sexta-feira, 17 de agosto de 2018

A ponte sobre o Tejo, a ponte de Salazar e a ponte 25 de Abril


Havia um passadiço para quem não queria molhar a barriga das pernas mas as bestas de carga, os carros de bovinos e equinos e até os automóveis, transpunham a ribeira se não houvesse cheia ou grande lamaçal. Entretanto, já eram tempos de se poder construir uma ponte em cimento armado que unisse as duas margens e o presidente da câmara, nomeado pelo regime, vinha ao lugar para dar nota que a obra iria para a frente assim que houvesse disponibilidade orçamental.

Apareceu então, assessorado, num carro preto de modelo da altura mas, quando já tinha quase vencida a travessia, ficou atascado e, por mais pedras, paus e mato que os naturais enfiassem por debaixo dos rodados era só patinanço, afundanço e enlameanço, de tal forma que a comitiva nem do veículo podia sair, sob pena de dar cabo do lustro dos sapatos e dos fatos finos próprios dos seus ofícios.

Ordenou a autoridade municipal aos aldeões que arranjassem uma saída para o incidente e era se desejavam alguma vez ali ter ponte! Com humilde respeito e obediência, foram uns homens buscar a junta mais possante engatado-a ao carro para o libertar do atoleiro. Não parecia a força da parelha ser a solução, ou porque estranharam a natureza da carga ou porque ela fosse demais, teimosos que nem burros, os bois não se mostraram tão servis como os boieiros.

Por feliz ou infeliz coincidência, quis o destino que o presidente fosse tratado por Engenheiro Falcão e que pelo mesmo nome respondesse um cão, o Falcão, que ali estava acompanhando o dono. Pois não é que, tendo ouvido em tons diversos o vocábulo, o cão se atiçou aos dois animais e estes, espantados, desataram com força incontrolável em incontrolável corrida, arrastando o veículo em balanceante andamento até o fazer tombar na primeira curva!

Acalmou o gado e acalmaram-se os presentes mas não o presidente e os seus que, sentindo o embaraço do ridículo numa visita de onde deveriam ter saído vitoriosos e aclamados, informaram o povo que aquela ponte só seria feita se houvesse uma revolução.

Sentida, a boa gente, pela vingança declarada e pelo mau feitio dos administradores, assim que viram partir o carro mal tratado a bater latas, decidiram logo ali, em informal assembleia popular, que sim, a ponte seria feita, nem que nesse ano não houvesse dinheiro para o andor, nem para a banda, nem para os foguetes, nem esmola para a Santa Ana ou para missas.

Fez-se a ponte com a força, os pedreiros, os serventes e os dinheiros da terra e acharam por bem os voluntários batizá-la de Ponte do Falcão, não para lembrar o autarca não grato mas como sinal de gratidão ao cão Falcão.

Quem não ficou muito contente foi o prior, tendo até ameaçado fazer excomunhões, tendo-se apenas conformado quando alguns, mais tementes aos Céus, levaram a sua avante e foram com ele benzer a obra e gravar nela o nome de Ponte de Santa Ana.

Veio a Revolução e, sendo conhecida a história no concelho, veio o primeiro presidente eleito à povoação e, por justiça da história, quis ressarcir o povo da quantia despendida e mais algum ainda, que era merecido pela coragem demonstrada. Sempre presentes e convidados, os representantes do clero nestas ocasiões, quando chegou a vez do prior dizer as suas, dirigindo-se ao político e aos cristãos, fez a sua proposta de bradar aos céus: que, se o erário estava assim aberto, seria justo reconhecer que a dívida era para com a Igreja, mais particularmente para Santa Ana que quase não teve festa no ano da construção da ponte.

Ao fim de alguma discussão chegou-se a acordo, e acordado foi que, se o dinheiro fosse aplicado no largo da capela, que era do uso de todos, e o padre reconhecesse que já não havia dívida para com a Santa,  poderia ser esse o destino do montante, desde que se mudasse o nome da ponte para Ponte do Povo.

Acontece que hoje, passados tantos anos, coexistem os que a referem como Ponte do Falcão, Ponte de Santana ou Ponte do Povo e, sinais dos tempos, os mais jovens começaram a chamar-lhe a Ponte dos Três Nomes.

domingo, 5 de agosto de 2018

As pessoas comuns são as que mais gosto

As pessoas são comuns quando já não querem ser outras.
As pessoas comuns só querem que não as chateiam e mais nada.
As pessoas comuns não esperam pela esperança.

Ela espera sempre e nunca é esperada,
Ela faz-se adulta mas é sempre criança,
Ela é maior mas é sempre pequena,
Ela é amante antes de ser amada,
Ela é oficial e age como ordenança,
Ela é profissional  e pagam-lhe como amadora,
Ela é mestre e ouve como discente,
Ela é doutora e tratam-na como paciente,
Ela é mãe sem deixar de ser filha.

Ele nunca é observador é sempre observado,
Ele nunca é escritor é  sempre leitor,
Ele é o ator que atua na plateia.

Ele queria ser flor e foi sempre mato,
Ele queria ser poema e não passou de letra,
Ele não conseguiu ser fadista nem letra de fado,
Ele queria ser marinheiro e foi faroleiro,
Ele queria ser pastor e foi sempre ovelha,
Ele queria ser dono e foi sempre um animal,
Ele queria ser agricultor  mas limitou-se a comer,
Ele nunca tratou da vinha e não lhe faltou de beber,
Ele queria ser eleito e foi sempre eleitor,
Ele queria um mundo melhor mas

Ele queria ser outro e foi ele mesmo,
Ele queria ser rico e foi sempre pobre,
Ele queria ser história e só teve nome,
Ele queria ser herói e é
O meu herói:
O homem comum

Ele foi sempre limpo e não passou de porco,
Ele queria ser lúcido e foi sempre louco,
Ele queria ser muito e foi sempre pouco,
Ele sonhava o futuro e só teve o presente,
Ele queria viver para sempre e morreu,
Comumente

- Que é isso de vencer na vida, ó vós incomuns?