domingo, 17 de junho de 2007

Antes do Portugal Profundo

Mas o que é isto?! "Que já me querem cego, surdo, mudo"...
Mas o que é isto?!É processo disciplinar por graçola sobre um primeiro ministro;
é convite de exclusão por comentário a palavras de uma ministra;
é uma direcção regional a guardar "tudo o que tem saído na comunicação social, nos blogues, ..."; é a táctica intimidatória quando é convocada uma greve;
é a ameaça em mesa de negociação;
é o abuso do poder, o pontapé na Constituição da República, a punição a quem adoeça...
Ninguém trava estes ditardorzinhos de meia tigela?
É que se lhes dão corda, eles não param!
Que se passa?
Medos?
É a medo que escrevo.
A medo penso.
A medo sofro e empreendo e calo.
A medo peso os termos quando falo
A medo me renego, me convenço.
A medo amo.
A medo me pertenço.
A medo repouso no intervalo
De outros medos.
A medo é que resvalo
O corpo escrutador, inquieto, tenso.
A medo durmo.
A medo acordo.
A medoInvento.
A medo passo, a medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.
A medo guardo confissão, segredo.
Dúvida, fé.
A medo.
A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo, mudo.

José Cutileiro, Os medos, in Versos da mão esquerda, 1961.

5 comentários:

pata negra disse...

Não esmoreças joão Rato. Continua com toda a tua força. Com todo o engenho e arte.
Um abraço.

Moriae disse...

Confesso que já tive a minha semana de depressão por causa de medo. Não só por causa disso, mas tb. É mais a revolta ... Mas, cá estamos! :)

CORCUNDA disse...

É. Nunca pensei que chegassemos a este ponto e tão depressa e ainda por cima com a conivência e força de quem se afirma defensor das políticas sociais. Se calhar o termo "social" é que difere de dicionário para dicionário.
Abraço.

João Rato disse...

pata negra:
sem força, sem engenho,sem arte e sem modéstia, escreverei até que a mão me doa!

moriae:
a única forma de responder ao medo é com a coragem e com a certeza de que não estamos sós.
Abraços e Mãos Dadas!

corcunda:
socialistas não são certamente
e democratas não agem assim!
abraço

Moriae disse...

É verdade, João. Por estes dias, percebe-se muita coisa. Quem está connosco, é sempre uma agradável surpresa, porque ninguém é obrigado a ser amigo. E quem não está, assim fica claramente.
Somos humanos e nem sempre fortes mas, há que re-erguer sempre as causas pelas quais lutamos e em que acreditamos.
Abraço,
M.