quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O debate de quatro e o candidato Ascenso

O candidato A, o candidato ex-dependente e agora auto-proclamado independente, dizia com orgulho que pensava apenas pela sua própria cabeça e, como pensava apenas com a sua própria cabeça, quando falava, já toda a gente adivinhava o que  ia dizer.

A candidata B, a quem nunca passara pela cabeça ser candidata-cabeça, era candidata porque o primeiro da lista tinha desistido por ter proposta irrecusável para ser gerente duma agência bancária, e o segundo para ser seu segurança e, sendo por lei das quotas ela a terceira, como mulher, calhara-lhe ter de ficar com o menino nas mãos.

Por A e por B, calhara a sorte a C, que mesmo sem saber falar, não falava como candidato mas fazia pose e gesticulava como futuro presidente.

O candidato D, Dependente, nem sequer lá estava. A cadeira vazia justificou-a a moderadora do debate como tendo havido um pequeno percalço, que estaria a caminho e, que não tardaria muito, ele chegaria.
E ele lá chegou meio atarantado e, com a discrição possível, tomou o seu lugar. No pensamento dos adversários que, além dos outros três, era toda a plateia, deu-se como julgado que o D era assim mesmo, um atrasado, e ainda bem que assim era, que por estas e por outras é que, como preterido, não fazia mossa. E o debate continuou.

Falou o candidato C de ser fundamental sanear devidamente as necessidades de todos os residentes e, na sua vez de falar, o candidato D  disse concordar  com ele: que sejam feitos esgotos MAS...

Falou a candidata B de como era fundamental a construção dum aeroporto e o candidato D disse que quando era pequeno também queria ser piloto MAS...

O candidato A achou fundamental convidar o presidente da república para festejar o seu aniversário na Vila e o candidato D disse que também gostava muito da canção parabéns a você MAS...

O candidato A, com interesses no negócio da construção, também achou fundamental a requalificação da estrada 256 e o candidato D disse que também MAS...

A candidata B, cujos sogros tinham uma ourivesaria no centro da vila, achou fundamental a requalificação da rua principal e o candidato D, disse que também achava que já era tempo da estrada nacional 256, que atravessa a vila, fosse transformada numa verdadeira avenida MAS...

O candidato C, disse que, no dia seguinte ao da sua tomada de posse, iria começar as obras dum teleférico da curva da morte da 256 para o centro de saúde e o candidato D disse achar boa ideia MAS...

Acrescente-se também que o candidato A, proprietário dum lar de idosos, prometia um relacionamento harmonioso com todos os párocos, a candidata B, proprietária duma funerária, prometia a ampliação de cemitérios em todas as aldeias e o candidato C, proprietário duma farmácia, prometia aumentar a natalidade aumentando o preço dos contracetivos.
Com estas promessas D disse não concordar MAS...  

E várias voltas dadas por A,B,C,D sem D incomodar, incomodada a moderadora diz:
- Candidato D, se concorda em tudo com os demais porque se candidata?

Foi então que o candidato D puxou do lenço e cuspiu da boca aquilo que parecia ser um dente MAS que era a afinal um pedaço do para-brisas do seu carro - tinha acabado de ter um acidente na 256 e fora por isso que chegara atrasado e tinha dificuldade em falar.

- Candidato-me porque sou dependente do pensamento e do sofrimento do povo MAS...
- MAS o quê?
- Movimento Ascenso e Saúde!

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O candidato ingenuamente democrata


A RTRegional propôs aos candidatos do concelho do nordeste um debate entre cabeças, no dia xis, à hora ypsilon. 
O candidato Xis, pouco dado com a cidade dos estúdios da RTR, aproveitou a ideia-boleia da amizade com o ambiente e lembrou-se de propor ao candidato Ypsilon que fossem no mesmo carro. Como o candidato Ypsilon tem um carro de classe superior, seria de esperar que se optasse pela maior rapidez e pelo melhor conforto, além de que se trataria duma proposta difícil de desconsiderar dado que, se tornada pública, a ação ficaria bem à saudável convivência democrática e, se recusada, cairia mal aos olhos dos indecisos que são, afinal, quem decide quem ganha em todas as eleições. 

Por estas ou por mais autênticas e sãs reflexões, não houve hesitações, e os candidatos foram ambos no BMW,  fazendo a viagem falando de tudo menos de política.

Quando chegaram juntos ao parque da RTR já os outros cabeças estavam na receção e todos mostraram expressões de espanto pelo facto do Xis e do Ypsilon terem chegado os dois no mesmo carro. Com certeza que pensaram que ali  havia gato, farinha ou artes de geringonça no ar. 

Quando no ar, houve mesmo um deles que fez referência à cena como insólita, fazendo Ypsilon dizer sentir-se orgulhoso por a achar normal e Xis fazer a consideração de que o assunto não tinha interesse algum para o debate.

Mas quando, no calor duma troca de palavras, a discussão descambou e Xis carregou em Ypsilon, este, politicamente correto, cismou uma decisão que ali não poderia verbalizar.

Só quando, no final, ambos se encontraram no exterior dos estúdios, foi dito alto e em bom som:
- Agora vais a pé!
Xis não regressou à terra a pé, apanhou a camioneta.
A história correu e dividiu o eleitorado, havendo quem louvasse a generosidade e o sentido de justiça do candidato Ypsilon e quem defendesse a humildade e a injustiça de que foi vítima o candidato Xis.
E a pergunta é: quem vai ganhar as eleições? Penso que o candidato Ah.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O candidato que não quis ser figurão


Nunca se vira noutra. O homem nunca fora daqueles que se tinha a si próprio como o melhor de todos, nunca tivera ambições de exercer poder, era incapaz de em alguma circunstância se dirigir a uma assembleia eleitoral e dizer "escolham-me a mim!".
Contudo, entenderam os pares que, naquela circunstância, ele era o melhor para derrubar, democraticamente, o poder que punha em perigo a democracia e elegeram-no cabeça de lista.

Nunca se vira noutra. O homem teve três acidentes em três dias, em três rotundas diferentes, o último dos quais com alguma gravidade, porque se desonrientou ao deparar-se com a sua própria imagem no outdoor
Quando se teve de sujeitar às centenas de flashes do fotógrafo, aguentou. Quando soube do preço da campanha, aguentou. Quando lhe pareceu que a frase de campanha surpreendia tanto como o nome de qualquer telenovela, aguentou. Aguentaria tudo imbuído de espírito de missão. Nunca pensou é que o facto de se deparar com a sua própria imagem em cartaz, perturbasse o seu equilíbrio emocional a ponto de o atirar para a cama do hospital. 

Segundo o psiquiatra hospitalar, não foi tanto o impacto do "efeito espelho" que o atormentou mas mais a circunstância de se ver lado a lado com os adversários que abomina, estejam eles sós de meio corpo, aos pares de corpo inteiro, ao monte, em bando ou em matilha, sobre fundos verdes, azuis ou branco sujo, com frases ocas, vazias ou que nada dizem. Sentiu-se igual a eles, sentiu-se um deles e, mais grave ainda, deixou de reparar na moça em biquini que faz jus ao protetor solar melhor de todos.

Assim sendo, caso a força política em causa o queira manter como cabeça de cartaz, dadas as circunstâncias, terá de retirar todos os outdoors, colocar os militantes a colar cartazes nas paredes e a pintar murais, substituir as frases curtas por ideias e contar apenas com o candidato para apresentar o projeto coletivo.

É claro que nestas circunstâncias é mais difícil ganhar mas também é verdade que não será tão fácil perder a face ou a cabeça.  

sábado, 2 de setembro de 2017

Conversa de sábado na quinta

De como o desenvolvimento dos meios de comunicação permite às pessoas viajar tanto e tão depressa.

- Estou no Central. Onde é que estás?
- Estou a comer uma sopa da pedra em Santarém.
- Estou na Feira no lançamento do livro dum amigo. Onde é que estás?
- Estou em Setúbal a beber um moscatel.
- Estou num fórum, num debate sobre a vida. Onde é que estás?
- Estou em Aveiro a comer uma sandes de leitão.
- Estou no 1º de Maio num concerto tão bonito. Onde é que estás?!
- Estou no Porto a beber uma aguardente.
- Estou aqui numa sombra porreira na Madeira. Onde é que estás?
- Estou em Beja a beber um copo com o Norberto.
- Onde é que estás?
- Estou em Évora com um jarro, a Milu e o companheiro.
- Onde é que estás que nunca mais te encontro?
- No Brasil na caipirinha! Está aqui num ambiente do caraças!
- Vem já para Santarém!
- Antes ainda quero passar em Cuba e Angola! 
- Como é que te vou encontrar numar degente?
- "Numar degente"?! Que é isso?! Estou aqui no Algarve à tua espera! Onde é que estás?!
- Estou no Central.
- A estas horas?!
- Então não é aqui que se apanha a camioneta para Leiria?!
- Vou aí buscar-te! Deixa-te estar junto ao pórtico principal!
- Estás aonde!
- Estou aqui mesmo à tua frente!
- És tão linda!
- Estás lindo estás!

A que sábado e a que quinta nos estamos a referir?