terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Hoje é dia de Zeca

Faz hoje 29 anos, no dia 23 de Fevereiro de 1987 cumpria o serviço militar na Escola Prática de Artilharia em Vendas Novas. O camarada Nunes ouvira no rádio do balneário a notícia daquela madrugada e acordou-me com ela no regresso ao quarto: - morreu o Zeca Afonso!
Nessa manhã tomei a linha do Setil para vir à terra tratar duns assuntos urgentes: 
na janela da automotora, a paisagem desse Aquém Tejo, ditou-me esta homenagem:


amigo canto e morte
maior que o pensamento
abril não morre

por mais que novos ventos se levantem
de rumo a falsas índias
levando incautos marinheiros deste cais
abril traz sempre voz

virão mais cinco e mais
cantando sim ao dizer não
virão como tu outros iguais
fazer de maio cantiga
fazer de abril canção

amigo canto e sempre
até

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Porque hoje é Dia da Rádio

Tinha de regressar a Portugal, não suportava mais as saudades da mulher e dos dois pequeninos.
- Vou amanhã! Podes pagar o que me deves?
- Este rádio serve?

Além do fogão passámos também a ter rádio. A minha mãe era uma devota do aparelho. O rádio tem um aspecto bem francês e, na altura, o seu design dava um ar de modernidade à casa. A minha imaginação de pequenino, por vezes, punha-se a divagar sobre o que se passaria no seu interior oculto. Fartava-me de espreitar pela grelha de ventilação, parecia-me ver uns bonequitos em miniatura, insisti bastante mas nunca consegui autorização para abrir a caixa e desvendar os seus mistérios humanóides.

Era difícil a Guarda Republicana surpreender, ainda vinham a léguas a jusante, multando aqui e ali pelas duas razões de sempre - por tudo e por nada – e já um qualquer voluntário mensageiro trouxera à aldeia o “toque de esconder”. Nas tabernas, nos pátios, nas casas e em outros sítios haveria sempre alguma coisa para disfarçar ou para esconder.

- João, leva o rádio daqui, vai ao leirão de baixo e esconde-o no milheiral.
Não me recordo de haver tempo ou expressões para porquês, devo ter tido uma revelação súbita de consciência política. Quando o par de fardas armado passou à minha porta, a minha mãe fez de conta que mexia uns feijões que secavam ao sol em cima de uma manta, eu fiquei, firme e vertical, na berma do caminho, como quem assiste a um desfile militar, e era! Eles nem sequer dispensaram o olhar à minha criança.

Um rádio destes tinha de continuar, sempre vivo, no espólio da família. Há mais de quarenta anos que não se cala, os Parodiantes de Lisboa, o Badaró, o Simplesmente Maria, as canções de Abril, os noticiários do PREC e os tempos de Antena da AOC (Aliança Operária e Camponesa), o Rock em Stock, o Café Concerto, o Passageiro da Noite, a História Devida, um rádio que acompanha a história sem RAM, sem ROM, sem disco rígido, sem memória – é na ausência de memória e na sua dimensão temporal que reside a sua grandeza.

Só esta grandeza tem permitido que eu, de vez em quando, durma dentro do meu rádio afrancesado que me calhou em sortes. Costumo deitar-me no primeiro andar de amplificação, com a cabecinha radiouvinte recostada num condensador electrolítico de 15 microfarads e com os pés sobre uma resistência da ordem dos mega-ohms. Antes de me deitar desligo os terminais do altifalante e adormeço a ouvir o som directamente do transístor bipolar BC557.

Viva o meu rádio que muda de pilhas de seis em seis meses, que diz o que outros dizem, que toca todas as músicas, que é meu por herança, que não tem memória e que faz com que as pessoas pensem que quando eu falo dele é porque não tomei os comprimidos! Maluco eu? Maluco só se for pelo meu rádio!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Quem foi o idiota que me fez ir tirar um registo criminal?


É sempre assim, alguém telefona para uma tvi ou para um correio da manhã a revelar a existência dum crime, dum acidente ou dum homem que mordeu um cão, o correspondente da zona vai ao local, a notícia é repetida até cheirar mal, pede-se a opinião a um miguel sousa tavares, a um moita flores ou a um popular sobre este tipo de casos, organiza-se um prós e prós sobre o tema ou um debate com especialistas de programa da manhã, a classe política é atraída e entra no jogo, é preciso responder com programas e fundos, é preciso tomar medidas, um  deputado tem uma ideia, a assembleia vota a favor e o sindicato cala-se, porque no assunto em causa pôr em causa alguma coisa pode ser mal entendido, a lei nasce para todos, o cidadão tem de cumpri-la, dirige-se ao balcão onde se trata da papelada, paga e não bufa, desabafa durante uns tempos "só neste país!", "para que é que isto serve?", "é só para sacar dinheiro ao desgraçado!", "só burocracia!", "perdi um dia para tratar da papelada!", "filhos da puta!".

E assim surgem certificados de aplicador de produtos fitofarmacêuticos ou licenças de galinheiros válidas por apenas dois anos, licenças de condução ou inspeções automóveis caducadas, certidões de idoneidade, de nascimento ou provas de vida. Quase sempre exigências inconsequentes que arrastam papéis que dão vida aos eucaliptos, que originam faltas ao trabalho que atingem a produtividade, meios arrastados para uma ideia pobre dum fim nobre de que raramente se estudam os efeitos, que na leitura popular são só para sacar dinheiro ao desgraçado.

A Lei nº103/2015 de 24/8 exige a todos os trabalhadores que têm contactos com menores a entrega anual dum Certificado de Registo Criminal à entidade empregadora. Não li a lei, pela mesma razão que não leio as memórias da irmã Lúcia ou do Mário Soares, mas pressuponho que é dirigida a professores e funcionários de escolas públicas e privadas, motoristas de carreiras escolares, trabalhadores de lares de menores, treinadores e animadores culturais e desportivos, polícias que prestam serviços à saída das escolas, vendedores de algodão doce,etc. Diria mais, considerando certos perfis associados aos casos mais frequentemente conhecidos, é natural que haja um artigo dedicado a catequistas, padres, tios e padrastos. Diria mesmo que a lei deveria ser estendida a todos os cidadãos, já que do seu espírito se pode deduzir que em cada homem ou mulher há afinal um potencial pedófilo. 

Se isto envolver um milhão de pessoas,  a cinco euros, serão só cinco milhões de euros por ano. Nessa linha, não compreendo porque é que a medida não é de aplicação trimestral? Em três meses pode haver sempre uma tentação!

Está certo, em vez de ser a pessoa a entregar o seu registo limpo, também podia ser o tribunal a comunicar à entidade patronal o seu cadastro sujo ou o próprio pedófilo a acusar os seus desvios, mas para isso era necessário termos outro Estado e outros cidadãos. 

As televisões vão dando notícias, os "especialistas" entretêm-se com os assuntos, os deputados têm ideias, os cidadãos lamentam-se e as leis, tal como os problemas, continuam a acumular-se.

Gostaria apenas que fosse tornado público, dos milhares de certificado emitidos, em quantos constam informações que contribuam para o sucesso da finalidade pretendida.