segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

26- O Caminho do Fim da Terra

Apontaram-lhe a porta da casa da camarata. Tinha dois pisos. No rés-do-chão chamou por Marie, em português, dando sinal da sua chegada.
- Maria!?... Maria!?... Oh Maria!?...

Ouviu a sua resposta do primeiro andar e subiu as escadas arrastando-se penosamente.
Ao vê-lo assim, a namorada aproximou-se dele, ajudou-o a apear a mochila e sugeriu-lhe que se deitasse. Enquanto o descalçava animou-o com o facto de todos os outros terem preferido acomodar-se no rés-do-chão. Tudo indicava que aquele espaço seria só para eles.

- Precisas de descansar. Eu vou lavar roupa. Tens alguma coisa para lavar?
Indicou-lhe um saco de plástico com roupa miúda no cimo da mochila e, mal ela virou costas, adormeceu. Já era noite escura quando Marie o acordou para que fosse tomar banho e se preparasse para jantar.

Do outro lado da rua ficavam a cavalariça, o refeitório e a recepção, a primeira de todos os albergues que se assemelhava a um posto de turismo. Foi também a primeira vez que teve de preencher uns impressos com dados pessoais e informações da credencial do peregrino. A voluntária de serviço comentou com agrado o facto raro de ver um português por ali. Estivessem à vontade e dessem uma volta que a marca da casa seria ela própria cozinhar um caldo galego para todos.

À volta da mesa da sala de jantar seriam uns quinze, uns quantos já conhecidos em Negreira, outros novos, a maioria viajantes solitários mas genuinamente solidários. Sete Pés, pela língua mãe, era o que melhor entendia o discurso da anfitriã que, no fim de confirmar a presença de todos, pousou servilmente a panela na mesa e falou de seu direito. Para terminar, pedia apenas que no final lavassem a loiça e limpassem a cozinha. Pagamentos, se alguém os pretendesse fazer, existia um mealheiro de barro junto ao fogão.
-Que refeição!
No final a autogestão dos arrumos funcionou e o convívio proporcionado estendeu-se para a rua em serão, com diálogos aprofundados ou difíceis, consoante os canais de interesses ou linguísticos abertos. Houve quem tocasse flauta e quem acompanhasse com la-la-las.

Pé de Meia brincou com Marie acerca do que pensariam os outros do par que faziam, se seriam mãe e filho, se freira velha com presbítero novo, se companheiros ocasionais do caminho, se amantes fugidos às regras dos comuns.
Marie repostou que não tinham de ser nada, que podiam ser isso tudo e que naquele momento não passavam de um homem e uma mulher a precisar de cama.

E por esta conversa se despediram dos demais. Tinham mais que fazer. E fizeram. Dir-se-ia que os seus companheiros de Caminho se haviam combinado entre si para reservarem aquele espaço e a respectiva janela em exclusivo para os dois. Ou não! Poderia ser apenas a mão do Apóstolo, ou do destino, a conceder graças aos dois. Deitaram-se num vai e vem de permutas e partilhas de leitos que faziam o jogo do enamoramento. Pelo toque dos corpos dir-se-ia que já não se tratava de uma aventura mas antes dum caso estudo de paixão.
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Todas as segundas feiras.
Pode(s) ler toda a história em O Caminho do Fim da Terra.

7 comentários:

Zé Povinho disse...

Pelo menos temos aqui uma comunhão de espíritos, e não só!
Abraço do Zé

do Zambujal disse...

Tudo a "condezer"!
Até a foto. Excelente ilustração.

Um abraço

antonio - o implume disse...

Está cada vez mais agradável ler esta tua história. Este episódio está muito bom e gostei que lhes tivesses reservado uma janela, detestava ter de espreitar pelo buraco da fechadura.

Pata Negra disse...

Zé Povinho
Comungando?! Antes o "não só"!
Um abraço zé

do Zambujal
pois, a janela é do edifício que está frente ao que é fotografia no último post (infelizmente é uma imagem roubada na web e ao autor - não identificado - só posso pedir desculpa pelo abuso.
As portas da cavalariça, do refeitório e da recepção são tb visíveis na foto do último post.
Um abraço a caminho

Implume
Eu acho que todas as coisas, as festas, as vidas, os caminhos têm alturas... sinceramente, sinto que vamos num tempo murtucho desta história!... Mas com a rodagem da botas talvez isto se anime e anime a malta! Eu a ti, que andas lá pelo médio oriente, trazia o barco para a Galiza, olha que aquilo por lá não anda lá muito calmo!
Um abraço e obrigado pela companhia

Cunha de Ouro disse...

E VIVA O REI. HIP HIP HURRA!! HIP HIP HURRA!!!!

MARIA disse...

Lê-lo, Majestade, é sempre um verdadeiro prazer.
Eu gosto muito dos seus textos em geral, mas a narrativa desta sua viagem, através da personagem 7 pés, tem algo de fantástico, remetendo-nos para uma emoção similar à de uma real expectativa de Viagem.
Contudo dar um destino feliz a essas personagens parece-me que lhe vai exigir um milagre, o que na sequência de uma peregrinação, não cairia nada mal.
Talvez deixar por escrever o futuro da estória, não sei como será e nem como Vossa Majestade fará, mas alguém terá de fazer alguma coisa quando o marido da Marie souber de todos os acontecimentos.
:)
Digo mais Majestade, como dizia a minha avó " Nem Santo António te salva ...", julgo eu, no caso , a ele 7 Pés :)

Um beijinho amigo


da

Maria
...
e depois ...?

Cristina Torrão disse...

Eu aposto na "mão do Apóstolo" ;)