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terça-feira, 24 de abril de 2012

Onde é que eu estava no 25 de Abril

Gosto desta fotografia. Infelizmente não consigo identificar o autor mas identifico-me por completo na personagem: poderia ser eu, senão sou mesmo, esta criança - a idade, a estatura, o porte, a vestimenta, o olhar, o pensamento e aquela parede à minha frente.

No caso que recordo, e só isto me prova que esta criança não sou eu, a pichagem tinha escrito:

O 1º DE MAIO É VERMELHO. O 25 de Abril tinha sido há oito dias e nós, putos do ciclo, ao fim de uma semana, já estávamos politicamente informados da razão porque não tínhamos tido aulas no dia anterior, tratava-se de um feriado que era proibido e que festejava o Dia do Trabalhador.

No Terreiro, em Leiria, havia um muro alto e branco e sobre ele pintaram com letras grandes e vermelhas a frase: O 1º DE MAIO É VERMELHO.

Eu e os meus camaradas, que regressávamos da escola, nunca tínhamos visto nada assim - escrever na parede?! Para quê?! E depois a frase parecia não ter sentido algum! Sim, ontem foi 1º de Maio, o tal feriado novo! Mas vermelho porquê?! Desde quando é que um dia tem cor?! Ainda por cima vermelho! Porque não preto, cinzento, verde, amarelo?!

É por esta história que eu sinto esta fotografia. Daí a meia dúzia de dias, as paredes pintadas deixaram de ser novidade e o país ficou colorido. Anos mais tarde, adolescente com gavetas de "escrivanças", eu assumia o gosto que os outros já reprovavam:

"Já não gosto das casas bem caiadas porque só falam delas. Gosto mais das paredes da propaganda
porque falam comigo quando passo por elas.
Ouçam só a algazarra que elas erguem:
- hoje há isto! – amanhã há aquilo!
- este é este! – este é aquilo!
- isto é isto! – isto é aquilo!

Só o poeta leva para casa a tinta macabra,
Só o poeta leu o que lá não estava,
E também o poeta levou uma palavra:
- VOTA EM MIM!

Uma rua é um livro,
Em cada folha, um dia diferente,
Em cada frase, um verso dizente
E uma parede por fora é de toda a gente!"