quarta-feira, 27 de novembro de 2013

11- A fábrica a arder

No dia seguinte, à mal sucedida espera, foi Dia Santo de guarda. Não quereria a “enfeitada” esposa do Senhor António desagradar aos Céus já que, contrariamente ao que seria de esperar, não foi à fábrica descompor as mulheres mal comportadas! Pensaria, tal como elas, que não seria de esperar pela demora! Apresentou-se na Igreja, como habitualmente, acompanhada do marido e do filho, não demonstrando incómodo pelos naturais cochichos que a apontavam recordando as cenas do dia anterior.
Quando saíram ao átrio os fiéis foram surpreendidos por uma coluna de fumo que se erguia por detrás dos pinheirais - negro e tanto, só podia ser da fábrica do Senhor António! A certeza de tal conclusão deram-na os olhares, tantos, que se dirigiram à figura do respeitável empresário para apreciar a sua reacção. Num percurso apressado para o carro, sem largar uma palavra, deixou, atrás de si, um rosto de pedir socorro, acompanhado pelo filho – “agora é que foi o delas, pai!...” – e pela esposa e senhora - “foram elas, foram! foram aquelas putas para se vingarem!... “. A aflição foi correspondida por toda a gente que os seguiu, acudindo apressada a butes, em bicicletas ou motorizadas …
Quando os primeiros chegaram, já Laurindo, Laurinda, Canicha e mais dois ou três hereges que não eram de missas, andariam de baldes contra o inferno. Estragaram-se naquele dia muitas roupas domingueiras para acudir ao fogo. Eram baldes, eram mangueiras, eram ramos, eram pás, eram enxadas e, sobretudo, muitos braços e gritos, “acudam aqui!”, “acudam ali!”, “ai se chega ali”, “já se ouvem os bombeiros!”, “vem a caminho uma coluna militar com tropas do R7!”, “tem de se acudir às barcas e às cisternas de água-rás senão arde o lugar todo!”, “morremos aqui todos!”, “lá se foi o nosso ganha-pão!”, “ não há salvação”, “salvemos o que se puder” e, para abreviar o trabalho e disfarçar o engenho do narrador, fiquemos pelo ensejo de que só sabe o que são chamas quem já aiou por chamusco.
Mais que todos, quem o viveu mais intensamente foi Laurindo, Laurinda e a Canicha porque o viram nascer, crescer, tornar-se monstro até lhe levar os aposentos em que viviam. Foram salvas umas mantas e alguns tachos o que, parecendo pouco, era quase tudo o que tinham!
Ficou para a história da aldeia o grito da mulher de senhor António pedindo que a ajudassem à cabeça: - “Ó homens sem coragem ajudem-me aqui a esta barrica!” Não sabia a finória que se tratava de quinhentos quilos de pez louro, demasiado peso para o seu couro cabeludo que, provavelmente, nunca experimentara nem uma rodilha.
A tragédia encheu todo o feriado e só lusco-fusco o incêndio foi dado como extinto com toda a povoação a contemplar as chamas sobrantes aqui e acolá, a matéria-prima que se salvou e a fábrica quase totalmente destruída! O filho do patrão chorava para o pai que o conformava:
- Não te preocupes rapaz, já tenho para mim, para ti e para os teus filhos que ainda nem estão feitos! Ardeu?! Faz-se outra! Amanhã mesmo começará a nascer outra, com novas bombas, torneiras e tubagens, com chapas de zinco em vez de telha! Uma verdadeira indústria digna de ser visitada pelo Américo Tomás!
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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

10 - A fábrica da mulher do Senhor António

A mulher do Senhor António era a única que, naquele povo, era tratada e referida como senhora. Experimentara, em tempos, ser professora regente mas acabou por ser afastada por tanta porrada que dava nos alunos. Passava agora os dias na casa grande, entre lareiras, varandas, agulhas de renda, terços e orações aos santos que havia pelas salas e corredores do seu abençoado lar. Dela repetia-se muitas vezes, em conversas, a frase que certa vez largara: “Dizem que eu tenho muito que dar, e é verdade! Mas o meu coração não me ajuda!...”
Falaria com muito pouca gente. As criadas e algumas beatas pô-la-iam ao corrente das coisas que se passavam fora dos muros do seu quintal. Soube do caso do seu filho com Canicha e soube na condição de “última a saber” do caso, mais caso, do seu marido com Laurinda. Porque alguém teve indevidamente conhecimento, a senhora acabou por saber que, naquele dia, as duas irmãs tinham ido de carro para a vila com o seu António. Seria certo que o local do desembarque seria o mesmo onde embarcaram – um sítio onde a estrada passa entre salgueiros, a uns quinhentos metros da entrada do lugar. Se o caso já não era segredo para ninguém, então que houvesse escândalo!... Saiu de casa, espalhando pelo lugar a espera a que se dirigia. Falava alto para toda a gente: “aquelas putas vão ver com quem é que se meteram”; “arranco-lhes os cabelos”; “hoje vão dormir no meio dos salgueiros”, “na minha fábrica nunca mais põem as patas”, “se fossem boas tinham ficado na terra delas” e outras e outras mais que não vale a pena estar aqui a relatar. Atrás dela seguiam duas ou três mulheres, que disfarçavam com solidariedade o desejo de testemunharem a cena que daria história para contar durante muitos anos e, como não podia deixar de ser, seguiam-na também todos os cachopos da aldeia. Todos, menos dois, eu e Laurindo! Ou melhor, nós também fomos, mas fomos por veredas que se entrelaçavam com a estrada e fomos mais além do sítio anunciado para a espera. Sem que ninguém nos topasse conseguimos fazer alta aos viajantes e avisá-los do filme que os esperava!
Surpreendidos pela nossa informação o trio de passageiros corou de caras. O Senhor António seguiu sozinho no carro e eu e Laurindo, Laurinda e Canicha, regressámos escondidos pelos matos. Laurinda encomendou-me, agradecida, para que seguisse para minha casa e eles, os três, esperariam no pinhal algumas horas e só noite avançada, caso observassem sossego, se meteriam em casa. No dia seguinte, aconteceria o que Deus quisesse.
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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Raios partam a azeitona


O homem de 75 anos que teve direito à reforma mínima e que estava em cima da oliveira a serrar uma pernada, pensou:
- O ano passado estava o meu filho cá em cima e eu lá em baixo a dar as ordens mas o desgraçado emigrou!…
A mulher do homem que é mais nova do que ele uns anitos e que também recebe alguma coisita,  ripava azeitona para cima de um pano e disse:
- Faz hoje um ano era feriado e a minha filha também pôde ajudar.
A vizinha viúva que vive duma pensão de sobrevivência, que não teve filhos e que faz vaquinha com o casal acrescentou:
- E os cachopos também trabalharam bem, além de que davam outra alegria!...
O homem caiu da árvore abaixo e ficou imóvel e sem pio. A mulher do homem disse chorosa:
- Este diabo morreu!
A vizinha viúva gritou aflita:
- Acudam! Acudam!
O vizinho professor que ensina às crianças que a azeitona é o fruto da oliveira e que para além de compor certos tipos de piza também dá para fazer o azeite, acorreu e telefonou para o 112.
A socorrista testou o estado de consciência do sinistrado e este respondeu:
- Raios partam a azeitona!
A vizinha viúva quis saber:
- Mas para onde é que o vão levar? Para Abrantes, para Tomar, para Leiria, para  Sta Maria ou para S.José ? É que se ficar perto, quero-o visitar!
A  mulher do homem acrescentou chorosa:
- Ou para o Céu!.. Se é para morrer que morra em casa!
O condutor da ambulância conversou com os presentes:
- A apanha da azeitona é o nosso melhor cliente! Esta gente não se convence que não tem idade para subir às árvores!
O professor que sabe umas coisas porque vê debates na tv exprimiu também a sua opinião:
- Toda esta brincadeira fica muito cara ao Serviço Nacional de Saúde!
O autor desta história que considera secundário o facto de ainda nem sequer ser dezembro, visivelmente irritado por ter dado voz ao professor, pergunta ao governo:
- Mas o trabalho desta gente não é produção? O filho deste homem não faz cá falta? Se a irmã dele tivesse tido direito ao feriado não teria na mesma contribuído para a economia nacional? Se as crianças não tivessem ido à escola não estariam aqui também a aprender alguma coisa?
O leitor, provavelmente irritado, provavelmente do partido do professor, fecha o jornal e desabafa:

- Gaita, isto é política! Este ano o primeiro de dezembro até calha ao domingo!

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

9- A fábrica de Canicha

Canicha era mulher de várias fraquezas, disfarçadas ou vencidas pelo rosto duro, pela pele seca e rija, pelo andar despachado com que movimentava o seu corpo franzino.
Para um filho único mimado, bem colocado e na idade do desejo, como o filho do Senhor António, ela, agora viúva, apresentava-se como uma presa fácil. Enganou-se o menino. Abordagem após abordagem, Canicha, sem perder a frágil compostura, porventura intimidada pelo posto do investidor, não cedeu nem um passar de mãos, fiel ao luto ou fiel a si mesma, ciente de que tudo não passava de um abuso resultante da diferença de posições.
Com o devido respeito ia pondo tampas no rapaz, até que um dia uma tampa saltou e zás! Canicha foi agredida, acusada de não sei quê! Se a fábrica que tinha olhos por todos os recantos e há muito tempo via alguma coisa entre os dois, desta vez ouviu e ouviu bem:
- Putassa bebâda que nem tens onde cair morta! Não penses que me tentas! Eu sou um homem honrado e temente a Deus! Querias ter um filho rico?!
E, entre ofensas deste calibre, os ouvidos estenderam-se a olhos que espreitaram por entre postigos, esquinas, tubos e barris. Canicha, despachada, a desaparecer, deixando o riquito de tomates a abanar com o seu mau perder.
O episódio foi do conhecimento do senhor António. Como patrão, conhecia suficientemente o carácter de Canicha para poder concluir que ela tinha sido injustamente tratada pelo seu filho. Como pai e como homem, compreendia o filho que não teria, pela vida pacata que levava, grandes oportunidades de molhar o prego - suspeitava até que o rapaz nunca experimentara! Ora, perante o acontecido, era certo e sabido que todo o lugar pensava como ele o que, sendo bom para Canicha, não seria bom para a reputação do rapaz, quer como seu filho, quer como homem que o deveria ser por inteiro.
Veio-lhe então uma ideia. Se falasse com Laurinda, a coisa bem falada, naqueles momentos abertos de fim de acto de romance, podia ser que desse... Ela convenceria a irmã a levar por diante o plano do Senhor António, pediria perdão ao rapaz e permitir-lhe-ia a satisfação das suas carnes. Em troca, seria recompensada com um prémio irrecusável. O rapaz não poderia saber de nada.
- Nunca seria capaz de falar uma coisa dessas com a minha irmã! Se quiser, diga-lho você, senhor António! Olhe uma ocasião:
Temos de ir à Vila tratar dos papéis da morte do meu falecido cunhado. Bem que o senhor nos podia ajudar, precisamos de quem nos leve, de quem saiba ler, escrever e, sobretudo, de quem compreenda o que os escrivães dizem e querem!
Daria boleia às duas, Laurinda e Canicha, mas era bom que não se soubesse – sabe-se como é a voz do povo! Por isso, embarcariam e desembarcariam em lugar longe de olhares.

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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

8- A fábrica de Zé Coxo

O Zé Coxo, na voz do povo, era corno da sua própria cunhada. O Zé Coxo e os que dormiam com ele não iam à Missa. O padre bem tinha falado do alto do altar em avisos do Alto e em eventuais castigos. Pois não é que Zé Coxo tinha escrito no destino a sina da desgraça!
As bocas das barcas (as tais de que se chegou a pensar terem engolido o desaparecido Laurindo) onde se despejava a resina estavam sempre abertas. O trabalho de Zé Coxo, e de mais meia dúzia, era o de com a ajuda de ferramentas adequadas, sacar, através das bocas localizadas no dorso dos barris, a resina viscosa, para as barcas. Este trabalho era feito com os pés um metro abaixo do nível do estaleiro em cujo pavimento estavam abertas as bocas para a descarga. Zé Coxo, como os companheiros, repetia isto muitas vezes ao dia, subia os cinco degraus para o parque onde estavam os barris e rebolava um para a sua boca de serviço.
Foi numa dessas repetidas manobras que a perna que lhe falhava o atirou em desequilíbrio para dentro da sua boca de trabalho. Os colegas prontamente acorreram para lhe dar a mão enquanto ele se afundava na resina branca. A mão escapou-se. Deram-lhe à mão um cabo de ferramenta mas, como o diabo lha fizesse soltar, viram-no afundar-se e desaparecer como nos filmes se vêem as cenas nas areias movediças. Naturalmente, seguiu-se o pânico. Nada a fazer. A resina saía da barca por uma torneira de mais de dez polegadas mas, esvaziá-la, demoraria dias, além dos grandes prejuízos que acarretaria. Talvez os bombeiros tivessem bombas que fizessem o transvaze para a outra barca que estava quase vazia! E assim foi, durante o resto do dia e noite fora até que o corpo do pobre se distinguiu no fundo do tanque enlameado de resina.
Não existiam posses que possibilitassem que o corpo de Zé Coxo fosse transportado para a sua Beira Baixa para aí descansar em paz. Um grupo de rapazes foi buscar a carreta ao cemitério que distava dali quatro quilómetros. Deixaram-me ir também. O defunto foi a enterrar entre os ais de Canicha, as lágrimas de Laurinda, os soluços de Laurindo, os lamentos dos colegas de trabalho e o acompanhamento de toda a aldeia. Registe-se que a ausência do padre, que se recusou a fazer a cerimónia religiosa, não impediu o cortejo de todo o povo crente para encomendar a alma do desgraçado. Comentou-se até, em provocatórias conversas de insubmissão à Católica e Apostólica Romana, que Zé Coxo se estaria nas tintas para isso. Aliás, fora ele, que em brincadeiras de desejos de “quando eu morrer” dizia:
- Quando for eu façam um churrasco com a minha carne e não esqueçam que ela já vai temperada com vinho!
Entre os homens que ficaram à porta do espaço onde se fez o velório, largaram-se até umas gargalhadas quando alguém disse:
- Nem calculam o trabalho que deu lavar o Coxo coberto de resina, gastámos mais de um bidão de água rás! Ná! Mesmo grelhado, o corpo iria sempre saber a resina!
E no entanto, apesar destes desabafos, o ambiente era de pesar.
- Era um homem incapaz de fazer mal fosse a quem fosse; era um pobre desgraçado; gostava da pinga mas como dizia “muitos (juntos) bebem mais do que eu!”; podia ter acontecido a qualquer um; não ia à missa – e depois?!
Claro que, entre estas conversas, também surgiam comentários ao futuro incerto de Laurindo; à apetecida Laurinda e à, agora disponível, Canicha. Verdade seja dita, que ficaram por ali duas mulheres, sem homem, expostas às fantasias e às abordagens de homens que nunca teriam pés que substituíssem os calcanhares de Zé Coxo. Ficou também o meu maior amigo que não tardou a provar ao Senhor António que merecia, pelo seu desempenho, umas moedas que dessem para mais do que um copo de laranjada e um pacote de bolacha baunilha.
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