terça-feira, 30 de junho de 2015

Boda-se!

Um quarteirão de anos de comunhão de matrimónio e alguma delapidação de património. Ao fim de tanto tempo, contam-se pelos dedos das mãos as vezes que lhe bati e, se lhe fui infiel, não foram muitas vezes. Dois filhos legítimos! Um par! Um casalinho!... Um mercedes de 1990, uma motoenxada, um esquentador inteligente, lâmpadas económicas em todas as divisões de casa, além dum blogue e outras coisas mais.
Bem pode ela festejar bodas de prata! Se eu tivesse nascido mulher também casava com um homem como eu. 
- E quanto a ela?!
- Bom ela!... portanto ela!... Ela é uma mulher como as outras!... Muitas vezes distingo-a por um sinal que tem na cara!... Há apenas uma coisa para a qual ainda não encontrei explicação: não me vi, não me vejo e não me consigo ver com outra!...

O resto do que se passou hoje fica entre o casal real.




sexta-feira, 26 de junho de 2015

Há quem diga que ele ainda é vivo


Não dava nada para a escola. Não aprendia nada na escola! Não andava a fazer nada na escola!...

E, no entanto, o irmão mais velho era muito inteligente, a irmã mais velha era muito esperta, ambos saindo aos seus. Mas ele, talvez por ter nascido sem ser desejado nem esperado, com a mãe a caminho dos cinquenta, já fazendo as noites com o macho sem atender às luas, aos períodos ou ao “tira antes”, nasceu assim, mal vingado e com uma falha.

Ao fim de três anos não passava do nome, do dois mais dois são quatro, duma dúzia são doze e do Tejo é o maior rio de Portugal.

- Uma falha é pouco!
Retorquiu ao pai e na presença do aluno, a professora Palmira.

O homem pensou: eu nem sequer andei na escola e tenho-me safado, ele ainda é novo e há-de aprender a ir à lenha, a juntar palha e a andar com o burro - amanhã já não vem!

Libertar-se-ia da troça dos colegas, daquela crueldade infantil que todos já sofremos, exercemos ou, pelo menos, presenciámos. O pior de todos era o Júlio das Moitas. O pobre rapaz aguentava dele as torturas mais porcas, as insinuações mais sujas, as piores humilhações e respondia baixinho:
- Um dia talvez te fodas!...

Mesmo passados anos de ter saído da escola, quando o via, o carrasco exercitava provocações ordinárias acerca da coisa da irmã dele, da autosuficiência sexual dele, ou mesmo chamando-lhe a atenção para que olhasse: que o travão da carroça ia travado, que tinha perdido uma roda ou que a coisa do burro estava de fora.
Ele, ingénuo, olhava para verificar, para logo a seguir reparar no gozão de riso rude, e dizia para si mesmo:
- Um dia talvez te fodas!...

Até que num certo ano, num certo dia, de tanto ser esticada, a corda partiu:
- Então não é que fodi a tua irmã e ela tem a coisa a atravessar!

Ele, filho de boa gente, pensou baixinho: tenho de foder este gajo!

Júlio das Moitas vivia numa casa, nas traseiras da qual, num patamar mais alto, passava a linha de comboio.  Se eu fizer descarrilar o comboio, ela tombará pela encosta abaixo, cairá sobre a casa e adeus Júlio. Como eles andam a substituir os carris e há muitos soltos nas bordas, eu vou lá de noite, atravesso um deles sobre a linha, vem o comboio e… 
E pensado, assim fez.

Gorada a tragédia pensada porque descoberta a tempo.
Descoberto o autor ao fim de dois passos da investigação.
Foi preso e transferido mais tarde para o Júlio de Matos para passar o resto dos seus dias.

Júlio das Moitas morreu pouco tempo depois da tentativa de homicídio, quando, sentado no carro do seu burro, atravessava a passagem de nível sem guarda. Conta-se que, durante muitos anos, uma cruz com uma tabuleta de madeira assinalou o local: aqui morreu Júlio das Moitas, solteiro, deixando desflorada uma mulher dez anos mais velha.

É claro que deve ser mentira o texto da inscrição como também o poderá ser parte da história que passou pelas teias de ofício do narrador. Verdade é, porque me contou o meu pai, que foi sempre homem de verdade e pouco dado a fantasias que, quando o juiz perguntou ao réu como conseguira sozinho mover o carril para o atravessar na linha, este terá respondido seco e frio:

- Fui eu, o diabo e a tranca!

terça-feira, 23 de junho de 2015

Discurso de Péricles aos Atenienses

Deixai-os em treino permanente
Como se a vida fosse apenas exercício
Atenas ama o vinho e a poesia
E Esparta o sacrifício
Que nos acusem de vida fácil e leviandade
Que digam que não sabemos guardar segredo
Nem combater
Em Atenas reina a liberdade
E em Esparta o medo
A nossa força é a diferença
Não são precisas provações nem disciplina
Atenas vive como quer e como gosta
Porque a nossa coragem não se aprende não se ensina
A nossa é de nascença
E não imposta
Deixai-os pois dizer que vão vencer
Eles fogem da vida por temor da morte
Nós vamos para a morte por amor da vida
E enquanto Esparta só combate por dever
Nós iremos lutar com alegria
Por isso Atenas não será vencida
Manuel Alegre ( poema do livro Chegar Aqui, de 1984)
Nota suína: eu tenho a infelicidade natural de não gostar de Manuel Alegre mas gosto de poesia e isso basta-me. 

sábado, 20 de junho de 2015

A tradição das amêndoas da Páscoa

Era já tradição do longo priorado do prior Formiga, nos modos, nos tempos e locais habituais, recordados em avisos do final da missa, fazer a distribuição de amêndoas às crianças. Ao nosso lugar calhava, por costume, o sábado da pascoela e o cabeço Leitão, local ermo e de mato alto mas onde o “carocha” subia.

Chegado o carro, depois da espera ansiosa, o padre abria o saco que trazia no banco do pendura e a canalha tomava posição de olhos erguidos como os das galinhas quando se lhe dá milho. Não, não se fazia fila.  Ele atirava macheias delas para o meio do mato, tão longe quanto os seus lanços conseguissem, e ficava divertido a observar a perícia de cada um e a avaliar quem apanhava mais. Quem tinha bolsos fazia por enchê-los, quem os tinha rotos, alargava as meias para as juntar, quem não tinha meias, sentia-as como pedras nos sapatos e o Torto, que nem sapatos tinha, picou-se.

O Chiquito, não foi na brincadeira e ficou com uma saca vazia na mão ao lado do lançador.
- Porque não fazes como os outros, meu menino?! Julgas-te mais do que eles?! Vê-se bem de quem és filho! Vê-se bem que vens ensinado pelo teu pai!

O silêncio de homem do Chiquito foi interrompido pelos gritos do Torto.
- Piquei-me! Ai! Ai! Piquei-me! Ai que me dói! Ai o meu rico pé! Ai o meu pézinho que me faz tanta falta!...

A gritadeira de dor mobilizou todos para junto da vítima, incluindo o padre que, como é natural, dirigiu o socorro.  Todos, menos o Chiquito que - tal como havia sido previamente combinado – aproveitando a distração geral, passou pelo lugar do pendura, atestou em segundos a sua saca e despareceu discretamente sem dizer aqui vou eu.

- Isso não é nada rapaz! Tens é de pensar em trabalhar para arranjares dinheiro para uns sapatos!

O padre partiu sem dar pelo roubo e os outros ficaram espantados a olhar para o Torto que desatou a rir a bandeiras despregadas.  

Francisco dos Santos, conhecido por não ir a missa nem à confissão, mas respeitado por direito próprio, tinha estabelecimento aberto onde vendia copos e dava tremoços. Naquele sábado também ofereceu amêndoas.

Não tardou muito que a marosca do Torto com o Chiquito corresse o povo e, inevitável, fosse parar aos ouvidos do prior, alegadamente pela fieldade de Albinito, pretenso santinho, candidato a seminarista.

A ira do clérigo subiu mais alto quando se apercebeu que não podia aplicar o castigo da ex-comunhão por o taberneiro já estar mais que excomungado, restando-lhe como vingança proibir o Chiquito de ir à catequese, coisa que o pai nunca tinha feito por aquele respeito que o fazia ser uma pessoa respeitada por todos. Por todos, menos pelo padre, que teve de engolir em seco a troça do povo que não considerava roubo uma partida.

No dia 20 de Junho de 1974, Albino, quase padre, tendo tomado partido por causas revolucionárias, abandonou o seminário. Chegado à terra, dirigiu-se à taberna de Franscico Santos e pousou um saco de dez quilos de amêndoas em cima do balcão.

- Parece que tenho uma dívida aqui há muitos anos!...

- Aceito por respeito meu rapaz! Mas para bebermos os dois um copo parecem-me mais indicados uns tremoços!... Que pena tenho de não termos aqui um "kodak" para mandar uma fotografia deste momento para França! Aquilo é que o meu Chico ia gostar!...

domingo, 14 de junho de 2015

Início da aulas - 7 de outubro

No tempo em que existiam as férias grandes a gente chegava a outubro cheios de desejos de escola. Eram três meses em que tudo se fazia, desde tomar banho nos tanques dos quintais, de ler, de trabalhar, a uma primeira experiência sexual. Se por acaso, em setembro, já não coubéssemos em casa, éramos enviados para casa da avó para aprendermos o que era o campo e brincarmos com os primos da aldeia ou, noutro sentido, íamos para casa dos primos da cidade para sabermos o que eram semáforos e brincarmos com as primas asseadas.

Hoje em dia o desejo do primeiro dia de aulas nem chega a ser sentido. Os jovens nem chegam a descansar do cheiro a escola. As férias do verão estão reduzidas ao tempo mínimo para as escolas poderem fechar e abrir o ano letivo.
Há escola a mais e família a menos nos tempos das nossas crianças e jovens?! Nem todos pensam assim, o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Albino Almeida, perdão, Jorge Ascensão, defendeu que as aulas deveriam ser interrompidas apenas durante um mês por ano

Respeite ao menos o Natal senhor Jorge!