terça-feira, 30 de julho de 2013

O direito à preguiça é dos porcos em primeiro

Estimados visitantes que teimam em ver o rei nu, mau pagador, devedor duma sexta, esta vos deixo, mesmo que rebuscada de há um ano atrás (é tão engraçado actualizar as datas de postes antigos! ai os comentários de há um ano!..ih!ih!ih):
Pairo numa qualquer viçosa vila deste reino, vosso e meu, pairo.
Vejo-vos nús, orfãos das minhas mãos vazias, vejo.
Ouço a algazarra da república só cretina, ouço.
Vou fazer campanha, vou.
Estimados fidalgos, frades e plebeus, num futuro, não muito longo, vai haver leitão à fartazana mas, por hora, deixai que eu e a porcina corte desfrute dos prazeres da vida e do caminho que a Criação nos pôs aos pés numa qualquer vila viçosa deste reino.
Estimados visitantes, vejo que por aqui tendes passado nos espaços do palácio e muito agradecido fico. Passeai à vontade, colhei rosas do jardim, provai do vinho das tulhas, amai na cama do rei, servi-vos das retretes, voltarei ao trono para repôr tudo na ordem e, com essa ordem, ordenar as minha ideias. Estou tão confuso como a Floribela. Falsas repúblicas não vencerão reinos suínos. Venceremos! Se não for pelas ideias, será pela gripe.
Voltarei assim que a voz me doa!... Na!Na!... Na!Na! Para contar este meu fado........

domingo, 28 de julho de 2013

SG filtro


Há muitos anos que só fumo tabaco de enrolar mas hoje caí num curto SG filtro. E veio-me a memória do olfato da brisa da esplanada do Espelho de Água do Mondego. Copos e uma mesa. Cadeiras. E nós outros.
Nesses tempos dávamos muita atenção ao facto de estarmos divididos em dois sexos. Mas hoje, passados estes anos, já nem me lembro de que sexo eras tu. Sei que falávamos só os dois num grupo maior. Não sei se falávamos dos estudos, de política, de música, do futuro, de sexo ou do amor. Sei apenas que hoje, o sabor e o cheiro do SG filtro fez-me voltar aos tempos de estudante, às marchas contra o aumento da senha das cantinas, à brigada Vitor Jara, aos projetos que fizemos para a meia idade. E não é que fiquei também com uma tesão do caraças!

Hoje, não sei se valeu a pena ter estudado, se quem estuda ainda tem pernas para marchar ou se anda de carro, se ainda se canta em Coimbra sem microfones, se estou na meia idade ou na idade média, se para acontecerem encontros é preciso cortejar. Sei apenas que valeu a pena ter estado contigo e ter experimentado o poder do SG filtro.

Conversa de velho saudosista?  Não! Continuo a estudar, a lutar, a cantar, a cantarolar e a amar! E não é que continuo a ter uma tesão do caraças!... Pronto, vou fumar mais um SG filtro como eu gosto: numa conversa a dois.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Não tenho geração

Não tenho geração, não fui gerado.
Não sou filho da puta, não tenho mãe.
Não sou fã dos UHF nem de ninguém.
Não serei em cantares catalogado.

O meu caminho não é a desistência,
A minha canção não é o triste fado,
O meu canto não é "desesperado",
Eu canto a esperança, a luta, a resistência.

Eu choro os traços ocultos de Guernica.
Não sou tinta dos murais da revolução.
O meu caminho é Sim, antes de Não.
Por não gostar deste filme, ele aqui fica:




quarta-feira, 24 de julho de 2013

Se me perguntam


Se me perguntam se eu sabia que isto ia dar nisto? Claro que sabia que isto ia dar nisto . Se me perguntam se eu tive uma opinião diferente. É claro que tive sempre uma opinião diferente. Se me perguntam se eu lutei. Estive sempre presente em todas as ações de luta. Se me perguntam se eu defendi que havia outros caminhos. O caminho dos poderosos nunca foi o meu caminho. Se me perguntam se eu nunca participei nas decisões. Apenas votei sempre e estou inteiramente convencido que os meus eleitos, sempre diligenciaram contra isto, sempre tiveram em conta a minha opinião, sempre estiveram na frente da luta, sempre defenderam outros caminhos e sempre tentaram impedir as decisões que deram nisto.

E dito isto, entre esforços vãos e aclamados sacrifícios, remamos a favor do rápido com as velas içadas contra a corrente. Tudo se vai entre os dedos das mãos como areia,  os esforços, os sacrifícios, as promessas e até o futuro e os versos dos poetas. É nestas alturas que vale a pena erguer os punhos fechados!

sábado, 20 de julho de 2013

Sei de fonte segura


Fico sempre com a pata negra atrás quando alguém na conversa precede a informação, modo jornalista, com o "sei de fonte segura". Fica-me sempre a sensação que o informador se julga acima dos que o ouvem e se assume milharola que observa do alto as colheitas da horta, sabendo em  primeiro os ingredientes da salada de sábado à noite ou então, que se reduz a ser ratazana de cozinha que sabe primeiro que os outros qual vai ser a carne para a sopa de domingo. Independentemente do que ele se julga, fico sempre julgando que ele não é uma coisa nem outra, que oculta a fonte porque ela não existe, que se está a armar mas não sabe nada, que é um suínocultor de boatos.
Julgar-me-eis nesta fauna mas tenho de afirmar, que "sei de fonte segura", que o Presidente não falou hoje, sábado, à República porque era dia de Sporting-Benfica. Não o critico por isso, prova conhecer o povo e o que ele lhe liga. Não é árbitro, não é jogador, não é apanha bolas, não é espectador, é apenas e só, o padre que vai rezar a oração da tarde de amanhã, domingo.
  

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O candidato que não conseguiu ser figurão


Nunca se vira noutra. O homem nunca fora daqueles que se tinha a si próprio como o melhor de todos, nunca tivera ambições de exercer poder, era incapaz de em alguma circunstância se dirigir a uma assembleia eleitoral e dizer "escolham-me a mim!".
Contudo, entenderam os pares que, naquela circunstância, ele era o melhor para derrubar, democraticamente, o poder que punha em perigo a democracia e elegeram-no cabeça de lista.

Nunca se vira noutra. O homem teve três acidentes em três dias, em três rotundas diferentes, o último dos quais com alguma gravidade, porque se desonrientou ao deparar-se com a sua própria imagem no outdoor
Quando se teve de sujeitar às centenas de flashes do fotógrafo, aguentou. Quando soube do preço da campanha, aguentou. Quando lhe pareceu que a frase de campanha surpreendia tanto como o nome de qualquer telenovela, aguentou. Aguentaria tudo imbuído de espírito de missão. Nunca pensou é que o facto de se deparar com a sua própria imagem em cartaz, perturbasse o seu equilíbrio emocional a ponto de o atirar para a cama do hospital. 

Segundo o psiquiatra hospitalar, não foi tanto o impacto do "efeito espelho" que o atormentou mas mais a circunstância de se ver lado a lado com os adversários que abomina, estejam eles sós de meio corpo, aos pares de corpo inteiro, ao monte, em bando ou em matilha, sobre fundos verdes, azuis ou branco sujo, com frases ocas, vazias ou que nada dizem. Sentiu-se igual a eles, sentiu-se um deles e, mais grave ainda, deixou de reparar na moça em biquini que faz jus ao protetor solar melhor de todos.

Assim sendo, caso a força política em causa o queira manter como cabeça de cartaz, dadas as circunstâncias, terá de retirar todos os outdoors, colocar os militantes a colar cartazes nas paredes e a pintar murais, substituir as frases curtas por ideias e contar apenas com o candidato para apresentar o projeto coletivo.

É claro que nestas circunstâncias é mais difícil ganhar mas também é verdade que não será tão fácil perder a face ou a cabeça.  

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Ecos do ão...


"Rebenta na Febem rebelião
um vem com um refém e um facão
a mãe aflita grita logo: não!
e gruda as mãos na grade do portão
aqui no caos total do cu do mundo cão
tal a pobreza, tal a podridão
que assim nosso destino e direção
são um enigma, uma interrogação
E, se nos cabe apenas decepção,
colapso, lapso, rapto, corrupção?
e mais desgraça, mais degradação?
concentração, má distribuição?
então a nossa contribuição
não é senão canção, consolação?
não haverá então mais salvação?
não, não, não, não, não...Ecos do ão
Pra transcender a densa dimensão
da mágoa imensa então, somente então
passar além da dor da condição
de inferno e céu nossa contradição
nós temos que fazer com precisão
entre projeto e sonho a distinção
para sonhar enfim sem ilusão
o sonho luminoso da razão
E se nos cabe só humilhação
impossibilidade de ascensão
um sentimento de desilusão
e fantasias de compensação
e é só ruina, tudo em construção
e a vasta selva, só devastação
não haverá então mais solução?
não, não, não, não, não...Ecos do ão...
Porque não somos só intuição
nem só pé-de-chinelo, pé no chão
nós temos violência sim e perversão
mas temos o talento e a invenção
desejos de beleza em profusão
idéias na cabeça, coração
a singeleza e a sofisticação
o choro, a bossa, o samba e o violão
Mas, se nós temos planos, e eles são
o fim da fome e da difamação
por que não pô-los logo em ação?
tal seja agora a inauguração
da nova nossa civilização
tão singular igual ao nosso ão
e sejam belos, livres, luminososos
os nossos sonhos de nação.
Ecos do ão...
Música de Lenine e Carlos Rennó

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Fangole

O projecto Kaya surge como um símbolo da ligação que une as artistas Andreia e Liliana às suas raízes mais profundas: o Fado e o Semba.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Há tanto tempo que esperava este momento

Tínhamos acertado que um dia voltaríamos à terra da avó dela à Gramatinha, montaríamos a tenda no quintal, limparíamos a velha casa abandonada a umas centenas de metros da velha aldeia e ali ficaríamos distantes do mundo por uns dias. 
E assim foi. Partimos no domingo, chegámos hoje. 
Para recordar ou respeitar verdadeiramente a memória dos nossos antepassados é aconselhável que nos coloquemos, tanto quanto possível, na pele deles: sem água canalizada, sem energia eletrica, sem comunicações e sem contraceptivos.

Que bons foram estes dias sem ouvir o telemóvel, sem ouvir o filho pedir "ó pai quero um aipode",  sem me irritar com o ruído de fundo da geladeira, sem a filha me acabar com a água quente, sem cartas de contas para pagar, sem me cruzar com a minha colega de trabalho, sósia da miss pig.

Vivemos tão intensamente que nos esquecemos que existia outro Portugal, o Portugal que paciente, aguenta a teimosia de Passos, que ignorantemente observa a competência de Gaspar, que humildemente suporta a vaidade de Portas, que se conforma com a imortalidade do Américo de Tomás.

Só um recolhimento como o destes dias me podia trazer a vontade de escrever estas linhas. Termino aqui, vou ver as notícias para ver se por cá também aconteceu alguma coisa, cinco dias sem comunicações foi um bom momento. Perdi alguma coisa?