Acossado pelo espírito da homília dominical, arraigado do
mais puro espírito cristão, imbuído do verdadeiro espírito natalício, o senhor
Jesus saiu da igreja determinado a seguir à risca a palavra do Senhor. Coisas
bíblicas como o “se tem duas túnicas…”, “um camelo passar pelo buraco duma
agulha…”, “não se pode servir a Deus e ao dinheiro…” e, sobretudo, aquela do
Menino ter nascido numa manjedoura, há muito tempo que atormentavam o homem e
aquele domingo de dezembro apresentou-se-lhe como o dia da Revelação do Céu.
O senhor Jesus herdara e mantivera toda a vida a criação de
gado do seu pai lavrador, abastado suficientemente para não deixar o filho
solteiro.
Quando chegou a casa, por volta do meio dia, e disse à
mulher que ia soltar as vacas, ela pensou que fosse do estábulo para a cerca. Nem
lhe passou pela cabeça que fosse da cerca para fora!
Depois do almoço começaram a aparecer vozes à porta:
- Ó senhor Jesus, as suas vacas andam soltas por aí!...
- As minhas vacas são também vossas vacas, cuidem também
vocês delas!
Toda a gente deu o senhor Jesus como louco ou possesso de
espírito dos demónios, incluindo a mulher que pediu às pessoas que a ajudassem
na recolha da manada. O senhor Jesus não foi com eles e dirigiu-se à exploração.
Aí chegado e com a ajuda de Deus - no seu ponto de vista- com a ajuda do Diabo
– no ponto de vista do próximo - destruiu todas as portas e cancelas que
cativavam as suas cabeças.
Quando o povo e a esposa irada chegaram com as primeiras
vacas, benzeram-se em nome de Deus, e a mulher rica viu-se obrigada a pedir à
pobre gente para as distribuírem pelos seus pequenos currais já que ali não já
não existiam condições para guardá-las.
Contente por ter levado a sua avante o senhor Jesus correu
para abraçar a mulher que, como resposta, o ameaçou de morte correndo atrás
dele com uma forquilha em direção à vacaria.
Assustado, o homem escondeu-se no meio da palha duma
manjedoura e, enquanto ela gritava de raiva em busca dele, pensava:
- Já que carreguei toda a vida indignamente o nome Dele, que
nasci em berço de ouro, que vivi que nem um padre, que morra ao menos nas
condições em que Ele nasceu!
E assim foi, trespassado pelos dentes da forquilha, ali
morreu na manjedoura, confortado pelos remorsos da companheira de toda a vida
que, cainda em si, se fez de imediato arrependida.
A verdade histórica
deveria revelar que a vaca faz parte dos presépios por esta história e não
pelos acontecimentos narrados pelo evangelista, se iam de burro e foi numa
estrebaria o que raio é que estava lá a fazer uma vaca!?...
- Não! Não é mau
gosto! Quem assassina merece todos os nomes! Já é, é tempo da Igreja tomar uma
posição e mandar retirar a vaca dos presépios.