domingo, 14 de maio de 2017

Chega-te para lá Fátima, deixa-me dormir, quem sabe, sonhar!...

Homenagem a Baptista Bastos com desenho de Onofre Varela - Maio 13, 2017

Já chega. Ao longo dos últimos meses o Rei dos Leittões assumiu-se como o único blogue não crente que assinalou religiosamente o Centenário das "Visões" de Fátima. 

Passado o 13 de maio atingiu-se o climax. Acabou-se o Centenário e ainda o ano não vai a meio. Inaugurou-se um terço gigante e lá ficou, vieram os peregrinos mas foram-se, publicaram-se coisas e mais coisas e já estão nas estantes ou na reciclagem das papeleiras, veio o Papa mas foi-se. Se quisessem que a coisa se aguentasse mais tivessem convidado o Papa para vir a 13 de outubro, que é a data do milagre em que o Sol incandesceu ou insandeceu - não se sabe bem - e passaríamos a época balnear e a campanha eleitoral com as câmaras da tv e os olhos na Cova, nos videntes, nas virgens, nos clérigos, nos peregrinos, na grande operação.

Mas assim não! Descansemos! Ao Centenário restará pouco mais que a inauguração dumas alminhas na aldeia da Ramila na Serra de Aire, uns almoços de crentes abastados no Tia Alice, em Fátima Velha, uma entrevista ao Bispo de Leiria e umas declarações do Presidente da Câmara de Ourém a reclamar sucessos pessoais e a mostrar-se satisfeito consigo próprio.

Também muitos peregrinos ficarão satisfeitos pelos seus feitos de rezarem Avé-Marias de joelhos e falarão da mensagem de Fátima que ninguém sabe ao certo muito bem o que é; os padres falarão repetidamente da mensagem que o Papa deixou, por sinal muito igual à de todos os padres; os críticos ateus ficarão mais calmos depois de terem atirado achas para as suas explicações do fenómeno sem se aperceberem que não há nada para explicar; a TV voltará ao tema quando não houver Benfica e os operacionais dos ramos da crença e do comércio terão de esperar por outras efemérides para terem novas consolações.

Mas pronto, repetir a palavra Paz já é bom nem que nos intervalos se não disfarce o entusiasmo por umas bombas maternais que o tio Trump venha a largar sobre povos pouco cristãos, da Líbia à Síria, da Venezuela a Cuba ou dum paiol do Pacífico à Coreia do Norte.

Da minha parte, tenho a parte cumprida no que toca ao assunto. Fico apenas com a sensação de que, tal como muitos portugueses, depois de tanta história contada, nunca saber o seguinte: sabendo que uma era Lúcia e não Lúcio, confundo-me sempre e não sei dizer se os outros dois eram Francisca e Jacinto ou Jacinta e Francisco.

Entretanto... mudando de assunto:

O Papa fez o seu número mas eu não sou católico
O Salvador ganhou o festival mas eu não vou em cantigas
O Benfica ganhou mas eu não sou benfiquista

O PS subiu nas sondagens e eu não sou socialista
O défice deixou de ser excessivo e a prestação da casa continua alta
O desemprego baixou e o meu filho continua em casa

Mas o que me preocupa mesmo é o cabrão do autoclismo que continua a pingar
E o filho da puta do nível de óleo do carro que continua a baixar
Já para não falar do nível de colesterol que continua alto

E eu gosto tanto de leitão
E gosto de dormir para sonhar
Mas se me continuar a faltar o sono e o carcanhol
Eu vou mas é falar com este gajo:

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Ir a Fátima e não ver o Papa


- JÁ CHEGA!


(Este post destina-se apenas àqueles que hoje não ligaram a televisão)

Contava contar-vos hoje uma visão que tive de madrugada. Via eu uma multidão de homens e mulheres, populares, à volta duma virgem, via um ancião vestido de branco acenando a todos e a este e àquele, via gente abrindo os braços em sinal de louvor, gente de mãos erguidas pedindo isto e aquilo e saúde, via lágrimas de sofrimento e emoção, sorrisos de felicidade e de graças, portanto, uns contentes outros nem tanto, via Fátima. Contava também agradecer a não sei quem - se à Senhora de Fátima, se ao Papa, se ao António Costa, se à Assunção Cristas -  a tolerância que me deram sem eu a pedir.
Mas eis que os comandos da televisão não resistem a um dia em casa e, para meu espanto, a minha visão perdia qualquer valor porque acontecia em todos os canais - honrosa exceção para o Sport TV e para o Vénus. Fiquei chateado! Talvez tivesse adormecido a ver televisão e a minha visão não passasse dum sono leve no sofá e não duma revelação de ordem sobrenatural! 
(Irritou-me também a devoção às virgens porque lembrou as relações históricas entre cristianismo e islamismo e aqueles que, segundo a televisão, se fazem explodir porque, por o fazerem, serão recebidos no céu por dezenas de virgens. Esta fixação dos homens, castos ou varões, pela virgindade das mulheres é uma coisa que não cabe na minha civilidade! Que me perdoem as irmãs e os machões!)

No meio de tudo isto surgiu a minha filha. Aconselhada por mim a seguir a vida religiosa desafiou-me quando, sem o meu consentimento, se fez militante da JCP. Pensei: de mal o menos! Duma forma ou de outra não terá um namorado da JS ou da JSD! Mas eis que premiada, pelo pai remediado, com uma lambreta, por ter concluído o 12ºano apenas com negativa a Religião Moral, hoje me disse:
- Pai, eu vou a Fátima ver o Papa!
E passei eu todo o meu santo dia a ver se via a minha filha na televisão - tentativa frustrada - para me chegar ela agora a casa, depois do jantar, e completar-me o vão do dia:
- Pai, corri Fátima toda de mota e não vi o Papa!
E eu, sempre paternal e amigo, santo pai:
- Manda lixar o papa, tens aqui o papá! Este ano iremos à Festa do Avante e vais ver o Marcelo Rebelo de Sousa! Por tua causa já vi hoje mais televisão do que no dia do funeral do Mário Soares!
Come e cala-te, de papa JÁ CHEGA!



quinta-feira, 11 de maio de 2017

Fia-te na Virgem e não corras!



Vivo nas barbas de Fátima! O marcador Fátima deste blogue assinala o que penso, sobre o que vejo, sobre o que respeito e não respeito. À minha porta passam peregrinos, dia e noite, respeitados, apesar de escolherem o Caminho do Sofrimento, desrespeitados pelo Caminho que lhes traçaram. É uma dor de alma ver estas almas palmilhando o asfalto dos cabrões quando poderiam calcorrear os carreiros das cabras.
Sou recorrente nesta observação, mas enfim, não há Junta de Estradas, nem Santa Madre Igreja, nem Grupo de Escuteiros que queira indicar melhor caminho: sem perigo de atropelamento, não há peregrinação, não há teste às graças do Céu. 

Mas volto a este tema porque hoje, mesmo hoje, vi uma senhora peregrina, só - que é a forma mais perfeita de se ser peregrino - atravessar a passadeira aqui do burgo de pés descalços. Abeirei-me sem piedade, solidariedade ou curiosidade, foi um ato de mero observador:
- Já observou que não leva nada calçado?!
- Venho de Vila Nova de Poiares descalça! Num país de católicos, ainda não se abeirou de mim uma única alma que me tenha oferecido umas alpercatas! Quando chegar ao santuário vou roubar os primeiros que estiverem à mão! Dirão:- É ladra! Responderei:- Sou cristã!

Tudo é de todos! "Bens em comum" - a máxima dos primeiros cristãos. Se uns sapatos não estiverem calçados, quem terá o direito dos reclamar? Os sapatos a quem caminha!

Nota: Coloquei o título, coloquei-me a escrever, coloquei-me a vaguear, a caminhar pelas palavras...
mas também já não vou emendar - é um bom título: "Fia-te na Virgem e não corras"! 
O texto não condiz mas é o povo que o diz! 
Outra nota: Quando me abeirei da senhora eu vinha a sair das piscinas municipais - estava descalço!

Fátima numa frase batida: "... mas respeito!"

Com respeito ao respeito o respeito a todos respeita. Mal iria a nossa sociedade quando dividida entre os que professam Fátima e aqueles para quem Fátima não passa dum fenómeno de massas de cariz religioso se as partes acabassem em ofensas verbais ou alguém recorresse à chapada para esclarecer  posições diferentes.
.
Da minha parte, todas a expressões de peregrinos, com rostos assim ou com rostos assado, com  mãos erguidas ou braços abertos, com botas de caminhada ou com mau calçado, de sofrimento ou alegria, todos os padres e comerciantes, todos os estudiosos do assunto e testemunhos crentes me merecem humanamente respeito.

Não conto espingardas mas, entre os que afirmam que a Fátima foram, que a Fátima vão, ou que a Fátima irão por ter Fé na Virgem, outros tantos existirão que dirão "não acredito em nada daquilo mas respeito".

Da minha parte, respeitar o que é humano é um preceito. Duvidar do que ultrapassa a humanidade é um princípio. E, porque estamos em maré em que todos vão, se não for pela Fé porque respeitam, quero deixar aqui bem claro que a minha opinião, as palavras como a expresso, as razões que me assistem, a minha humanidade livre de divindades, a minha vida limitada aquém da morte, também merecem respeito.

E, quando alguém diz: 
- Está provado, mais que provado, a Nossa Senhora desceu dos Céus, apareceu a três crianças e  o Sol dançou o fandango! 
Eu posso responder-lhe:
- Vai dar uma volta! Isso é uma história muito mal contada! É tudo uma treta!
E, se me disserem que lhes estou com considerações dessas a faltar-lhes ao respeito, eu posso dizer-lhes que não me estão a respeitar por não respeitarem as minhas considerações! É o chamado respeito recíproco!

Bom caminho e peçam aos novos santos que não chova que eles vão com certeza atender-vos.--

terça-feira, 9 de maio de 2017

Que os coletes verdes os salvem

Desde que me dei aos estudos que ganhei esta mania académica de classificar. Hoje apetece-me classificar os portugueses entre os que vão a Fátima e os que não vão a Fátima. De entre os que vão a Fátima, vou subdividi-los entre os que vão de carro e os que vão a pé.


Os que vão a pé vão já quase todos de colete verde, uma peça de vestuário tão característica dos tempos que vivemos como o colete encarnado do campino de outros tempos.
Ir a Fátima a pé é uma nova forma de religiosidade que, na Fé do crente, redime o absentismo pelas práticas tradicionais do ir à missa ao Domingo e à confissão, por outras palavras, de andar à volta das saias do padre.

Fátima, à volta da Imagem da Senhora, tem-se “vaticanizado” e transformado numa sucursal da Praça de S.Pedro onde os leigos, cada vez mais pecadores, se ajoelham aos gestos do secular clero. Mas os padres de Fátima nunca foram bons anfitriões do peregrino pedestre e a hotelaria local nunca lhe suportou o chulé. E, no entanto, ambas as partes, os toleram e reconhecem com um dos dentes da chave do negócio.

Vêm estes parágrafos, aparentemente inconsequentes à razão, pelas razões que me atravessam a revolta quando vejo tanta gente caminhar perigosamente pelas estradas, respeitosamente pela Fé, incompreensivelmente sem um mínimo de atenção ou consideração pela parte das autoridades religiosas ou civis. Todo o apoio que encontram pelo caminho, nasce da iniciativa de organizações ou movimentos que nada têm a ver com os cofres ou com os lucros com que o negócio-milagre tão bem se alimenta.

Reconhece-se que o peregrino de Fátima, português, caminha, antes de mais nada, por penitência, que dispensa o conforto e tem Fé que do perigo a Sua Senhora o livrará. Mas não seria a altura, agora que a indumentária refletora esconde o pobre Portugal do século XX, dos chefes da Igreja e da política terem uma pequena consideração por esta gente?!

Caminhos e trilhos que os desviassem do asfalto sem bermas para peões, parques e albergues que lhes permitissem dignas paragens e, se mais não fosse, apenas isto: um parque de campismo e balneários na pequena cidade-fenómeno. Mas não, a Igreja reverteu todas as esmolas para a maior obra de culto que fez em Portugal desde o Convento de Mafra: a nova basílica. Não foi feita para o “pé de ténis chineses” de quem chega a pé, foi feita para os japoneses, brasileiros e portugueses que vem com os pés limpos das alcatifas dos modernos meios de transporte, que melhor servem os  interesses do turismo religioso.

Nestes dias entre os automóveis veem-se muitas tendas e coberturas de plástico. Ao menos um parque de campismo! Nunca ninguém se lembrou!? Parece incrível!...


sábado, 6 de maio de 2017

A verdade sobre o milagre de Fátima

Transcrevo este texto com a primeira intenção de o registar no ciberespaço como documento histórico, na certeza de que não será fácil aos investigadores ter outros acessos ao mesmo.



Trata-se dum testemunho de Artur de Oliveira Santos, Administrador do Concelho de Ourém à época das aparições e, nessa condição, protagonista da história de Fátima. Nele o autor manifesta sentir-se injustiçado e ferido na sua honra pela personagem que a partir do seu nome foi criada para fantasiar a história de Fátima. 

Depois do Relatório que dirigiu ao Governo Civil de Santarém em 1924, Artur de Oliveira Santos teve um percurso que passou pela prisão, pelo exílio em Espanha, durante a Guerra Civil, e só depois, quando regressado a Portugal, terá sentido mais intensamente a história que se estava a construir e que o apontava como o ator que tinha o papel de "mau da fita".

Terá sido esse facto que o levou a redigir este texto que veio parar à minhas mãos pela mão de pessoa amiga, amiga de Artur de Oliveira Santos, que com ele privou e com a família. Porventura, como forma de reconhecimento à abordagem que aqui tem sido feita a propósito da questão de Fátima, entregou-me fotocópia dum texto dactilografado pelo autor que, segundo pensa, terá sido publicado no jornal "A República" de 20/07/1951, na forma que aqui se deixa ou eventualmente noutra, fruto de correções posteriores que o ofendido tenha entendido, por bem, fazer.

A VERDADE SOBRE O MILAGRE DE FÁTIMA

Há um facto, que tanto e tão injustamente tem sido tratado, para pretenderem ferir a honra de um homem cujo defeito, para determinadas pessoas, é o de não servir nem prestar-se a ser instrumento das mais asquerosas mentiras, e que vem agora à superfície. A Deus o que é de Deus, a César o que é de César.

Em 13 de Agosto de 1917 fui a Aljustrel, um lugar a poucos quilómetros da freguesia de Fátima, com o objectivo de acabar com uma especulação que em volta do chamado milagre de Fátima se estava realizando. Ao tempo a Igreja não tinha intervenção no assunto. Acompanhado do Oficial da Administração do Concelho, Cândido Jorge Alho e de João Lopes, condutor de uma charrete puxada por um cavalo, seguimos para a referida povoação, onde habitavam o Francisco e a Jacinta, além de Lúcia dos Santos. Ali se encontravam seminaristas e padres, e um destes, que disse chamar-se João, do Concelho de Porto de Mós, interrogou a meu pedido as criancinhas.

A Lúcia dizia ter-lhe aparecido a Santa na Cova de Iria, o Francisco e a Jacinta limitaram-se a dizer que a Lúcia é que sabia, eles não tinham visto nada, O pai de Lúcia, o Abóbora por alcunha, dizia que a filha era uma intrujona. Os pais do Francisco e da Jacinta conservavam-se em dúvida. Consegui que os pais das crianças e o padre João, sem ameaças de nenhuma espécie, antes tratados com toda a benovolência, me acompanhassem a Fátima, a casa do Prior da Freguesia, para ali serem interrogados pelo mesmo, Padre Manuel Marques Ferreira.

Nada tinha combinado com o prior antecipadamente, nem tão pouco ele combinou nada comigo, durante a minha permanência e a das crianças, na residência paroquial.

O pároco, que não acreditava no que Lúcia dizia, interrogou as três crianças a meu pedido e nada adiantaram do que já tinham dito ao padre que dizia chamar-se João.

A minha intenção era trazer as crianças por meios suasórios para minha casa, como na madrugada de 13 (treze) de Outubro eu tinha dito ao Tenente, comandante da força da G.N.R., e nunca por meios violentos. E assim sucedeu, como é do conhecimento imparcial e honrada da população.

Vieram as crianças para minha casa, onde foram recebidas e tratadas como se fossem da minha família, durante dois dias que lá estiveram. Assistiram a uma procissão, que se realizou no dia 13, a qual foi por mim autorizada, à sombra do Artigo 57º., da Lei da Separação, como foram autorizadas todas as outras em todo o concelho, durante o tempo em que exerci o cargo do administrador do concelho, sem que houvesse a mais pequena nota discordante.

Brincaram as crianças de Fátima com os meus filhos e outros rapazes durante os dois dias, tendo sido visitadas por bastantes pessoas, algumas delas de categoria social, como o comandante da força, Dr. António Rodrigues de Oliveira. No largo da Louça haviam aparecido dezenas de pessoas que lhe queriam falar, o que recusei por serem muitas, com excepção de uma mulher que encontrei no Largo e que me pediu por todos os santos e santas, para só as deixar ver. Tive de transigir. Na noite do dia 13, estiveram às janelas da moradia do falecido Augusto Monteiro Batalha e da sua esposa, Srª.D. Virginia Nicolau, felizmente ainda hoje viva.

O que é falso, falsíssimo, é eu ter ameaçado ou intimidado as crianças ou terem estado presas, incomunicáveis ou sofrerem a mais pequena pressão ou violência, como pode ser testemunhado pela própria família e por toda a população séria e honrada, de todos os credos políticos e religiosos da minha terra.

O pai de Jacinta e Francisco, esteve na Administração do Concelho, ali chamado para levar os filhos, o que não fez, limitando-se a dar-lhes uma reprimenda. Compareceu também o pai de Lúcia, António dos Santos, por alcunha o Abóbora, com a filha Lúcia dos Santos.

Interroguei-a sobre a Santa e continuou a afirmar tê-la visto numa azinheira. Caía porém em contradições e, tendo ouvido a opinião de dois médicos sobre a estranha afirmação, que se pronunciaram ser ela uma doente, perguntei ao Abóbora o que dizia ele a respeito da filha. Resposta teatral: - O Senhor Administrador, não acredite nela porque é uma grande intrujona!

Retiraram no mesmo dia à tarde para suas casas e só no dia 13, se passou o que atraz me refiro, indo eu na mesma charrette com o João Lopes e o Oficial da Administração, Cândido Jorge Alho.

Deixei as crianças em casa do Prior da Freguesia, Rev. Manuel Marques Ferreira, no dia 14 de Agosto à saída da missa. No largo da Igreja foram as crianças abordadas por inúmeras pessoas, que lhes perguntavam o que lhes tinha acontecido. Havia uma certa hostilidade contra a Autoridade Administrativa e também contra o Pároco da freguesia a quem o povo acusava de ser conivente na ida das crianças para Ourém, mas tudo se desanuviou, afirmando eu na varanda da casa de residência do Prior, ao povo, que o Prior de nada sabia, ao mesmo tempo que as crianças abordadas por inúmeras pessoas, diziam que tinham sido bem tratadas. Mandei seguir o cocheiro com a charrette e o Oficial da Administração para Ourém e fiquei em Fátima, donde à tarde regressei num carro dum amigo particular.

O resto são calúnias, infâmias, ditas por aqueles que, propositadamente para encobrirem as suas mazelas, se lembram das espalhar, para fins de predomínio e de exploração, que brandam aos Céus!

Respeitei sempre e respeito as ideias dos meus adversários, para que respeitem também os meus ideais.

Tenho a subida honra de contar amigos em todos os campos, como também tenho inimigos implacáveis, uns que conheço bem, outros que se acobertam no anonimato indigno. O que é extraordinário é que - apesar de tantas acusações que me são feitas, até agora o meu certificado  de registo criminal apareça limpo - e isso não acontece a certas pessoas que pretendem atacar-me.

Em Espanha, durante o tempo do meu exílio voluntário, defendi sempre, como soube, o nome de Portugal, e mesmo honrá-lo, nunca tomando parte em manifestações contrárias ao nosso brio nacional. Tenho as mãos limpas de sangue ou de roubos, como eu disse ao cônsul de Portugal, Sr. Xara Brazil, que teve a confirmação da minhas afirmações, e também o prazer de avaliar que nenhuma acusação da polícia me era desfavorável.
Por isso pude vir livremente para Portugal. Senão, não tinham agora os meus acusadores o trabalho e a desfaçatez de me atacarem com tal fúria e de maneira tão caluniosa.

Estive a trabalhar nos hospitais, no período da guerra, como vigilante e encarregado de dispensas e armazém. No hospital de S.João de Deus, em Madrid, consegui guardar quadros de valor artístico, histórico e religioso, de uma turbamulta que tudo destruía. Isto pode ser confirmado pelos médicos, enfermeiras, e até pelas próprias freiras.

Quanto ao procedimento e à maneira como cumpri os meus deveres, indico as seguintes testemunhas: Padre Rafael Fernandes, cura de Chamartin; tenente coronel D. Luis Muñoz Balcasar; D. Alejandro Canis, ilustre professor; Srª D. Luisa Maria Lopes Ochôa, chefe de pessoal do hospital, filha do general Lopes Ovhôa; dr Carvajal, chefe da Direcção Geral de Seguridad, e mais de trinta ou quarenta falangistas, cujos nomes posso indicar.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

O meu pai assistiu ao 13 de outubro, mas não viu nada

Excerto da Entrevista de Sérgio Ribeiro ao Diário de Notícias de hoje, 5/05/2017. 
O único comentário que me autorizo a fazer é: "nas barbas de Fátima".

...
Nessa sua infância e juventude aqui, a meia dúzia de quilómetros da Cova da Iria, o fenómeno Fátima era muito presente em toda a gente...ou não?
Não. Eu sinto-o quando vejo passar os peregrinos, claro. Mas veja: eu nunca conversei sobre Fátima com os meus vizinhos. Sei que Fátima tem uma influência muito grande, mas não de forma direta. O meu pai tinha 19 anos e assistiu ao 13 de outubro ["milagre do sol"].

Foi lá, à Cova da Iria?
Sim, foi. O meu pai será o maior responsável pela minha posição em relação a Fátima. É uma versão contraditória da que vingou. O meu pai era comerciante em Lisboa, tinha muitos amigos. Alguns deles nos anos 40 e 50 vinham cá, dormiam cá em casa. Ele não era crente, era agnóstico. Sobretudo anticlerical. Batizou-me, só. Quando eu lhe fazia perguntas, com a curiosidade de miúdo, ele dava-me esta explicação: "Eu fui lá ver o que se passava. E não vi nada! Ou por outra: vi coisas que achei naturais."Até fazia comigo esta experiência (das poucas vezes em que falámos do assunto) - "pega numa imagem qualquer, olha para isto fixamente durante uns minutos, olha para o céu, e vês a imagem refletida".

E foi o que lhe aconteceu?
Sim. Isto no meio de uma massa de gente cria uma ilusão coletiva. Agora chama-se visão, como diz bem numa entrevista recente o D. Carlos Azevedo. Mas isso é contraditório! Como é que se explica que a partir de uma visão se canonize duas crianças? Como é que o D. Carlos Azevedo, por uma questão de rigor de linguagem - para evitar o ridículo - pactua com o ridículo da canonização de duas crianças que foram induzidas a ter visões pela prima mais velha...que era uma visionária.

Mas qual é a sua versão sobre os acontecimentos de Fátima?
Acho que é claríssima a evolução histórica de Fátima. Começou por ser reticente a aceitação da mãe de Lúcia, da Igreja, dos padres. A Igreja não deu aval durante muitos anos. Mas em contrapartida ia comprando terrenos à volta... a tese de Luís Filipe Torgal é claríssima, por ser comprovável. É um estudo histórico e científico. A Igreja ia mantendo as suas dúvidas, teve como grande estratega o padre Manuel Formigão...e numa primeira fase é reticente, muito no registo "se isto der... logo se vê. Se não der, não estamos comprometidos".

Foi próximo do administrador do concelho da época, Artur de Oliveira Santos. Que relação tinha com ele?
Havia uma revista que se publicava em Portugal - Seleções de Reader"s Digest - que tinha uma secção chamada "O meu tipo inesquecível". Se eu tivesse que escolher um tipo inesquecível para mim era o senhor Artur de Oliveira Santos, um amigo excecional. Era um homem de raiz operária. Depois era um homem culto, da propaganda republicana. E era um ativista político. A sua atitude era política.

E foi o administrador do concelho de Ourém naquela altura...
E é um dos grandes responsáveis por Fátima ter vingado. Porque se ele no dia 13 de agosto não tivesse ido buscar os miúdos, talvez as coisas fossem diferentes. Ele foi buscá-los para casa dele, tratou-os exatamente como tratava os filhos, que conheci muito bem. Era um homem excecional de bonomia, de bondade, mas de intervenção. Não fora isso, havia menos um argumento contra a República. Dou-lhe um exemplo: eu miúdo, no final da guerra, já voltado para as questões políticas, fui com o meu pai ao Cinema São Jorge, em Lisboa, ver um filme americano sobre Fátima, em que dão o retrato do Artur como um facínora.

Ainda hoje prevalece um pouco essa imagem...

Ou que é feita prevalecer. Isso é das coisas que me indigna. E é uma das minhas batalhas. Nesse dia, vejo o meu pai levantar-se e a gritar "é mentira!". Isto no tempo do fascismo... na fase política de Fátima. Depois de a Igreja começar a aceitar, Fátima foi muito bem aproveitada pelo Estado Novo, naquele "casamento" Salazar-Cerejeira.
...

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O Papa não vem com muito gosto

Esta é já a sexta vez que um papa vem a Portugal, fazendo do nosso país um dos mais papistas do mundo, e esta é a vez de maior projeção mediática. Também, nunca como agora, surgiram artigos e publicações críticos a propósito das histórias de Fátima. Até eu, modestamente, sem a eloquência, o rigor ou a responsabilidade que cabe em outros, tenho aqui dado um ar da minha graça.. 



Contudo, as vozes céticas provocam um impacto diferente se vindas de dentro da Igreja ou de alguma personalidade pública manifestamente católica. É o caso dum artigo de opinião, com o título "Fátima nunca existiu", que enche a penúltima página do Público de 24/04/2007, assinado por Ascenso Simões, aí identificado como "católico, gestor e político". Investigando mais sobre a identidade do autor apurei que se trata dum destacado deputado do PS conhecido, entre outras coisas, pela sua assumida religiosidade católica.
O católico, gestor e político começa por fazer uma reflexão fundamentada de aspetos da sua Fé, provando que não tem Fé por obra e graça do Espírito Santo mas com base num raciocínio pessoal interiormente aprofundado, continuando e terminando nos termos aqui transcritos:
"...
Fátima é um espaço mágico que não carece de histórias pueris para se afirmar, que se impõe pela necessidade de uma recolha individual perante a intercessão de Maria perante Deus.
As aparições, os segredos e, agora, as canonizações, são um atentado à nossa inteligência e à nossa fé. Porque as exposições históricas nos indicam o primarismo dos relatos, porque a existência de um testemunho consagrado por três crianças ignorantes nunca se poderia cumprir. Fátima foi construída, nas suas fundações, num tempo de complementaridade com um regime, era necessária uma narrativa que a fizesse acrescentar medo, obrigações e demissões de cidadania.
...
Neste mundo não há milagres por apelo a anteriores viventes terrenos e não há, por isso, Santos.
Este ano não se observam 100 anos da primeira aparição de Nossa Senhora aos pastorinhos; não se verifica qualquer cumprimento de aniversário de uma mensagem que alguém inventou; não podia, sequer, transformar-se a visita papal na criação de mais dois lugares na constelação dos Santos. O que hoje se impõe é que Fátima se reinvente, que seja o local de acolhimento perante Deus, que quem continua a seguir uma linha de procura de um ser superior seja levado a uma inteligente opção pela fé.

Francisco, mesmo que a contragosto, vem a Fátima. Faz a sua parte. Não como Bispo de Roma, mas como Chefe de Estado da burocracia vaticanista."

Não pude deixar de partilhar esta visão porque partilho dela, exatamente, o que lhe é mais criticável, a contradição explícita: a utilidade de Fátima num contexto de falsidade. Já ilustrei essa posição aqui.
Poder-se-á desmascarar Fátima mas não é o momento de voltar atrás. Fátima nunca existiu? Existe! Não lembrará a Deus nem ao Diabo, nem ao Papa, acabar com Fátima e tudo o que ela envolve. Seria um desastre para a Igreja, para o turismo, para o comércio, para a cidade, para o concelho, para o presidente da Câmara de Ourém e sobretudo para os crentes que ali acomodam as suas mágoas.
Tenhamos calma, Galileu esperou cinco séculos.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Mais um milagre de Fátima

A minha tia foi menina, rapariga, solteirinha, solteirona e agora é beata demais para poder vir a ser santa. Porque respeito muita a sua devoção à Virgem, na preparação da viagem do passado fim-de-semana à Terrinha, passei por Fátima e comprei-lhe uma santa.

Entrei na loja e senti-me intimidado pelo olhar multiplicado das santas multiplicadas, intimidação essa, reforçada pela abordagem da lojista que, ao dirigir-me a palavra num tom angelical, recebeu a minha seca amabilidade:
- Que virgem desejais senhor?!
- Com menos de meio metro e luminosa! É para a minha tia que já está de pés para o Céu e vê muito mal!
- Escolha daqui!
- Mas são todas iguais!?
- Nesse caso tem a escolha facilitada!
- Já estão benzidas?!
Sorriu por me ter descoberto o grau de prática religiosa; é obvio que ninguém vende objectos religiosos já benzidos! Essa operação fica ao cuidado de cada um e foi coisa que, pela pressa, não consumei mas que fiz questão de ocultar à minha tia que também me tem ocultado, com esperteza de sacristia, as contas bancárias e outros bens que aguardo para um dia.

- Tia! Trago-lhe uma prenda! Olhe só para este olhar!... Benzida pelo cardeal de Cracóvia que esteve esta semana em Fátima!

Quando no domingo voltei à casa para engraxar a despedida, estava a velha com a velha vizinhança, debitando o terço à volta da imagem colocada em cima de uma mesa na varanda virada ao sol. A minha chegada interrompeu o mistério e disse a minha tia:
- Filho, a santa chora!
- Nesse caso devolvê-la-ei! Ainda está na garantia!
- Cala-te homem do diabo! Olha! Vê!...
Para meu espanto era verdade demais mas não suficiente para erguer a minha Fé - relembre-se o segredo de que não tinha havido tempo para ser benzida!

E cá regressei deixando em paz a Fé dos que a cultivam mas assaltado por um combate interior que me teria de levar ao fundo da verdade.
- Minha senhora! Venho reclamar dum produto que adquiri aqui na passada sexta-feira!
- Lembro-me de si, levou uma Nossa Senhora luminosa! Não me diga que é daqueles que julgam que é preciso lâmpada!?
- Não, a imagem chora e está a perturbar emocionalmente a pessoa a quem a ofereci!

Relatei-lhe os factos e recebi a explicação:
- Como as imagens são arrefecidas em água quando saem da máquina de intrusão, como só depois de cravados os olhos em cera se fecha a cabeça, é natural que com o calor alguma cera se derreta e deixe verter eventuais gotas de água que não tenham escorrido durante o processo de fabrico.

Eis a razão porque há santas que choram. É claro que seria difícil eu convencer a minha tia e as suas vizinhas! Fiquem então elas com mais um milagre.