quinta-feira, 29 de junho de 2017

Há que saber distinguir as drogas


Toda a estratégia que países, como Portugal, têm seguido no combate à droga é um fracasso porque parte da ignorância e do preconceito, porque se baseia no desconhecimento e na arrogância, porque idealiza a vitória mas não o acordo, porque se dirige aos números e não às pessoas, porque privilegia a proibição e não a liberdade. Enquanto os comandantes desses combates não mudarem de roupa nada mudará.
Trago há muitos anos na memória esta história persa. Tão simples e diz tanto. Aqui a deixo:

"Três homens intoxicados, respetivamente pelo álcool, pela heroína e pelo haxixe, chegam, durante a noite, às portas fechadas de uma cidade.
O alcoólico grita com raiva: "Deitemos a porta abaixo, com as nossas espadas conseguiremos fazê-lo sem dificuldade"
"Não", respondeu o heroinómano, "Podemos instalar-nos cá fora confortavelmente e descansar aqui até de manhã"
O consumidor de haxixe declara por sua vez: "Que ideia tão estúpida! Passemos pelo buraco da fechadura".


Não vou beber aguardente, não vou snifar, não vou fumar, quero só um copo de água. Estou cheio de sede, andei toda a tarde a tomar banho na barragem, regressei a casa pelos cabos de energia e agora estou dentro da lâmpada da cozinha e não consigo sair. Poder-se-ia concluir que bebi água demais mas a verdade é que estou cheio de sede e não sei o caminho para o interface da canalização elétrica com a canalização de água para poder chegar ao lava loiça e encher um copo. Vou partir a lâmpada, beber um copo de água e depois descansar, que é o que eu faço todos os dias. Será que ando drógado!?

terça-feira, 27 de junho de 2017

Deixem Pedro fazer o seu trabalho

Que Deus Nosso Senhor mantenha muitos anos o Pedro à frente do PSD!
Bem que o Fernando Campos, d'o sítio dos desenhos, o podia ter desenhado mais real: a dar um tiro nos quatro pés. Um tiro nos próprios pés não é suicídio, ninguém morre disso. Que Deus Nosso Senhor mantenha muitos anos o Pedro à frente do PSD!

domingo, 25 de junho de 2017

Como beber um copo de água

Hoje, ao almoço, o meu filho engasgou-se, espirrando de seguida para cima do convidado que estava frente a ele na mesa, deixando-me terrivelmente incomodado e embaraçado. Eu, que só espirro por razões que já descrevi AQUI, repreendi-o:
- Nunca mais aprendes a beber um copo de água!
Ele, visivelmente embaraçado e incomodado levantou-se da mesa e dirigiu-se para o quarto. A forma como os nossos jovens se formam, se deformam  ou se informam põem a família e a escola tradicionais a um canto - encontrei-o a visualizar este tutorial. Vale a pena vê-lo até ao fim para aprendermos que este mundo já não é o nosso e que um engasgo inadvertido ou um espirro mal aparado são, afinal, coisas que nada têm a ver com educação e muito menos complicadas do que beber um simples copo de água.


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Uma história que trago comigo


Pedro gozava a beira rio. Preparava a cana, lançava a linha, pescava um peixe, assava e comia. Quando lhe voltava o apetite, repetia os gestos e de imediato um outro peixe lhe mordia o anzol. Pedro passava-o pelas as brasas, preparava o petisco, saboreava o alimento e de seguida passava ele pelas brasas, descansando o dorso nas margens do seu rio.
Um vizinho da fisgada, admirado com tamanha sorte não resistiu a enfileirar conselhos:
- Pedro, com a tua sorte, podias pôr duas canas e recolherias o dobro de peixe!
- Mas pra quê?!
- Duas? Podias até pôr uma data delas!
- Mas pra quê?!
- Pra quê!? Tivesse eu a tua sorte, comprava uma moto de três rodas com caixa atrás e venderia uns peixes por aí!
- Mas pra quê?!
- Oh! Mas que coisa! Eu com a tua sorte empregaria até uma data de pessoas por minha conta e teria peixe para dar e vender!
- Mas pra quê?!
- Lá estás tu! Com a sorte que tu tens poderias até ter uma frota de carrinhas frigoríficas a vender peixe por toda a região!
- Mas pra quê?!
- Então para quê?! Poderias ganhar muito dinheiro, teres uma vida regalada e deitares-te ao sol descansado!
- Mas não é isso que eu estou a fazer?!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Temos um problema em mãos

Do projeto de vida juntos, juntos os trapinhos, constavam as carreiras, alívios financeiros, meia dúzia de viagens, gozar a vida a dois e, só depois, um filho ou dois, fim comum de qualquer acasalamento.
Evitaram-nos, desde a primeira relação com o "tira antes", camisinhas e pílulas, até que um dia, apesar de por cumprir o projeto inicial, porque a idade da fêmea tem limite para embrionar, decidiram deitar fora os contracetivos e puseram orgãos à obra com muito prazer e muito amor.

Também aqui o projeto veio furado, cinco anos a tentar nada vingava.
Tentaram tudo, especialistas médicos e astrólogos, luas, kamasutras, mistelas e pielas, nem bébé nem meio bébé, barrigas nada!
Ele retirou até o candeeiro do quarto e prendeu no seu lugar duas correias, com comprimento que não chegava à cama, que tinham nas extremidades duas fivelas para atar os artelhos da parceira. Mas não se pense que era para variação de coito, era para que no final do mesmo ela assim permanecesse um tempo, de pernas ao alto, evitando que o caldo se entornasse.
Tentaram de tudo, coisas que não se podem dizer aqui, como aquela de ela se ter arrumado com um colega de trabalho numa arrecadação, traição por razão superior não é traição, se desse só ela saberia, pois que a condição dos homens, nestas coisas, nunca permite averiguar toda a verdade nem fazer coisa parecida: não lhe era possível a ele enganar a mulher, fazendo passar por filho dela, o filho que afinal era dele com outra.

Tentaram tudo e, quando já nada se esperava, uma paragem em Fátima, uma velinha e zás! Milagre ou coincidência?

Para não incomodar o feto, sexo tá quieto! Também, depois de tanto copular, o sexo não lhes interessava nada, agora a vida a dois realizava-se à volta daquela barriga, o climax seria quando se fizesse luz e uma nova vida, a três, desse um menino ou uma menina, o sexo não lhes interessava nada, que cumprisse no futuro as carreiras, os sucessos e as viagens que eles não conseguiram.

A partir daí, toda a vida social e familiar, todo o trabalho e rendimento disponível, foram para servir a felicidade e o bem estar do tão desejado, o príncipe - eu quero o melhor para o meu filho, o meu filho nunca me pediu nada que eu não lhe desse, o meu filho é tudo.
E diga-se que na formação do monstrozinho em crescimento também muito contribuíram os avós - é tão esperto o meu netinho, deixo-lhe fazer tudo o que ele quer, meu neto vai ser doutor.

E então, como é normal, o puto foi para a escola, assim educado e protegido, o maior, o intocável, e dotado dum telemóvel topo de gama.
Os médicos, os polícias, os professores e todos os profissionais que com ele interagiam, além de incompetentes, eram incorretos, não mereciam aquilo que ganhavam,  viviam às custas dos impostos dos pais e dos avós - aprendeu ele em casa desde pequeno.

Não deu o meio familiar por conta que a criatura se marginalizara progressivamente também deles, absorvido pelas consolas, pêcês, têvês e telemóveis e que o seu olhar estava dependente dessas radiações. Deixou de ver o mundo, se é que alguma vez o viu. Nunca reparou numa andorinha, numa folha seca ou num motor de rega. Acordaram os ascendentes quando repararam que a filha da vizinha fazia salivar qualquer um, homem ou mulher e que, embora também princesa e da mesma idade, não fazia tirar a atenção do telemóvel ao príncipezinho.
- Há qualquer coisa que não está bem com o nosso filho!
- Pois não, está ligado à máquina! Temos um problema em mãos! - disse eu e tu e tantos outros, que tantos somos os que temos em mãos um problema destes que é de todos.

- Atão e eu? Que raio estou eu a fazer? Comecei tão bem este texto ontem e hoje derrapei para a vulgaridade! Estou a sair-me mal! Preso aqui à máquina com tantas coisas outras para fazer! Bem sei que temos um problema em mãos com as novas gerações mas como se  costuma dizer "quem os pariu que os ature!" e se não estiverem para isso, é para isso que servem os professores! Não é para fazerem greves!

Todos os professores deviam ser bombeiros

Os alunos que frequentam as escolas dos concelhos atingidos pela tragédia dos incêndios irão realizar os exames nacionais em datas posteriores e o governo adianta que não serão de forma alguma prejudicados por essa alteração. Decisão esperada e acertada mas que põe por terra um dos principais argumentos que levaram à requisição de serviços mínimos para a greve de professores marcada para um dia em que decorreram exames nacionais: a mudança de data destes exames prejudicaria gravemente os alunos.

Para essa requisição o governo socorreu-se dum colégio arbitral, constituído por três doutores que votaram dois contra um,  cuja decisão se refugia, no essencial, na falta de objetividade do termo "impreterível" utilizado no texto da Constituição.

Das razões do governo podem ler-se estes dois excertos:
   
"Defende o ME que a realização dos identificados exames e prova de aferição é uma necessidade social impreterível...
... que os alunos têm o direito a verem realizadas as suas provas e exames em condições de igualdade, e que poderão ocorrer repercussões negativas na alteração do planeamento e organização dos tempos de férias de milhares de familias"

Ora deixe-mo-los ficar com o endeusamento nacional e o cerimonial em que se converteram, ano após ano, as provas de exames nacionais e admitamos que adiar um exame é tão grave como adiar um casamento e concentre-mo-nos nas contradições que põem a nu o verdadeiro caráter das suas intenções de limitar o direito à greve:
- As provas de aferição visam avaliar o sistema e não os alunos. Ao sabor dos ministros, podem existir ou não existir, podem ser em qualquer altura do ano e têm tido formas distintas de aplicação pelo que considerá-las uma necessidade social impreterível só pode ter sido lembrança do diabo anunciado.
- Se o exame fosse adiado para um dia em que os jovens dos concelhos atingidos pelos incêndios também pudessem fazê-los, aí sim poderiam existir condições de igualdade, assim não.
- Sobre a organização dos tempos de férias de milhares de famílias mais vale não dizer nada. 

Se todos os professores fossem bombeiros provavelmente, hoje, o impreterível teria mudado o seu significado. Assim, esta greve, foi só fumaça!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Nada, puta!

Dizia eu à rã, que apanhei na represa de onde a minha mãe regava o milho, quando a levei para o tanque onde a minha mãe lavava a roupa: nada, puta!

E ela tanto nadava tanto como não nadava nada. E eis o mote que me levou, mais uma vez, a escrever sobre nada, com prazer, esperando que outros desfrutem do prazer de ler qualquer coisa que não diga nada. Temos essa necessidade, a mesma que temos ao jogar Tetris no PC ou à paciência com o baralho. De facto, muitas vezes procuramos o nada para descansarmos dos discursos do nosso dia a dia, das guerras e tragédias do noticiário, do livro sério que nos faz pensar, das lutas e causas em que estamos ou devíamos estar, das manápulas que nos empurram os olhos contra a areia, dos vírus, bactérias e gostos alimentares que atormentam a nossa saúde, da torneira a pingar, dos desgostos que o próximo nos inflige, da falta de sono que tanta coisa nos provoca, do imperativo de termos de trabalhar para o pão nosso de cada dia.

E aqui estou eu, sem nada para dizer, com a única intenção de vos levar a ler até ao fim um texto que, não engano, nada vos vai dizer.
Provavelmente, ontem ou hoje, já destes por vós numa palestra ou num encontro, onde tivestes de gramar com um orador que sacou dum power point, de que não se percebia onde queria chegar ou que simplesmente falou muito bem sem nada dizer, porventura, um texto que, pretendendo dizer muito, não dizia mais do que este, ou ouvistes com paciência uma colega ou uma vizinha que fala, fala, fala e não diz nada.

Pois ouçam-me, ou pior ainda, tendo em conta que ler é um ato muito mais voluntário do que ouvir, leiam-me, avisados de antemão que daqui não vão levar nada porque é de nada que estou a falar. Assim, tipo uma cantilena onde as palavras se encadeiam sem propósito maior a não ser desfilar, uma cantiga de aí ou ai, uma canção de ó baby, baby, um mestrado sobre a influência da oralidade nas relações sexuais, uma homilia do capelão solteiro num casamento gay, um  discurso do presidente da assembleia de freguesia numa entrega de prémios, assim mesmo farei, ou melhor, estou fazendo. E volto a avisar, sei onde isto vai chegar, não sei quando vai parar.

É um prazer do caraças escrever sem ter de pensar naquilo que se vai dizer, sem ter de estar preocupado em ser  mal entendido, em falar demais sobre aquilo que se é ou se pensa, em ter um objetivo de expressar uma opinião ou ideia. Oh como é bom escrever só por escrever e escrever sobre nada, estando-me nas tintas para quem largou a leitura no primeiro parágrafo e agradecendo a companhia àqueles que continuam a ler com o mesmo carinho amigo com que ouvem o colega ou o vizinho que fala, fala, fala e não diz nada.

Aguentem, estava agora mesmo para ficar por aqui mas lembrei-me outra vez que não sou nada original nesta ideia de falar ou escrever sobre nada. Isto da alfabetização, das universidades a pontapé, dos canais de televisão às mancheias, dos palcos desmontáveis e microfones sem fios, das redes sociais, dos reis auto-coroados em blogues, deu origem a um autêntico cataclismo de sabedoria inócua.

É muito fácil ver um porco a andar de bicicleta, o difícil é ele fazê-lo. É muito difícil um porco ser homem, já o contrário é facílimo. É difícil a um homem assumir a sua suinidade e eu acabo de fazê-lo. Estou a ser um pouco porco, a sujar o vosso precioso tempo em que vos predispusestes a entreter-vos, a resistir a uma leitura sobre nada e, de repente, por distração minha, já estávamos aqui a falar de porcos e outras coisas mais sérias sobre homens porcos. Não tarda muito estarei a falar sobre outras porcarias e eu não quero. Afinal de contas, escrever sobre nada é mais difícil do que eu pensava. Parabéns a todos os que desenvolvem a sua atividade política, profissional, social e familiar, fugindo de conversas sérias e falando com ar sério sobre nada.
Só me faltava que, no fim de tanto esforço, alguém me viesse dizer que escrevi sobre alguma coisa! Não, estive apenas nadando nas palavras, frases nadas, nascidas como os pardais, paridas como os ratos para uma existência  sem sentido mas ainda assim com vida.

Por uma questão contabilística agradecia que quem leu até ao fim assinale "boa patada" ou "uma porcaria". Bom 10 de junho!

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Presos por fazer greve e por não fazer


Andam há meses, eles que nunca viram com bons olhos o direito à greve e que apenas a toleram se ela não incomodar vivalma, a queixar-se da ausência de greves e de manifestações. Isto, apesar de muitas terem existido mas que, para salvarem o argumento e o passar como verdade, não quiseram ver.

Da parte dos professores não existiram, de facto, greves mas houve manifestações, algumas delas com notória dimensão e que nem eles, nem a sua imprensa, quiseram ver.

Houve sempre uma notória insatisfação com a resposta muda às reivindicações dos professores.
Mas o discurso anti-sindical ditava sempre que o governo estava nas mãos dos sindicatos e, em particular, da FENPROF. Agora que a federação sindical põe como hipótese a marcação duma greve, ai aqui-d'el-rei que estão, pasme-se, com "objetivos eleitorais e autárquicos"!

Vá-se lá entender o cérebro desta gente! É caso para dizer: presos por fazer greve e por não fazer!
E atenção, professores candidatos a câmaras e juntas de freguesia, se quereis ter votos, fazei greve!... Ou não fazei!... Eu já nem sei o que hei-de pensar! Mas cheira-me que, se houver greve, há umas listas que, por causa disso, vão ganhar e outras não.

Mas pronto, o que me preocupa não é isso! O que me preocupa é achar que o FMI e o Cardeal Patriarca de Lisboa não vão ver esta greve com bons olhos!