domingo, 25 de outubro de 2015

Antipático o raio que os parta – e aos fotógrafos também!


O fotógrafo rabeava à minha volta no pequeno estúdio, dando jeitos em suportes e projetores e na minha pessoa: gola, cabelo, cabeça, ombros e o raio que o parta, nunca mais estava tudo bem!  E, na hora do passarinho, nem ele, nem a minha mãe, me conseguiram arrancar a expressão da lei: um tipo para ficar bem na fotografia tem de arreganhar.

Foi assim e assim continou a ser em todas, conforme testemunha um quadro que tenho na sala com cartões de identidade da juventude: de estudante, da JOC, de militar, de sócio da ARCA, passageiro da CP, condutor de velocípedes e músico de cabaré.

Sou, portanto, um fulano sisudo, incapaz de responder com uma gargalhada a uma boa anedota, que só mostra os dentes se tirar a prótese. Mas gosto de ver retratos antigos. Sou também, portanto, um saudosista.

A minha primeira foto tipo-passe foi para tratar da documentação da matrícula no ensino preparatório. A minha mãe lá foi toda contente, comigo de má cara ao lado dela, e só voltou a dar um passo pelos meus estudos quando foi com o meu pai a Coimbra carregar o carro com as minhas gabardines e sebentas. Foi então que me fez a pergunta: “filho, que curso é que tiraste que as pessoas perguntam-me e eu não sei dizer?”.

Tendo iniciado o primeiro ano do ciclo nos primeiros dias de outubro só voltei a casa pelos Santos mas, para espanto meu, a minha mãe não estava. O meu pai foi comigo a Coimbra, de comboio, apanhámos um taxi para a maternidade para eu conhecer o meu primeiro irmão que não nasceu em casa e para tratar duns afetos em falta. Não pude entrar porque poderia ver mamas de mulheres e não tinha idade para isso. Chegaram as lágrimas ao meu pai quando me deixou com o porteiro, voltou passada uma hora, alegremente e com beijinhos da mãe.
- É parecido contigo!..

No início de dezembro, tendo deixado o bébé com a rapariga que a ajudava no regimento, viajou na camioneta da carreira para ver um dos seus filhos que não via há mais de dois meses.  
Manifestou tristeza e preocupação porque não me encontrou entre os outros meninos no recreio. Porque é que eu estava sozinho na sala de estudo, se ainda por cima não estava a estudar, mas a desenhar igrejas de duvidosa arquitetura?!...

Sou, portanto, pouco social. Mas enganou-se a minha mãe, não havia razões para tristeza ou preocupações, eu sentia-me muito bem ali no internato, eu gostava dos meus amigos e eles de mim e da minha cara de poucos amigos.
Eu tinha sempre alguém com quem brincar, dormíamos juntos, comíamos juntos, estudávamos juntos, rezávamos juntos, víamos livros pornográficos juntos, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas juntos, durante cinco anos que tanto marcam a vida dos mortais – dos dez aos quinze.

Quando eu saí, só ficaram dois. Só um chegou a padre mas já não o é. Perdi-os todos de vista, voltei a ver um ou outro furtuitamente. Já lá vão quarenta anos. Este é o almoço que eu desejava há muitos anos. Fiz um esforço, investiguei, procurei contactos, consegui.
Hoje, véspera do Dia de Todos os Santos, um grupo de velhos amigos vai reunir-se. Estou em pulgas para os ver a todos, vou voltar a ser quem fui.
Sou, portanto, um camarada.

(a idade não perdoa, estão aqui a dizer-me que é para a semana!...)


domingo, 18 de outubro de 2015

Toda nua





Por motivos de ordem diversa, desavenças familiares, desintegração social, pecados mortais, golpadas no alheio e razões outras, existem pessoas que, num dado momento das suas vidas, desaparecem da comunidade onde vivem, nunca mais dando sinais de si, acabando por ser esquecidas ou, no máximo, por serem o sujeito ocasional duma conversa com um “que é feito dela?”.

Ela vagueou pelas ruas da aldeia dispersa, ora em passo normal,  ora em passo de corrida, parando aqui e acolá, fixando-se  num, fugindo de outro, parada por uns, corrida por outros, completamente desvairada ou, na fala de alguém, como uma égua louca ou como uma vaca numa largada de Alcochete. 
Completamente nua. Sem crítica que lhe se pudesse fazer ao corpo, ou não fosse uma rapariga na idade em que as formas perfeitas são a regra e tudo é bonito de ser ver, apesar da circunstância não permitir a concentração em pormenores nem provocar desejos, se não mesmo os da curiosidade ou o prazer de ser testemunha dum insólito acontecimento.

Não são para contar os comentários esperados para a cena, todos os advinham, que se ilustre a mesma apenas com esperadas reações:

A professora mandou os alunos que estavam no recreio para a sala, uma beata fez o sinal da cruz e entrou na capela, alguns taparam os olhos com os dedos mal unidos, uma mulher deu um calduço no marido, uma mãe tapou a visão do filho com o chapéu, uns riram, outros lamentaram e, no entanto, era apenas uma mulher como Deus a pôs ao mundo! Apenas com mais umas sapatilhas! Também, ninguém quereria que andasse descalça no piso com pedras e poças e bostas dos caminhos do campo!

O ato de loucura foi aparado pela residente na última casa do lugar, solteirona solitária, conhecida por mulher solidária e carinhosa, inclusive com alguns maridos insatisfeitos, que lhe deu a mão, que lhe tapou as vergonhas com o que tinha à mão, levando-a para dentro e aguardando que alguém da família viesse ao socorro.

E o pai veio. Industrial de sucesso como se apresentava no meio, proprietário do carro que por ali mais circulava, conhecedor dos afetos da casa, encetou cumplicidade com a protetora para abordar com cuidados a protegida assustada e, preparada a partida, entregou razões que, dali declaradas, iriam de boca em ouvidos e de ouvidos em boca, correndo o povoado e quebrando  a má língua do juízo popular:

Fazia dois anos que fora estudar advocacia para a cidade grande, poderia ter sido de estudar muito, poderia ser droga dura que os do 25 de abril lhe deram, poderia ter sido o diabo que a tomou, o que não havia dúvidas é de que perdera a lucidez mas nada que um bom médico, um bom corretivo ou a Santa da Ladeira não pudessem curar.

 Na sequência do episódio, já lá devem ir quarenta anos, a moça - ninguém esperaria que aqui se dissesse o nome dela -  deixou de se ver e nunca mais alguém ousou perguntar ao pai “que é feito dela?”. 

Aconteceu recentemente ser recordada, por ter sido reconhecida num canal de televisão, prestando declarações numa manifestação contra as touradas.
Boca pouco brejeira dum popular brejeiro:
- Está perdoada, pelos vistos está arrependida!


- Ou terá sido apenas a manifestação dum sonho revolucionário de pureza, duma jovem que legitimamente quis testar “porque raio a nudez perturba as pessoas?!”.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Esquerda 1- Direita 0

Ando com uma mania das parábolas, talvez inspirado pela minha formação biblíca, que me dá para isto. E logo eu, que não vou em futebóis! Mas quando está em jogo Portugal!... Pronto, talvez o título do texto pudesse ser - Portugal 1 - Alemanha 0 - mas também já não o vou emendar porque o paralelo que se pode fazer é óbvio.

Estou em frente à televisão com os meus companheiros, sem a certeza da vitória certa, sem saber se o 1-0 permite o apuramento, mas estamos contentes. Estamos contentes porque o duelo é histórico, porque a cara de pau dos sempre vitoriosos nos contenta, porque o árbito (sistematicamente vendido ao adversário) mostra os seus dois tristes cus  (o do medo e o da cara) desenvergonhados.

Quando se assiste assim a um jogo com uns companheiros, bebem-se uns copos, partilha-se a alegria.
Se a bebida for boa ou bebida com moderação, amanhã continuaremos normalmente a nossa vida.
Diz-me um dos convivas que estamos a fazer muitas misturas. Aconteça o que acontecer esta festa já ninguém nos tira. Mesmo que dê ressaca já valeu a pena. Nada que não se cure com uns caldos de galinha.

sábado, 10 de outubro de 2015

As filhas do resineiro

Entre o nascer do dia e o nascer do sol era vê-los, nos caminhos das raias dos pinhais, a penetrarem neles pelas encostas e trilhos conhecidos, até chegarem ao sítio onde, no fim de tarde anterior, tinham acabado, as três filhas, o pai e o Adriano. 
Nos tempos de outras tarefas da faina bastavam os dois homens para dar conta do recado mas, nesta fase mais intensa da campanha, em que o calor ajudava à sangria da resina, exigia-se o trabalho das mulheres para fazer a colha  e levar, à cabeça, as latas ao barril.


Distanciados uns dos outros conforme impunha a lida, para darem sinais da sua presença, para temperar o labor com alegria, elas cantavam e o Adriano assobiava, cada um do sítio do púcaro que tratava, ao passo que José Liberal, de poucas falas, limitava-se a aparecer no momento certo para gerir ou para dizer que “aquele ali já não é nosso” ou “é ali a estrema”.

Bem que o caráter do empregado o contentava, trabalhador, moço educado, comprovadamente poupado no dinheiro que lhe pagava, um genro a calhar para tomar conta duma delas e lhe dar descendência, tomar conta da exploração, matando ao mesmo tempo outros “coelhos” como o da reclamação de aumentos e o da ameaça de “pró ano já não venho”. Podia pagar-lhe mais, sabia, mas vistas as coisas de outro lado, quanto mais o futuro sogro amealhasse, mais o possível herdeiro se entusiasmaria para um acasalamento. Podia ser com a mais velha, mais calada, com a do meio, mais expedita, ou com a mais nova, mais espevitada.

Era um regalo vê-las cantar e o rapaz a assobiar mas, quando o José tentava uma abordagem camuflada sobre o assunto, Adriano parecia assobiar para o lado, revelando pouco interesse por quaisquer das três.

Até que num fim de temporada: “ti Zé qualquer dia chamam-me prá tropa!”, “ti Zé a gente nesta terra não se safa!”, “aumento-te rapaz, quanto queres mais?”, “se tu casasses, livravas-te da guerra!” e eis senão quando se percebe que Adriano se havia “despedido à francesa” conforme impunham os cuidados de quem passava a fronteira a salto.

Passados três meses teria de começar nova campanha e, em cima de lhe faltar um braço direito, vem-lhe a mais nova a dizer-se pejada, passadas mais três semanas vem-lhe a mais velha com a barriga inchada.

- Agora é que ele me tramou! Foi-se embora e…  Gaita! Já agora podia ter feito o mesmo às três! E também à mãe, eu já não digo nada!..

A mulher era apagada e não mudou de tom quando soube das filhas naquele estado e apagou-se de vez passados poucos anos. Curiosamente, José Liberal conformou-se heroicamente com o que lhe caiu à porta e lhe tocou a cara: isto da juventude andar nos matos tem destas coisas; sabia lá se as três se tinham enrolado a “desencarrrascar o pinheiro” ao desgraçado; sabia-se lá se ele partira sabendo o resultado; se tivesse sido só com uma faria cíumes nas outras duas, se tivesse vingado nas três, também era demais; as três que amanhassem a vida porque, com esta história de enganos, dificilmente lhe viriam homens; o rapaz que não regressasse porque em casa de cristã,o pecado por acaso, pode acontecer mas uma prole deve nascer dum só homem e duma só mulher.

José Liberal criou os dois netos como pai até chegar a vez deles irem também - para França não que por lá ainda deve andar o indesejado!
José Liberal foi pouco depois mas foi pró outro lado.

No almoço de angariação de fundos para o Rancho Folclórico do Pinhal Velho, lá estavam as três irmãs, já pensionistas, alegres como sempre e distintas como a vida as fez, reconhecidas e acarinhadas por todos os confraternizantes já esquecidos do escândalo, os dois filhos já com filhos e de férias, sinais de vida, da vida, do povo, dos tempos ou então apenas a lição que José Liberal deixou às suas gentes de como se encaram e ultrapassam certos problemas. 

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Porque se chama ele Marcelo?

Ora então! Hum! Hum!... Vamos lá então começar a segunda fase da campanha. Vamos começar pelo princípio: porque é que o seu primeiro nome é Marcelo?

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Parábola de quem ganhou e quem perdeu

Jesus era um homem de parábola. Eu, nascido e criado na sua imagem e semelhança, também lhe dou um jeito. Assim me defenderei quando os locutores e interlocutores do senso comum, me confrontarem com quem ganhou, com quem perdeu, com os que ganham sempre, com os que nunca perdem, com os verdadeiros vencedores.

Quando começámos o jogo da lerpa daquela noite, alguns já levavam muito dinheiro acumulado de jogos e batotas anteriores, o que lhes dava um poder maior de dominar a banca, de fazer bluff, de arriscar jogadas, de fazer de conta, de intimidar os adversários. Tudo isto somado tornava-os favoritos a somar vitórias, a cantar de galo.

E foi assim que uns começaram com 100 escudos, outros com 80 escudos, outros com 8, outros com 4 e etc. e tal.  No final do jogo os que tinham 100 ficaram com 90, os que tinham 80 com 88, os que tinham 8 ficaram com 9 e os de 4 com 8.

É claro que o poder continua dependente do primeiro que tem mais que os outros, é claro que os outros todos juntos tem mais que o primeiro e etc e tal.

Mas quem ganhou? É assim tão difícil?

sábado, 3 de outubro de 2015

Resultados Eleitorais 1976-2015

É estabilidade que querem? Então contribuam, pelo voto ou pela abstenção, para que tudo continue na mesma!
Os resultados desde 76 são na prática e praticamente sempre os mesmos. Em 1976 eu era diretor dum jornal de parede chamado Farol. Era muito novo!

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Guardei isto até hoje. Por certo pensava que as coisas iam ser diferentes. Afinal o mapa eleitoral continua o mesmo - explicação fatal para justificar a cepa torta.

A fonte devem ter sido estes recortes do Diário de Notícias. Clica nas imagens para ampliar.




PS: Hoje morreu José Vilhena. Merece, da minha parte, muito mais que este PS. Oportunamente! Oportunamente porque procuro nunca escrever a quente!