Num 19 de Março, há muitos anos, a minha irmã ofereceu ao pai nosso um ramo de flores. Ele conformou-se com o facto de ela ter rompido com a prática anticonsumista seguida lá em casa e com preceito social de não se oferecerem flores a homens.
Durante o
jantar, o acontecimento foi tema de conversa e, como nunca foi família de
segredos no que toca a gastos e receitas, o preço do arranjo entornou-se na
mesa como um copo de vinho. O pai nosso, surpreendido pelo valor da
despesa, deixou escapar, sem ofensa:
- Por esse preço, bem que me podias ter oferecido um garrafão de tinto!
1 comentário:
O meu pai não aceitava presentes. O meu pai não dava presentes. Uma nora, nova na família, ainda tentou no primeiro Natal. Não, não posso quebrar o meu princípio, não é sempre não. Com esse princípio do anticonsumismo, quando viajava também não trazia lembranças nem presentes. As viagens eram quase sempre de trabalho, mas arranjava com frequência maneira de justificar a companhia da minha mãe que não se coibia de dar asas às suas "necessidades domésticas": está mesmo a fazer falta lá em casa uma toalha como esta, aquela peça é boa para aquele espaço vazio... etc., etc. Quando foi à Holanda voltou muito triste o meu pai. Tinha ido sozinho e aquele queijo não lhe saía da cabeça. Não podia quebrar o seu princípio. Veio sem o queijo, mas andou anos a falar dele. A Londres também foi sem a companhia. Ai que belas imagens! e eu que não as vou poder mostrar aos filhos. Insiste o guia (penso eu): e uma máquina fotográfica? Nem pensar, respondia, "Mas uma máquina fotográfica é sempre necessária num casa, não é nenhum luxo... E há aqui à venda máquinas que ainda nem chegaram a Portugal, focam automaticamente". Convenceu-o. Pudemos ver belas fotografias de Londres descritas ao pormenor com todas as suas histórias pelo meu pai. A alegria foi imensa nesses dias. E nós, os filhos, todos na adolescência, inchados de orgulho. Fotografias em visitas de estudo do Liceu? Não havia melhores que as nossas... Nenhuma tremida, nenhuma desfocada..-
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