sábado, 23 de fevereiro de 2019

Porque não vale a pena falarmos da Venuzuela...


Já lá vão os tempos em que discutíamos calorosamente a guerra do Iraque. Em desacordo, na altura acusaste-me de defender o Saddam Hussein. Esperei uns anos que te retratasses e viesses a reconhecer que estavas errado mas nunca o fizeste.

Mais tarde também tivemos uma conversa acerca dos bombardeamentos sobre as cidades líbias e tu puxaste pelo argumento fácil de que eu estaria do lado do Muammar Kadafi. Perante o resultado da intervenção militar esperei que, um dia, desses a mão à palmatória com uma palavra: oh pá, tinhas razão!

Relativamente à Síria hesitaste um pouco mas, ainda assim, em jeito de brincadeira, chegaste a acusar-me de defender a monarquia. Mas pronto, a televisão nunca mais falou da Síria e nunca mais falámos.

Agora que a história se repete, com as devidas diferenças, é evidente, já nem sequer falamos dessas coisas. Afinal de contas o Sporting é uma preocupação maior! Mas suspeito que, do teu silêncio, do teu conhecimento que nasce da informação que todos os dias a televisão te serve ao pequeno almoço, estarás torcendo para que amanhã chova em Caracas. Tu não aprendes porque nunca reconheces os teus erros. Fazes lembrar-me sempre o Bush que sugeriu que para acabar com os incêndios se deveriam cortar as árvores da floresta.

Estarás sempre do lado do mais forte e, por isso, mesmo que o teu Sporting perca, é sempre o mais forte! Sim, porque também esse poderio militar que te fascina, tem saído com o rabo entalado de muitas guerras!
Talvez, portanto, isto não sejam favas contadas. Pode ser que a tua semana não termine a fazeres um brinde com o Bolsonaro, o Trump,  o Autoproclamado e o pequeno Augusto.

Sim, estou triste e angustiado! Não vale a pena discutir contigo!


Repito este post ano após ano



Faz 32 anos hoje. No dia 23 de Fevereiro de 1987 cumpria o serviço militar na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas. O camarada Nunes ouvira no rádio do balneário a notícia daquela madrugada e acordou-me com ela no regresso ao quarto: - morreu o Zeca Afonso!
Nessa manhã tomei a linha do Setil para vir à terra tratar duns assuntos urgentes: na janela da automotora, a paisagem desse Além Tejo, ditou-me esta homenagem:

amigo canto e morte
maior que o pensamento
abril não morre

por mais que novos ventos se levantem
de rumo a falsas índias
levando incautos marinheiros deste cais
abril traz sempre voz

virão mais cinco e mais
cantando sim ao dizer não
virão como tu outros iguais
fazer de Maio cantiga
fazer de Abril canção

amigo canto e sempre
até

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

ser e não ser


se falo do passado, dizem que sou saudosista
se tento adivinhar o futuro, exercito a bruxaria
se sou crítico do presente, dizem que sou pessimista
se revelo um pensamento, isso é filosofia
se defendo um ideal, dizem que sou idealista
se faço uma metáfora,  faço uma poesia
se defendo a revolução, dizem que sou anarquista
se apelo à revolta, quero é rebaldaria
se faço greve, dizem que sou sindicalista
se me mantenho em silêncio, estou em estado de apatia
se me manifesto, dizem que sou comunista
se aponto um negro, isso é xenofobia
se me reparo na saia curta, dizem que sou machista
se abraço crianças, acusam-me de pedofilia
se grito de insatisfação, dizem que sofro de histerismo
se me queixo duma dor, sofro de hipocondria
se me levanto a sonhar, dizem que é sonambulismo
se me dói a barriga, são efeitos da bolimia
se compro um canivete, dizem que sou consumista
se bebo um copo, dependo da alcoolemia
se me sai um traque chamam-me porco

antes porco de que louco
antes doido que varrido
pois que  o seja
sei que é pouco
poeta não sou
fazer uma lista
não é poesia
mas pouco mais
se não me lembro do porco
terminava tudo em "ista"
e "ia"
- ia pá! falta-me a rima com "ais" pró "mas pouco mais"! já sei:
ai os ais de quem não aia!
- ai pá! falta-me a rima com "aia"! já sei:
que o primeiro ministro caia
ao descer a escadaria de S.Bento
- ai pá! ele não sai por lá!
... pronto é melhor não falar da saia do papa Bento que saía
estou completamente e ia...
... aonde é que eu ia?!
se até o papa saiu porque é que eu não me posso sair! saiu-me assim!
que é que eu hei-de fazer?! não sei escrever de outra maneira!
(o importante é fazer textos incitáveis que não se possam citar)

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Da Avenida da Liberdade não se vê o céu

Meu filho, meu amor, meu irmão, meu camarada, meu companheiro, quão grande é a ave Nida quando se enche da nossa Liberdade, de nós...



Companheiro

quando voltarmos a ser a razão dos que nos mandam
não te esqueças de recordar que sobrevive connosco a avenida
sob o olhar atento daqueles que nos ignoravam
e de alma erguida

Camarada
quando a guerra voltar a ser ganha pela razão
não te esqueças do tempo que passámos entrincheirados
sob o avançar cobarde dos mais fortes
e levantados

Irmão
quando recordarmos de novo a lição de história
não esqueceremos os mares outrora navegados
e que os olhos do avô eram verdes
mesmo fechados

Amor
quando as coisas voltarem a melhorar
não te esqueças da foto que temos da manifestação
com o olhar de meter inveja aos que a não viram
nem ao coração

Filho
quando chegar a tua vez
não esquecerás honrar quem te ensinou a luta
de perseguidos, presos, assassinados
por tanto filho da puta

Porque os direitos não caem do céu!

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

... da palavra mais feia do calão


(porque umas vezes vale mais a palavra,
outras vezes, o palavrão)

Partir...
Partir para aqui e pra acolá
Partir pra lá...
Partir para o Alasca
Partir pro outro lado e partir pra todo o lado
Partir sei lá...
Partir sei lá o quê
Partir a loiça toda
Partir os cornos contra as mamas da estátua da liberdade
Partir a cuca a rir...
Partir pra ter saudade
Partir pro infinito porque nunca chegarei
Partir porque já chega
Partir pra onde os outros não vão
Partir só por partir e partir tudo
Partir para Caracas ou ir para o Irão
Fazer um partida
Partir uma
Partir o baralho
Partir para a palavra mais feia do calão
Partir sei lá o quê pra onde pra que lado
Partir-me todo
Partir parado

Parti ontem
Cheguei ontem talvez
Talvez de onde de lá de mim de alguém
do mar ou do passado

Cheguei talvez agora
Vou-me embora
Sei lá pra onde de mim pra lá pra aqui pra aí
prá lua ou pro futuro

Bolas! Nunca parti um copo! Nunca saí daqui!....

Pronto para partir
Pronto! Não jogo com o baralho todo
Não digo um (palavra mais feia do calão)

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Florbela espanca os versos


Aquela espécie de soneto, sem regras de soneto mas ainda assim com qualquer coisa de soneto, não era de ler só por ler, em de banco de espera, sanita ou sarau, não era de guardar na gaveta ou de enviar por carta. Um ato de despedida onde não faltasse a poesia, uma última poesia de amante despedido. Convidei-a para um petisco no José Manel dos Ossos, saquei dum dos bolsos de trás das calças Lois a folha A4 dobrada em quatro, provei o vinho, desdobrei o manuscrito, pousei-o sobre a toalha plástica de padrão xadrez, pousei-lhe o copo em cima sobre um vinco, e lia-a enquanto degustava um osso, não sem antes perguntar:
- posso?

Florbela

Flor-minha-bela-ser-perdidamente
porquê? porquê perdidamente
fingindo amor-amar-perdidamente?

a porta do nascente abriu-se em cio
janela morta e dor
perdida de tanto ser amada

Flor-minha-bela-ser-perdida-a-mente
o moço de recados de prazer
partirá pelos prados férreos do poente
como quem parte do sítio da chegada

Flor-minha-Bela
parte! parte perdidamente!

perdido eu também fico
e também parto descontente
de perder-te.

Florbela espancou todos os versos, um a um, comeu e bebeu tanto quanto eu, retribuiu-me de igual para igual todos os olhares, pagou a conta e terminou, numa entoação de desprezo, com a expressão:
- Poetas!...

Como poderia eu ser um poeta se, passados tantos anos e enganos, não resisto, a despropósito, de borrar a escrita e terminar com um nome capaz de acabar de vez com toda a poesia? augusto santos silva!