Na sala de espera do Centro de Saúde, os rostos, as poses e as conversas entre conhecidos e desconhecidos atestam as circunstâncias; ladainhas de lamentações pontuam nas igrejas; nas filas da repartição de finanças e no atendimento não há boa disposição - um país normal. Há dois ou três anos para cá, os rostos fechados e pesados começaram a aparecer por todo o lado, dentro dos automóveis parados no vermelho, na bicha da caixa do supermercado, no quiosque e até na praia!
Dizem que as pessoas andam estranhas por causa da crise mas eu acho que é mais pela desesperança. Há pessoas que não sorriem porque nunca sorriem, há pessoas que não sorriem assim sem mais nem menos, há pessoas que não sorriem por solidariedade pelos que não sorriem e há até pessoas que não sorriem por causa dos dentes!
As pessoas andam estranhas. Fecharam as portas.
O vocalista não aguentava tanto canto. Eu cantava uma outra para lhe aliviar as cordas. Eu até cantava bem, as pessoas é que não me apreciavam muito, não me ouviam como eu me ouvia! É um facto que, por razões de acústica, nós só conhecemos a nossa voz por meio de gravação, é verdade que por essa via eu também não gostava muito da minha voz quando me ouvia. Enfim, cantei bem mas sem sucesso!
O People are strangers - dos Doors que admirávamos até à propriedade da discografia completa em vinil - nem era uma das canções preferidas pela malta mas era um dos temas que, pela sua simplicidade, encaixava melhor nas nossas habilidades musicais e nas minhas qualidade vocais e "teclais".