sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Marcelo acompanha o Presidente da República a Cuba

O conhecido Marcelo Rebelo de Sousa acompanha sempre o novo Presidente da República em todas as suas viagens, visitas, abraços, cumprimentos e fotografias. Reconhece-se que, se tal não acontecesse, a comunicação social não daria a mesma cobertura mediática aos acontecimentos que envolvem a mais alta figura do Estado.

Pode bem o Presidente desfilar entre protocolos, apertos de mão e comitivas negociais que, para o indivíduo Marcelo, lá no seu  íntimo, o seu primeiro objetivo é ter encontros para o seu currículo ou , em último lugar, para o seu álbum de recordações. Ouvi-lo-emos, daqui a uns anos, a contar pormenores nunca revelados, naqueles programas de televisão para que foi feito e que o fizeram, os quais o realizador ilustrará com imagens que testemunham os seus feitos.

E assim, lá surgirá a sua imagem polida e gasta ao lado da senhora do Barreiro a quem prometeu um bagaço na campanha, a abraçar aquele secretário geral da ONU que, quando era outra pessoa, se recusou a encontrar com Fidel, a dar um aperto de mão a Obama, a beijocar a Madre Teresa de Calcutá, a agarrar ao colo a criança de dois anos que desapareceu em Ourém, a visitar a campa de Jim Morrison ou a fazer festas a um cão que nasceu com cinco patas.

É disso que Marcelo gosta, é isso que a comunicação social valoriza e é isso que entretém o povo telespetador. 

Deste modo, não espanta que a imagem que vai ficar da sua visita a Cuba seja a sua fotografia a falar com Fidel Castro.

Legenda - rigorosamente, Marcelo e Fidel

A nossa imprensa atira-se, retrai-se, contorce-se, rende-se. Tem tanta vontade de dizer mal do governo a que chama regime, apetece-lhe tanto chamar ditador a Fidel, queria tanto encontrar crianças famintas nas ruas mas não encontra nada. E depois, há que respeitar Marcelo. Ele não é  um Cavaco que mude de opinião a respeito de Mandela, ele sabe que Fidel já tem lugar de lenda na história que é presente e, por isso, nem que traga só uma foto no regresso, já lhe basta.

É possível que um ou outro empresário ou empreendedor traga projetos, de modo que só a comunicação social virá de mãos a abanar - nem a foto emblemática é obra sua!

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O ÚLTIMO OUTONO DOS VIVOS


“Este ano, de mil novecentos e oitenta e oito, o verão entrou atrevido Outubro adentro e eu, quase ia pondo janela fora as minhas folhas por ter perdido o estado de poesia – dependo muito do tempo!...”
Nos tempos em que eu era o homem que escrevia linhas destas tinha o hábito de todos os anos escrever sobre o Outono.

agora todo o ano é outono
é sempre outono
o meu país está todo outono
eu estou todo outono
tudo à minha volta é outono

só os cães de fila dos canis da tv me anunciam uma nova estação:
um longo e rigoroso inverno ao qual só os poderosos sobreviverão!
obrigado!

no verão, com os incêndios, vivi descansado de ver inundado o meu celeiro.
no inverno, com as cheias, aliviarei de ver em chamas as minhas oliveiras.
- são assim os meus dias… é este o meu tempo!
é meu, o outono
não vou na caravana seus parolos! caminho a pé!
não vos ligo nada!
amanhã vou por três meduras de azeitona no lagar.
queria dizer-vos também que continuo a servir-me do azeite numa almotolia …

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Arrendo quarto para ver o papa

No próximo dia treze de maio o papa virá a Fátima. Não me sentiria bem se não disponibilizasse acolhimento aos peregrinos, dada a proximidade da minha residência ao santuário: a pé, para cima de duas horas; de bicicleta menos de uma hora; a sessenta à hora, um quarto de hora; a cento e vinte, sete minutos e meio e a cento e quarenta, é só fazer as contas.

Arrendo quarto para ver o papa. 
O quarto está equipado com velas de cera, terço benzido e uma nossa senhora luminosa. 
Duche com água de Fátima.


Só alugo um quarto porque os outros já estão todos ocupados. Não aceito peregrinos a pé por causa do suor.

Quinhentos euros noite, independentemente da fé dos arrendatários, livre de impostos. Cinquenta cêntimos serão aplicados em esmolas para a nossa senhora da Ortiga.

Isto é a sério,  não é uma brincadeira. Contacte-me através do email reidosleittoes@gmail.com.



domingo, 16 de outubro de 2016

Terceiro lançamento do bácoro

Mais do mesmo. Começo a ficar farto de me pedirem para ir para aqui e para acolá lançar o livro. Mas pronto, até os cães gostam!...
Pelo menos, nesta nova forma de lançar livros, não tenho que me sujeitar:
- Olhe, importa-se de me fazer uma dedicatória?
- Mas para quê?
- Porque sim!

- Pronto, porque não!?


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Festa de anos entre os meus

Ainda ontem fiz cinquenta anos, hoje faço noventa - nem todos o poderão vir a dizer.

É fácil recordar aniversários idos. Um exercício mais arriscado será irmos ao futuro e relatar acontecimentos não vividos. E o melhor é fazê-lo já, antes que a consciência nos limite a sua descrição ou que a morte provavél nos impeça de bater no teclado. 

Faço noventa anos. A minha neta teve a ideia de reunir os meus amigos de que lhe costumo falar num restaurante aonde vou há muitos anos. Sabe que não gosto de festas surpresa nem de ter na mesma mesa gente que não pensa ou que pensa que eu penso com interesses segundos. Sou o mais velho na sala, posso dizer e fazer o que me apetece. Estão presentes, a minha companheira, dois colegas com quem trabalhei, três amigos com quem discuto há anos as questões curda e palestiana,  a  redução da história à história da luta de classes, a adulteração do vinho com novas castas e a necessária abertura da sociedade à poligamia. Os restantes são gente mais nova que me acarinha a idade e me tem como uma espécie em vias de extinção ou, apenas, como um velho rabujento e ressabiado que, apesar de tudo, tem graça e diz umas verdades.

Falo já arrastadamente mas, como falo baixo e raramente, quando falo para um grupo toda a gente se cala ou baixa a voz, não sei se por respeito, se para me tentarem perceber, ou por me admirarem .

E então digo:
- Parece impossível como uma canção de melodia tão pobre e banal, uma letra tão pobre e banal, seja o tema mais universal e mais cantado por toda a humanidade nos últimos noventa anos. Ainda por cima, na versão portuguesa, ela não dispensou o " a você" brasileiro. Detesto essa música! Por favor, não me a cantem!

Começam a filmar.
- E por favor também não me estraguem a festa com câmaras de video. Vivam os momentos, não os guardem para viverem depois ou para mostrarem a outros que estiveram presentes quando, afinal, não participaram neles porque deles se arredaram por detrás de objetivas. Enfiem os telemóveis e as tabeletes no reticências com apenas dois pontos, um para cada um dos carateres.
(- Olha! Obedeceram-me!...)

E então, do alto dos meus noventa anos, subo para cima da mesa, parto dois ou três copos - coisa que não acontecia dantes - e começo a recitar a minha versão da Ceia dos Cardeais.

(Os parágrafos seguintes contêm termos impróprios para alguns arredados da linguagem popular mas um homem com noventa anos pode dizer aquilo que lhe apetece sem pedir desculpas a ninguém) 



- E vós cardeal, nunca amastes?
- Amei sim, eminência, uma donzela, pura e bela! Mas o pai dela, esse estupor, casou-a com o labrego dum lavrador!
- E nunca mais a vistes?
- Vi sim, eminência!Um dia, encontrámo-nos a sós num belo jardim! Beijei-a na boca, na testa, no nariz! Eu sei lá o que lhe fiz! Logo ali, sobre um carro de rodas, lhe mandei quatro valentes fodas!

Entretanto, eis que chega o marido - um homem alto, trancudo e sagaz! Que me exclama à bruta:
- Então? Seu filho da puta! Isto é o da Joana? Isto é o que se quer? Chega-se aqui e fode-se-me a mulher?!
E dizendo isto, exclamou:
- Ó Bento, traz cá o jumento!
- E sabeis para quê eminência?... Para me enrabar!... E entre gritos e urros - se lhe parece, ser enrabado por um burro, lá sofri o meu castigo!...
E como se não bastasse mandou que me atassem a um carvalho e, logo ali, me cortam os colhões pendentes... e o caralho.
Justiça de marido: quis foder, fodi, mas fui fodido!...

E, rezada a Ceia, bateram palmas que nem uns desalmados e eu desci da mesa amparado por três deles. Todos acharam muita graça à minha recitação e todos perceberam que só a viveram porque desligaram as máquinas.

No entanto, passados instantes, já todos estavam nas suas mensagens e a reclamar que eu soprasse velas e a oferecerem-me presentes embrulhados.

- Estais preocupados com o ambiente? Então porque gastais papéis em embrulhos? E que prendas são estas que não são livros, nem vinho, nem azeite?! Parem com as fotos! Parem de me tratar como uma relíquia! Eu não sou nem mais velho, nem mais novo do que vós! Sou vosso contemporâneo!

- Irra que o velho é mesmo rabujento!

Puxo duma colher de sobremesa e tento atacar o autor da frase.
- João tem calma! São jovens, não pensam!

A minha neta segreda-me ao ouvido:
Rabujentos são os meus amigos! Avô, quando eu fizer noventa anos, vou fazer qualquer coisa parecido! E quando fizer cem, ainda estou para aprender com o que vais fazer!

E não é que eu ainda durei mais dez anos!...

(o título deste post foi pra facebookiano ver)





domingo, 9 de outubro de 2016

Segundo lançamento do bácoro

É com muito prazer que aqui deixo imagens do segundo lançamento do bácoro.
Em primeiro lugar quero deixar um muitíssimo obrigado a todos os que não estiveram presentes.
Em segundo lugar quero deixar a minha satisfação pelo facto do Presidente da República não ter estado presente.
Em terceiro lugar quero afirmar que este livro não se rende aos circuitos comerciais capitalistas.
(Quarto, lugar onde se passa uma das histórias do livro).
Em quinto lugar que informar  que este livro apenas pode ser adquirido na candonga.
Em sexto lugar quero desejar que este livro apenas seja adquirido por quem revelar manifesta vontade do ler.
E em último lugar digo-vos que este livro não é um livro qualquer porque é meu - isto segundo o meu ponto de vista, obviamente!