quase tão inteligente como Trump,  apresentou um dia como solução para os incêndios da terra dos índios o corte das árvores da floresta. É assim a América do nosso contentamento: se aumenta a insegurança, há que munir os cidadãos de mais armas; se há fogo, corte-se o mal pela raiz, faça-se da floresta deserto.

No Portugal do nosso entretenimento, do fazer de conta que se faz, os fogos seguem o modo de pensar inteligente do amigo americano. Não chegam os carros de bombeiros, compram-se mais carros de bombeiros, não chegam mais carros de bombeiros, chamam-se helicópteros e aviões, não chegam os meios, ah! então vamos pensar...

Não pensando na  destruição da agricultura e da pastorícia, não pensando nos fatores económicos que ditaram o abandono da floresta, não pensando nas medidas de encerramentos de serviços e na inevitabilidade de concentração da atividade económica e do emprego nos grandes centros, os corredores do Grande Centro pensaram então:
- Fazer pagar, aos que por lá resistem, os males das políticas que lhes têm sido infligidas. Punam-se esses malandros! Multas pesadas para cima deles! Não têm dinheiro?  Então o que é que fazem às reformas que lhes damos?
Conclusão, pensam que podem acabar com os incêndios com a desertificação humana total. Não pensam, os imbecis, que o valor das propriedades, ou do rendimento que delas se tira, não chega para a despesa duma única limpeza anual, nem tão pouco para os custos cobrados pela sua eventual venda.

Nem os beijos dos beiços do Marcelo, nem as fotos do Costa no terreno, nem os coletes de bombeiro da Cristas, nem as imagens de fogo que passam em fundo nos comentários da tv, podem apagar as cinzas das aldeias e vilas abandonadas a troco do desenvolvimento do litoral.

Tenho uma sugestão, em vez de gastarem energias em ginásios para manterem a linha, em vez de oferecerem taças de ouro para corridas em pistas de tartan, organizem uma gigantesca prova de corta-mato nacional, chamem os desportistas de cidades, vilas e aldeias, delimitem faixas de competição para cada um, munam-nos de foices, enxadas e ancinhos, dêem o apito de partida e, no final, pesado o mato que cada um roçou, atribuam prémios. Seria uma forma lúdica e barata de pôr à prova a vontade, a verdadeira solidariedade de todos aqueles que, no dia a dia, despendem a sua força física apenas para manter a forma.

Não quer dizer que a força da autoridade não possa atenuar o problema no curto prazo. Mas, no médio prazo, o problema regressará porque notoriamente não há políticos com vontade, apoio, força ou inteligência para pôr em marcha o repovoamento do interior. Além disso, ninguém tira das suas propriedades rendimento suficiente para fazer a limpeza ano após ano. E, como não há notoriamente políticos com vontade, apoio, força ou inteligência para empreender uma reforma agrária e florestal, vão convencer toda a gente que o melhor é entregar a terra aos grandes.