domingo, 10 de fevereiro de 2008

Sidadania

Há uns anos, ainda eu tinha um computador com cinquenta megabytes de disco e não percebia muito bem o que era a internet, um amigo entregou-me duas folhas manuscritas com este poema de Vinicius de Moraes, fazendo-me um pedido: que eu pegasse nele e o adaptasse à SIDA, que era para um sketch de um teatro de associação, que eu tinha jeito, que eu faria obra e eu respondi-lhe que sim.
Andei às voltas com o "works", o "delete" e o "copy and paste" e não me saiu nada. Criativo eu?! Aqueles versos não tinham ponta por onde se lhe pegasse, senti que o "eu" autorzito não tinha o direito de violar o autorzão original, senti a coisa tão bem escrita que não encontrei maneira de lhe tocar. Eu já a tinha lido mas não com a profundidade que a tarefa me exigia!
Há uns dias, a amiga Lídia do Silêncio Culpado, propôs-me a participação numa iniciativa que gira à volta do testemunho e do activismo do amigo do Sidadania. Eu que, tal como há uns anos, não encontro jeito para me dedicar por encomenda, limitei-me a colocar o selo, com "link", na barra lateral do palácio real e pouco mais.
Hoje, entre papéis, encontrei duas folhas manuscritas com o poema Câncer do Vinicius. Não precisei de transcrever, naquela de quem tem google vai a Roma, ao primeiro clique, logo encontrei. E aqui vai parte, para não ser longo, para quem já leu, reler mais devagar, para quem ainda confunde esse Vinicius com actor de telenovela, descobrir. Não esqueçam o "câncer", mas desta vez troquem essa palavra pelo SIDA - HIV é difícil em poesia - e talvez, leitura feita, sintam que o momento lhe saiu melhor que a encomenda e vão pensar: isto é comigo!

Sai, Câncer
Desaparece, parte, sai do mundo
Volta à galáxia onde fermentam
Os íncubos da vida, de que és
A forma inversa. Vai, foge do mundo
Monstruosa tarântula, hediondo
Caranguejo incolor, fétida anêmona
Carnívora! Sai, Câncer.
Furbo anão de unhas sujas e roídas
Monstrengo sub-reptício, glabro homúnculo
Que empestas as brancas madrugadas
Com teu suave mau cheiro de necrose
Enquanto largas sob as portas
Teus sebentos volantes genocidas
Sai, get out, va-t-en, henaus
Tu e tua capa de matéria plástica
Tu e tuas galochas
Tu e tua gravata carcomida
E torna, abjeto, ao Trópico
Cujo nome roubaste. Deixa os homens em sossego
Odioso mascate; fecha o zíper
De tua gorda pasta que amontoa
Caranguejos, baratas, sapos, lesmas
Movendo-se em seu visgo, em meio a amostras
De óleo, graxas, corantes, germicidas,
Sai, Câncer
Fecha a tenaz e diz adeus à Terra
Em saudação fascista; galga, aranha,
Contra o teu próprio fio
E vai morrer de tua própria síntese
Na poeira atômica que se acumula na cúpula do mundo.
Adeus
Grumo louco, multiplicador incalculável, tu
De quem nenhum Cérebro Eletrônico poderá jamais seguir a matemática.
Parte, poneta ahuera, andate via
Glauco espectro, gosmento camelô
Da morte anterior à eternidade.
Não és mais forte do que o homem — rua!
Grasso e gomalinado camelô, que prescreves
A dívida humana sem aviso prévio, ignóbil
Meirinho, Câncer, vil tristeza...
Amada, fecha a porta, corta os fios,
Não preste nunca ouvidos ao que o mercador contar!


(isto é só a primeira parte, quem tiver vontade de mais, vá à internet)

16 comentários:

Alberto Cardoso disse...

Num Poema deste Poeta não é difícil trocar cancer por sida. E resulta!
Li hoje uma coisa terrível. Em África há o hábito (ancestral) de as Mães pré mastigarem a comida que dão aos seus bebés. Só que se elas estão infectadas com HIV contagiam, assim, os seus pequenos filhos. É dramático. Como é possível que um acto de Amor seja, afinal, uma condenação à morte?
Alberto Cardoso

joshua disse...

Acredito firmemente que a SIDA será vencida e que o ferrete abominável de todas as mortes prematuras (todas o são para quem ama viver!) será apagado!

Pela Ciência! Pela catabase do Reino dos Céus!

Menos investimento em Armamento. Todo o investimento na Saúde e na Vida com Dignidade!

PALAVROSSAVRVS REX

Oliva verde disse...

Percebo a tua dificuldade!
É Vinicius!
O melhor mesmo é não mexer; apenas, imaginá-lo com este outro monstro!
Talvez um dia a ciência consiga encontrar forma de a um e outro por fim. Mas até lá, a responsabilidade é nossa. Façamos, pois, a nossa parte!
PREVENÇÃO é a única saída!

samuel disse...

Fiz muitas sessões de poesia e cantigas, mano a mano com o Mário Viegas. Este "trópico de câncer" fazia por vezes parte do alinhamento. Era uma experiência única, ver o Mário sair do seu corpo franzino e transformar-se num gigante, assim que começava a dizer poesia.
Também por isso, ainda me arrepia ler estes versos.

Watchdog disse...

Isto não tem nada a ver:
Aproxima-se a 2ª Grande Farra:
Passa no KAOS. Vê lá se é desta...

1 Abraço!

martelo disse...

um grito em favor da vida humana...

Meg disse...

Ora aqui está um assunto que tenho dificuldade em comentar de uma forma leve.
Como diz o Joshua, eu também tenho a certeza que a Sida será vencida, aliás, hoje já o é de certa forma, neste momento trata-se de uma doença crónica.
Mais difícil é acabar com muita ignorância que leva a que os seropositivos sejam tratados como já foram tratados os leprosos noutra época.
Cabe aos mais esclarecidos o dever de informar e exercer a solidariedade em pro dos portadores da Sida.

Um abraço

Zé Povinho disse...

Nada como o engenho e a vontade para encontrar uma forma criativa de mostrar solidariedade e deixar uma palavra.
Abraço do Zé

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra
Estou sem palavras perante este testetemunho de solidariedade. Percebo quando dizes que não comentas ou és solidário por encomenda mas a ti peço-te muito mais do que sejas solidário: peço-te que encares esta causa com um espírito revolucionário e militante porque esta causa não é como o cancro que suscita compaixão.
Esta causa é vista como um estigma pela sociedade porque as escolas não têm educação sexual, porque os nossos meios de comunicação não servem para informar e formar tão dedicados que estão a promover só-cretinos & Cª.
Eu de ti espero, para esta causa, que olhes com a mesma revolta que eu olho quando vou a um post do Sidadania e sei que num Centro de Saúde recusam sangue a um dador de 19 anos só porque vive na mesma casa com um portador de HIV. Eu de ti espero que te revoltes ao saberes que pessoas com Sida se matam por serem discriminadas inclusive nos hospitais.
Ninguém quer caridade nem compaixão. As pessoas querem direitos e dignidade.
Por isso eu te espero.
Abraço abraço

NINHO DE CUCO disse...

Pata Negra
Solidários com a dor de quem sofre a doença e a falta de apoios dum país que se demite das suas responsabilidades.
Não conheço o meu amigo Rui. Encontrámo-nos na blogosfera e eu respondi ao seu apelo.
Abraço

Boris disse...

Pata Negra, Pata Negra
há muita gente a sofrer
neste Portugal de merda
onde é difícil viver.

Quem tem saúde e dinheiro
ainda se pode safar
mas quem é velho ou doente
o melhor é se matar.

Fecham hospitais, urgências,
escolas e tudo o mais
neste país de excelências
só interessa os capitais.

desempregados à deriva
e os de emprego escravos são
e cada vez há mais dinheiro
nos bolsos Estado e Patrão.

Pata Negra, Pata Negra
não vale a pena chorar
riem-se das nossas lágrimas,
temos que nos revoltar.

Pata Negra, Pata Negra,
a Silêncio tem razão
apoiar os que precisam
é nossa obrigação.

Não é dar a caridade
isso humilha, isso não!
É dar a boa vontade
na busca da solução.

Pata Negra, Pata Negra
tens que apoiar com vontade
os que se sentem sozinhos
e não querem caridade.

Pata Negra, Pata Negra
gostei dos versos que são
o fruto do teu sentir
em volta desta questão.

Também eu torço que um dia
haja cura e solução
para todas as maleitas
sejam do corpo ou da razão.

Pata Negra, Pata Negra
tens aqui a minha mão
porque juntos nós iremos
fazer a revolução.

Pata Negra, Pata Negra
tens aqui a minha mão!

Robin Hood disse...

Engenho e arte para deixar uma palavra solidária mas sem esquecer que Tarantantam não enche barriga.

Marreta disse...

E eu ainda hoje não sei bem o que é a internet, os megabytes, ram, e outros palavrões tais, mas sei que o poema pode muito bem ser adaptado à causa, sim senhor. E além disso é bonito.
Mas tal como diz o Robin dos Bosques, o Tarantatam ajuda mas não enche barriga.
Saudações do Marreta.

Anónimo disse...

Para quem gosta de futsal:

"Sentir Futsal" em
www.jlino7.blogspot.com

Visita, dá as tuas opinioes, ideias, seram sempre bem vindas, um espaço de debate evolutivo sobre futsal.
Abraço

SILÊNCIO CULPADO disse...

Pata Negra
És um amigo especial para mim e, por isso, fiquei extremamente sensibilizada com a referência que me fazes.
Eu também tenho um compromisso de honra contigo e, por isso, cumpri-o hoje no Silêncio.
Um abraço apertado

MARIA disse...

Todo o tema doloroso é difícil de abordar.
Acho uma ternura que se tenha lembrado deste poema.
É certo que são palavras , palavras que confortam o espírito e promovem comunhão de espíritos...
É certo que palavras não enchem barriga.Mas como terá dito alguém que por motivos vários se tornou Grande aos olhos da humanidade : nem só de pão vive o homem...
Um beijinho amigo
Maria