quinta-feira, 30 de novembro de 2017

ai eu coitado

Ai eu coitado como vivo em gram cuidado,
a represa seca,
o gado sem pasto.
Ai eu cuidado como vivo em grã coutado
a riqueza sem rasto,
os cornos sem testa.
Ai Meca, ai Jerusalém, ai Fátima,
ai manifesta vontade de ser rua.
Deus me cuide, coitado.
A virilidade de Costa de rabo na Europa,
a virilha de Marcelo nas campas do Dão.
- Nada será como dantes, diz este.
- Tudo será como eles quiserem, diz o outro.
Ai fogo, ai chuva, ai ruas,
ai as vontades da feira do mês,
vendeu-se agosto? compra-se dezembro!
vendeu-se abril? compra-se maio!
Para porquês de novembro, respostas nuas.
Está um tempo seco e frio como o orçamento.
Cuidem de mim, cuidado comigo, ai eu coitado,
sem pingo para a pinga,
rouco para o fado,
levaram-me a voz e o rendimento.
Rendo pouco.
Ai eu estou louco, ai eu estou muito mal, 
arderam os pinheiros que seriam árvores de Natal, 
foi restringida a rega dos campos de golfe.
Ai eu com mágoa vou viver para Lisboa,
Onde tudo acontece e não há fogo e há água.
Coitado de mim que estou louco.
Cuidado comigo que sou coitado.
Sou frágil e mordo.
Sou porco.

domingo, 19 de novembro de 2017

Qual Pai, qual Menino, qual Natal


O Verão quase que chega ao Natal.
Dizem todos que isto tem a ver com alterações do ambiente – ambientalistas!...
Dizem que as alterações climáticas têm a ver com a queima de combustíveis fósseis - especialistas!...
Dizem que a queima de combustíveis tem a ver com o consumo de energia – engenheiros!...
Dizem que o consumo de energia tem a ver com a sociedade de consumo – economistas!...
Dizem que o consumo desenfreado está a arruinar a vida das sociedades – sociólogos!...

Ora aí está o Natal, amigo do ambiente, das câmaras e famílias endividadas, dos pobres que nem factura de electricidade têm para pagar.

*Eh-lá luzes, anjinhos, meninos e trenós iluminados nas torres das igrejas, nas fachadas dos edifícios presidenciais, nas varandas, chaminés e centros comerciais!
*Eh-lá lojas de coisas que não valem nada, jantares de cabritos e cabras, discursos de provedoras de colares, de excessos de mesa com orações a recordar os que não têm!
*Eh-lá santa inocência de meninos grandes, de burros, de vacas e de árvores de plástico!
É tão bom lembrar-nos dos que não têm nada, nem que seja ao menos para sentirmos o orgulho de que temos tudo!
Viva o planeta sobreaquecido com luzes a apagar e a acender! Viva a falência em abundância! Viva um menino que nasceu há dois mil anos! Viva a Coca-Cola que inventou o Pai Natal! Viva o Natal!
Vivam os videntes, como eu, que advinham um bom Natal para uns e um mau Natal para outros, que já sabem que na missa do galo o padre vai dizer que o Natal deve ser todos os dias, que uns poetas de quadra vão repetir que Natal é sempre que um homem quiser, que o Costa vai prometer que vai haver um novo ano e o Marcelo vai chamar a atenção para o dever de olharmos para aqueles a quem a República tudo tirou!

Ai o meu Natal! Ai o meu Natal! Eu nem sequer devia ter escrito nada sobre o Natal porque de textos, canções, luzes e peditórios de Natal já todos estamos fartos!

(* o "eh-lá" foi plagiado duma ode qualquer do Fernando Pessoa e também não sei se o Belmiro Azevedo ainda é vivo)

sábado, 18 de novembro de 2017

Não sei se rio se seco

Pensamento:
Todos nós temos o nosso rio de criança,
um rio grande, uma ribeira, uma levada,
um rio seco, um rio de cheia, um rio com peixes
ou mesmo um rio que atravessa a cidade emparedado.
Até pode ser o rio de uma imagem, dum filme, duma história
mas todos nós temos um rio de criança.

No meu caso, o meu rio deixou-me sempre insatisfeito,
era ali, na minha aldeia, que ele se formava de dois ou três riachos.
No inverno levava água se Deus a dava
mas no verão toda a água era para o milho,
ele esquecia-se que era rio e eu também.

Na aldeia a jusante já a ribeira corria todo o ano,
as mães lavavam a roupa aos filhos
e os filhos apanhavam peixes com uma cesta.
Eu molhava-me lá com os outros meninos e acontecia-me pensar
no destino daquela água, por que terras passaria
e quanto tempo demoraria até chegar ao mar.
Penso que os outros meninos também pensavam nisso
e que todos eles, como eu, sonhavam um dia ver o mar.

Agora que somos grandes já não sentimos os rios.
O que importa é que o governo cuide dos rios,
sejam eles de água ou de povo.
Que os deixe correr e desaguar,
que os contenha, que os regule, que os aproveite.
Ah! E que nunca se esqueça de tratar do saneamento!

Intervalo de pensamento: 
O povo no tempo é como um rio no espaço.
Alguém já deve ter dito isto!...
Mas isto não:
Rio de rir
Rio das águas
Rio das ruas
e levo-as com o rio ao mar.

Continuação de pensamento:
Mas o importante é que o rio nos continue a correr na memória
e o povo fluvie e vença as margens que o comprimem.
Um poeta já deve ter falado disto!...
Mas ninguém, senão eu ou os meus primos,
retém a imagem da minha mãe e das minhas tias
a lavar no rio da minha aldeia
as tripas do porco que matámos em dezembro.

Fim de pensamento:
Não tarda aí dezembro,
o porco está vivo,
o povo está no rio,
o rio vai cheio,
a greve é em novembro,
o povo está vivo,
o porco está cheio,
há que matar o porco,
senão ele bebe o rio.

Rio! Não sei se de rir se de ser também rio!


E de quem é o nosso mar???
Isto sou eu a pensar!

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Porque se pode gostar mais de gatos do que de cães:


A coisa começou a correr bem ao homem depois de setenta e quatro: menos fiscalização, menos medo, mais liberdade,  mais esperança, revolucionaram a sua atividade de viajante e os seus negócios começaram a prosperar. 

Sabia-se que, para tal sucesso, era necessário untar as mãos a guardas fiscais, republicanos e outros mais. Sabia-se que não trabalhava com letras, nem com cheques, nem com bancos. A massa viva  guardá-la-ia onde só Deus sabia mas, quando os maços começaram a ficar grossos, temendo um diabo que os levasse, começou a dar-lhes caminho fazendo anexos, muros e escadas, latadas, portões e arruamentos, valorizando assim o seu quintal, dando trabalho a alguns e vida à terra.

Pensava numa de noite e de manhã ia falar com o pedreiro, falava a uns jovens estudantes que gostavam de ganhar algum e... mãos à obra. A mim, talvez por me achar um trinca-espinhas, por me ter por contestatário ou por não engraçar comigo, nunca me falou para fazer nada.

Sem nada para fazer, peguei na motorizada para dar uma volta e parei para apreciar os trabalhos e dar um ponto de conversa aos meus amigos. Tinham encanado a valeta com manilhas e feito o alicerce do muro entre esta e o alcatrão, alargando assim a propriedade num metro. Na justificação do homem, também o industrial do sítio fizera o mesmo com o ribeiro, ganhando mais terreno para o estaleiro da fábrica e ninguém o tinha incomodado por isso.

O muro estava praticamente acabado e, como alguns dos serventes já andassem de mãos penduradas e houvesse sobras de blocos, deu-lhes o homem o trabalho de fazerem mais duas fiadas sem cimento - pelo menos ficavam arrumados.

- Ó homem, com a massa fresca e esse peso em cima não tarda muito isso desaba tudo!
- Rapaz, eu não te falei porque já sabia que és uma caga-agoiros, some-te antes que leves uma pazada!

Não tardou nada, o muro tombou sobre a estrada e eu vi-me obrigado a rir. Antes que o homem descarregasse em mim a sua ira, sorte a minha, pára o jipe da GNR e foi com eles que ele desabafou do seu azar, enquanto a malta olhava para o bonito serviço e eu me dirigia para junto da minha motorizada.

Entretanto aproximou-se de mim um guarda e perguntou-me pelos documentos e pelo capacete.
- Mas a mota está parada, o senhor não sabe nem se é minha nem se eu me desloco nela!
- Sou testemunha que a mota é dele e que ele aqui chegou nela sem capacete! 

Para acelerar a alhada que se estava a desenrolar, o filho do homem, que havia ido ao café buscar umas cervejas para o pessoal, chega a acelerar na sua Zundap e, para animar a história, também não trazia capacete.

Bem podia eu animar ainda mais a história,  prolongar o texto com discussões fictícias mas a verdade é que, traído pela memória, pela imaginação, pelo jeito ou pela vontade, por mais voltas que dê pela tecleta (palavra criada agora mesmo da composição de teclado com caneta), não consigo desembaraçar-me da incoerência e chegar com pés e cabeça à frase final:
- Não há gatos polícias.