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sexta-feira, 26 de abril de 2024

Vá, façam vocês em novembro!

Gosto de estar à beira mar sentado a observar, uma a uma, as pessoas a passar, de lhes medir os corpos, de lhes julgar o andar, de lhes estudar expressões e de especular acerca de quem são e de onde são.

Nada que não se possa fazer numa paragem de descanso de desfile de manifestação aos Restauradores. E estava eu ali sozinho nesse entretém quando uma senhora de 80 anos upa lá, de mala de senhora pela curva do braço, de vestuário bem encaixado na idade, muito mais baixa que eu, que não sou alto por aí além, encostou a sua isolação à minha e estendeu-me unicamente estas palavras, assim sem mais nem menos, sem boa tarde, sem adeus, ou quem és tu: 

- Eu nunca vi tanta gente em toda a minha vida! Ui Jesus, o povo que para aí vai! Venho lá de cima do Marquês e vem gente de todas as ruas, a Avenida é uma enchente, aqui é o que se vê! Credo Santo nome de Deus! Em toda a minha vida nunca vi tanta gente! 

E dito isto seguiu, de passos pequenos mas frequentes, para o Rossio. Não faço ideia de onde vinha, para onde ia ou porque estava ali. Nem sequer interessa se era manifestante, transeunte, se ia para sua casa que era logo ali, se dava a sua volta habitual ou se ia apanhar a camioneta para o Samouco. O que fiquei foi muito contente de ter visto aquela senhora entre tanta gente e de entre tanta gente ela me ter visto a mim e de ambos termos visto tanta gente como uma senhora nunca viu em 80 anos.

 




sexta-feira, 4 de maio de 2012

Doce 1º de Maio

Por  estranha coincidência o local de concentração para o desfile foi à saída dum Pingo Doce. O povo que saía com os carrinhos de compras entrecruzava-se com o povo que envergava bandeiras e cartazes. O povo que passava com as compras esboçava satisfação de ter realizado bom negócio e o povo que se preparava para a marcha mostrava-se satisfeito por ver a manifestação composta. Pareciam ignorar-se mutuamente como se de dois povos diferentes se tratasse.
"Dê-me licença senhor!"; "Deixa passar a senhora camarada!"; "Viste! Ganhámos duzentos euros!... Estes estão a manifestar-se para quê!?..."; " Já somos mais de mil!... Parece que há ali uma grande promoção no Pingo Doce!..."
Chegou mais polícia, pensámos que era pelo facto dos manifestantes ultrapassarem os números previstos. Mas, afinal, entraram para o centro comercial - um desentendimento entre clientes do supermercado.
O desfile partiu deixando espaço livre aos carrinhos de compras. Só soubemos que o grande acontecimento do dia tinha sido a promoção do Pingo Doce e não as manifestações que ocorreram por todo o país, quando nos contaram já em casa. 
Mandem  lixar o Soares dos Santos, querem ouvir a nossa história?
Estávamos já no autocarro de regresso. O "marcamos às seis para sair às seis e meia" fora um mau prenúncio: falta sempre alguém; há gente que não se importa de fazer esperar os outros; podem ter-se perdido; se calhar não sabem que é aqui; isto é o que mais me irrita nestas coisas; faz parte; falta sempre alguém...
Faltava eu: contei os passageiros que estavam no exterior do autocarro em rodas de espera, contei os lugares vazios e fui ter com o chefe de viatura que também estava lá fora.
- Ouve lá! Mas para arrancar não faltam só vocês?!
Entraram. Afinal, há mais de um quarto de hora que estávamos todos, só que ninguém quis acreditar.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Fui e não te vi

Fui e não te vi porque eram muitos iguais a ti e a mim. Com certeza, se fossemos só os dois nos teríamos encontrado. Fui e não te vi porque não pudeste ir. Com certeza se pudesses terias ido e terias estado comigo. Fui e não te vi porque não te apeteceu ir. Com certeza que nunca irás perceber que estas coisas não vão por apetite. Fui e não te vi porque não estás para aí virado. Com certeza que já percebi que faz parte da minha luta acordar a tua consciência. Fui e não te vi porque estás do outro lado. Com certeza que ambos já percebemos que estamos nos lados opostos do campo de batalha.
Ir com muitos pés. Ver com muitos olhos. Sentir com muitos nervos. Lutar com muitos outros. Há lá coisa mais bonita de não nos sentirmos sós entre tantos iguais e encontrar um amigo que não se vê há tanto tempo?!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Centenas de manifestantes

O que querem, porque vão, quem são, de onde são, quantos são. Estará fora da realidade o espectador que se interrogue sobre o que querem. Será pouco informado o jornalista que lhes pergunte porque vão. Não saberá o que é o povo quem perguntar quem são. Será do SIS quem se interessar por de onde são. 
Mas o que dizer do orgão de informação que dá título à notícia assim: "Centenas manifestam-se contra políticas do Governo (DE)"??


Juntaram-se 299 999 almas em Lisboa, mal foi notícia. Fosse em Madrid, Atenas, Fátima, ou se o Benfica tivesse ganho o Mundial haveria cobertura e reportagem, directos e indirectos, prós e prós, quadraturas, miguéis, marcelos, metê-los!...
Juntaram-se em Lisboa 299 999 mulheres e homens e a notícia quase não o era. Se um touro manso  passeasse no Rossio ou um alpinista escalasse o Marquês, o país inteiro teria de ouvir das boas!

Fazer que não se ouve, fazer que não se vê, fazer que não faz mal, dar ao desprezo: eis a estratégia. 
Os senhores, podem trocar 299 999 votos por 30 moedas de ouro de Bruxelas, podem trocar os mimos dos belmiros pelos sacrifícios que pedem a quem sempre os fez, podem até ter garantidos 40 anos de poder! Mas não esperem por outro Abril, desperdiçaram o último!
Estes 299 999 são muitos mais e atrás destes vêm muitos outros que vossas excelências vêm multiplicando todos os dias.
Por agora, saem à rua ordenados, segundo as regras da sua, vossa, democracia mas vem aí o tempo em que perante a pobreza, a ostentação, o desprezo, a arrogância, a humilhação, perderão as estribeiras e a contenção!
Os senhores aprofundam agora o caminho rumo ao inevitável império do mercado. Mas na Grécia a Revolução já começou, sem regras, incontrolável e incompreensivelmente com razões!
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299 999 senhores jornalistas! 299 999 e não um homem que não quis pagar a conta num bar das Portas de Santo Antão! 299 999 porque a mim ninguém me conta,

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

O 18 de Outubro

Juntaram-se mais de 200 000 almas em Lisboa, mal foi notícia. Fosse em Madrid e haveria reportagem, Prós e Prós, Miguel, Marcelo!
Juntaram-se em Lisboa 200 000 mulheres e homens e a notícia quase não o era. Por uma garraiada em Barrancos, o país inteiro teria que ouvir das boas!

Fazer que não se ouve, fazer que não se vê, fazer que não faz mal, dar ao desprezo: eis a estratégia dos técnicos do homem que tem nome de filósofo.
O homem senhor, pode trocar 200 000 votos por 200 000 empregos, pode trocar os mimos dos belmiros, pelos sacrifícios que pede a quem sempre os fez, pode até ter garantidos 40 anos de poder!
Mas não espere que lhe ofereçam outro Abril, desperdiçou o último!
Estes 200 000 são muitos mais e atrás destes vêm muitos outros que sua excelência vem multiplicando todos os dias.
Por agora, saem à rua ordenados, segundo as regras da sua, vossa democracia.
Mas virá tempo, em que perante a pobreza, a ostentação, o desprezo, a arrogância, a humilhação, perderão as estribeiras e a contenção!
O senhor começa agora o seu caminho rumo ao inevitável império do mercado. No Brasil a Revolução já começou, sem regras, incontrolável e incompreensivelmente com razões!
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(200 000, senhores jornalistas, 200 000! 200 000 não menos importantes do que um cirurgião com HIV, do que o grupo parlamentar do psd ou do que o crédito imobilário "não sei quê"! 200 000, senhores jornalistas, 200 000!)