quinta-feira, 31 de março de 2016

Porque o primeiro património do Alentejo são as suas gentes


Por vezes uso uma boina para parecer mais velho e, dessa forma, me dar mais ao respeito. Ninguém me verá na cabeça um boné com publicidade ao Talho do Zé ou com o logotipo duma equipa de futebol americano. Também nunca uso óculos escuros; se o Criador achasse que a luz incomodava a vista, teria dado menos gás ao sol.

Mas elas, ambas, usam ambas as coisas e usam também o telemóvel para tirarem fotografias aos sítios mais que fotografados, às flores mais do que vistas e parece até que acreditam que a tecnologia já permite que o cheiro do ensopado de borrego, que se preparam para comer, chegue aos seus amigos do facebook.  Amigos, esses, que se preocupam muito com o que elas comem, que invejam a distância a que elas estão de casa e que apreciam muito a arte menor de fotografar com o telefone!

E lá entram as duas, muito animadas, pelo pórtico. No interior, hão-de admirar talhas douradas barrocamente iguais, esforçar a literacia para não decifrar nada da inscrição em baixo relevo do túmulo do conde de Arraiolos, quem sabe até trocar as mãos pelos pés para fazer o sinal da cruz frente a um santo do século dezasseis, dizer good morning a um andaluz, muita coisa hão-de fazer no monumento porque quase duas horas se perdem lá por dentro.

O meu filho que usa um chapéu de palha, como aqueles que a avó dele me comprava na feira de maio para cada estio, que o usa por mania e porque, na sua teimosia, advoga ter direito ao seu próprio estilo; o meu filho que tem dificuldades motoras e se mói muito quando pisa calçadas, que não liga patavina às coisas que encantam os turistas e que gosta é de ver passar as turistas bonitas e falar com os mais velhos que são os que melhor o entendem; o meu filho que arrasta as palavras pausadamente e fala um pouco mais alto que o normal, o que acaba por se notar muito  em locais onde se entende que se deve falar mais baixo que o normal, prefere normalmente ficar na rua comigo.

E lá vão elas, de andar leve, com a idade que as distingue, e nós, ele com o chapéu de palha e eu com a boina, ficamos ao largo, procurando um banco corrido de descanso, onde terá de estar já sentado um natural. Topam-se bem os da terra! Pode até não ser pela boina ou pela descontração! Talvez apenas pela maneira como olham ou pela forma com puxam pelo cigarro ou abanam a bengala!

A abordagem é feita assim: o da terra deve estar sentado numa ponta, o meu filho senta-se no meio e eu na outra ponta. 
O meu filho, que tem quase a idade que eu tinha quando o tive, joga muito bem comigo nas chalaças de queimar tempo: tipo, eu observo "olha aquela velha!", ele diz eu "estou a olhar para a nova!"; eu indago, "a tua mãe e a tua irmã devem ter encontrado dois espanhóis!" ele propõe, "e nós devíamos perguntar àquelas duas espanholas que ali estão se querem conhecer dois portugueses!"; eu brinco "lá vie est belle!" e ele, ensinado, completa "mais les femmes dão cabo déle!"; olho pró céu e digo "vai chover" e ele responde "vai tu!".

O companheiro natural que está sentado no mesmo banco, à primeira, olha, à segunda, sorri, e à terceira, ou porque o chapéu do meu filho lhe dá segurança, ou porque a minha boina, quase igual à sua, lhe dá confiança, também manda a sua piada e os três rimos.

Mais à frente há-de perguntar de onde é que somos - perto de Fátima! - que já lá foi ou, "que grande história essa!" e, consoante a devoção ou a opinião, lá iremos desenvolver a conversa e lá saberemos mais de si, da sua terra, dos seus e da visão que têm da história e do valor da igreja para onde elas foram e que, graças ao amigo que encontrámos, já não temos pressa nenhuma de que saiam.

Hão-de sair as duas, mais cultas e com coisas para contar aos amigos, mas não como nós que falamos com José Cavalheiro, trabalhador agrícola reformado com tuta e meia, 83 anos feitos faz três dias, antifascista, que não troca a sua terra por três lisboas e que acaba de nos convidar para ir a sua casa que se vê dali, "aquela de barra azul que tem uma botija de gás à porta!".

Uma excursão de orientais sai da igreja.
- Pai, vêm ali elas!
- Como as distingues?!
- Não têm bonés daqueles que não gostas e não usam óculos de sol!....
(Com esta observação inocente, o sacana já me deu cabo da história, que obviamente toca a ficção, ao expor uma flagrante contradição! Peço desculpa aos leitores! )
- Vossemecê gostava de ir à China?!
- E o que é que eu ia lá fazer se não sei falar chinês?
- Mas ao menos a Fátima você devia ir uma vez na vida!
- Mas isso é Meca ou quê!? Para quê, se eu não acredito em santas!
- Olha, para beber a pinga santa que o meu pai lá tem!
- É pá, mas depois a camioneta tinha de vir sempre a parar para eu mijar!...

É claro, que pelas razões expostas, não temos nenhuma foto com José Cavalheiro. Os quatro adoramos o povo alentejano, as casas,  a paisagem e o pão, o vinho sou mais eu!...

sexta-feira, 25 de março de 2016

Crucifiquem-me mas não me aleijem!


Não gosto de ver ninguém crucificado,  sinto os meus próprios pulsos a pulsar de dor. O menino e o burrinho, um jovem a aprender de carpinteiro com o padrasto de nome Zé, um homem novo de barbas louras a subir para o céu, isso eu gosto! Mas faz-me arrepios que, perante a figura de um crucificado, se ore, se implore, se dê culto, se coleccionem crucifixos e que essa cruz, tenha substituído o peixe, como símbolo da minha religião. Ao menos o peixe sempre podia aguçar o apetite!

Eu, que culturalmente sou cristão, gostava que os adoradores da dor do bom Homem e do bom Crucificado que foi Jesus, em vez do culto da imagem, lhes desse para o cumprimento da palavra que nos deu e começassem a dar, a dar, a dar, a dar tudo o que têm: aquele ex-ministro das finanças que costuma falar do aborto, aquele ex-gestor do bcp que se abotoou, o outro, o do "aguenta, aguenta", que também invocou a sua fé, aquele que fala aos domingos na tv e sabe tudo e diz que dá, o outro que é presidente da república e que também vai à missa, isto só para citar uns poucos de que nem sei o nome mas sei que muito têm.

Imaginem que esta gente, em vez de beijar os pés descalços das imagens de barro, começava a ouvir a palavra do Senhor e começava a dar, a dar, a dar... a dar tudo o que têm até ficar sem nada, isto é que ia ser uma revolução!

Mas isto vai lá! Para já o novo papa renunciou aos sapatos vermelhos e não sou daqueles que dizem que foi porque lhe davam um ar gay. Toda a gente sabe que os sapatos pretos são mais baratos que os vermelhos!

Não quero ver ninguém crucificado! Quero apenas que me dêem a minha parte, que repartam! Dizem: não se pode repartir porque não há! Vamos lá! Um cristão não engana outro! Digam-me lá onde é que foram comer ontem à noite?!


segunda-feira, 21 de março de 2016

Mais um dia mundial - desta vez é o da poesia.


Não sei porquê, nem me interessa, nem acho piada,
Mas hoje é Dia Mundial da Poesia.
Reparem que mudei de linha para parecer verso
e vou fechar com a rima "é dia".
Volto a repetir: é dia!
Hoje é dia de passear com ela
Porque é o seu dia.
Já que nunca encontro um pretexto para falar de poesia,
Já que há muitos anos que perdi o estado de poesia,

Podem não achar piada mas esta rima entrelaçada
Pode ser considerada  um sapiens da poesia.
(julgamos que o autor quis tentar um trocadilho tipo homesapiens verso poetasapiens - não sei se estão a ver?!? enfim! ao que parece não é o único que parece não ter mais nada para fazer!...)

Vou dar uma volta com ela. Com a poesia! Ainda não sei se a levarei presa por uma corda, como quem leva a vaca à fonte, ou se a levarei presa por uma trela como quem leva a cadela a defecar a monte. Ou então irei sozinho ver as árvores, os cães, as vacas e as pessoas. Talvez nesses encontros eu possa refletir acerca da forma como eu, se fosse poeta, traduziria os sentimentos em poesia.

Chega! Já disse o suficiente para assinalar o dia.
Apetece-me um verso! Mas não tenho pão em casa e um verso sem pão não tem graça!
Uma sandes de versos ia! Uma poetisa ia!
Não vou a lado nenhum com esta prosa!
Vou beber um copo para embebedar a poesia! Talvez com vinho ela vença a timidez!
Chega! Não tem graça!

sábado, 19 de março de 2016

Talvez por ser 19 de Março

"- Filho, isto a partir dos quarenta é um instante! Foi um instante enquanto te criaste!
Pois é pai! Não sei se nesses lado por onde andas o tempo existe! Por aqui continua a haver muita falta dele e, o que há, é escorregadio e foge-nos das mãos!

Parece que foi ontem e foi há meia dúzia de anos, porque sinto exactamente a mesma coisa, porque é mais fácil, vou repetir o post - perdão aos leitões, digo leitores, habituais! Até tenho tempo mas estou com preguiça!
Esta imagem serve também para provar que, desta vez, os tipos do Google não foram muito originais!

Regressavas de França de vez. Os carros não tinham caminho para chegar à nossa porta mas a mãe sentiu o táxi parar ao fundo da ladeira e largou alegria quando me anunciou:
- É o pai que chegou João, vai esperá-lo!
É a primeira memória que guardo de ti e talvez da vida! Eu, escondido debaixo da figueira, a ver-te subir, de mala na mão, cada vez mais perto, a timidez a consumir-me o desejo e a coragem de correr para um homem alto e com bigode!... Acocorei-me por detrás do carro de bois que o ti Manel tinha estacionado à porta dele e vi-te a passar, por entre um dos dois buracos da roda de madeira, sem dares por mim!... Vi-te beijar a mãe e logo a seguir perguntar:
- E o João?!
E a mãe a descobrir-me e a apontar:
- Olha ali!
E tu, largando a mala e a correr para este, então fedelho, envergonhado e a levares-me ao colo e a mãe a dizer-me, tal como a ouço ainda agora:
- Não chores João! Já tens pai!

Depois seguiram-se anos e uma casa cheia de filhos até que, com dois meses de reforma recebidos…

Mas, nem era disto que eu queria falar agora! Eu queria recordar-te de que como, apesar de mortais, nós, os da nossa linhagem, somos duros!
Ensinaste-me a decorar a data em que a avó nasceu porque me a recordavas sempre que passávamos a Alenquer - havia uma fábrica que se avistava longe e que tinha esse ano registado em letras garrafais numa empena. Ainda hoje esse ano me serve de referência para me localizar melhor na história: “100 anos antes da minha avó nascer”, “50 anos antes da minha avó nascer”, “quando a minha avó nasceu”, “quando a minha avó tinha dez anos”…
A avó Gracinda nasceu em 1888, casou com 14 anos e tinha seis filhos quando veio a pneumónica – levou-lhos todos! A avó Gracinda não tomou anti depressivos! Teve mais sete! Não havia cama para todos? À medida que iam crescendo iam sendo alojados no palheiro! Não havia mesa para todos? Punham a tigela em cima dos joelhos à lareira! Não havia comida para todos? Paciência! Deus prometia dias melhores!

Quando eu saí de casa, com dez anos, a avó deu-me 50 escudos! É o último gesto que recordo dela!
Pois lembrei-me disto pai! De te presentear a falar da tua mãe! Se hoje receber algum presente vão ter que me ouvir a falar de ti!

domingo, 13 de março de 2016

Não adianta partir mais pedra aqui


Antes das pedras chegarem à calçada, depois das máquinas grandes arrancarem ao coração da serra grandes blocos, existem homens que, com  martelos grandes e pequenos, formam um a um os paralelepípedos que pisamos. É vê-los à sombra dum chapéu de praia em alguns sítios de Reguengos da Serra, era vê-los ganhar muito dinheiro ainda há poucos anos.

Um deles teve um filho que, de sempre o acompanhar e de outros jeitos, lhe deu para com escôparos, ponteiros e outras máquinas começar, de pequenino, a mondar a pedra e a dar-lhe formas vivas.

Quando, de liceu pronto, manifestou à mesa o desejo de ir para belas artes - o pai, "ainda se fosse para médico, advogado ou engenheiro!"; a mãe "ainda se fosse para padre! mas está bem! deixemo-lo tentar a sua vontade!" - lá foi ele com a curta rédea-mesada para a escola superior.

Ainda estudante, haveria de montar oficina no estábulo abandonado do avô e conseguir até vender alguns trabalhos, fazer orgulho à mãe, "meu filho vai ser artista!", e pôr o pai de pé atrás, "com tanta massa gasta e rebarbadoras estragadas, mais valia ele começar a pensar em desistir dos estudos e fazer-se à serra que isto é duro mas ainda vai sendo seguro para sustento!".

E a contradição entre o casal teve seguimento quando foi inaugurado, no largo da capela, um monumento em pedra que consistia num paralelepípedo de dois de altura, por meio e meio de base, com uma gravação em baixo relevo de dedicatória às gentes de Reguengos que já partiram. Em contraponto, conseguiu então o jovem, em fim de curso, receber autorização do presidente da junta para, no largo da sua rua, enquadrar uma escultura ilustrativa do homem que faz as pedras para a calçada. A mãe pediu o aval de toda a vizinhança e o pai justificou-se a todos: "aquilo não tem jeito nenhum mas o que é que um homem há-de fazer?!".

Embora sem o entusiasmo da populaça a obra lá ficou e, já formado, o artista não teve outra sugestão senão ir criar para outro lado. E fez sucesso! Os seus trabalhos começaram a ser apreciados e bem pagos e o seu nome a constar em publicações da especialidade; a mãe-raiz a  atirar "vês?!vês?!", o pai-tronco a render-se ao peso dos frutos que sempre subestimou; os santos da terra a resistirem ao seu reconhecimento, a evitarem o assunto nas conversas e a fingirem ignorar.

Viraram-se todos os silêncios e juízos quando foi notícia e o primeiro nome, seguido do apelido de raízes locais, foi pronunciado no telejornal como autor da estátua que o presidente da república recém-empossado encomendara para homenagear o seu antecessor.

E, assim vista a inauguração na televisão, com o tirar do pano e os aplausos, com nome do escultor a passar em rodapé, o filho da terra ganhou então valor! Programou-se até um jantar de homenagem quando ele fosse lá pelo Natal.

Nas imagens podiam ver-se a cara de babado do esculpido a pensar "sou estátua!", o olhar do sucessor a acenar-lhe "ideia minha! sou porreiro" e os devotos presentes a salvarem o vazio da cerimónia com o dever das palmas. 

Mas eis que passados dias, ou porque certos comendadores tivessem recolhido informações de que o autor da obra não jogava no mesmo baralho, ou porque certos comentadores assegurassem que não jogava com o baralho todo, ou porque certa imprensa humorística tivesse dito que a escultura parecia uma múmia em acentuado estado de petrificação, ou porque toda a gente viu dois presidentes nus, ou porque os verdadeiros artistas estão condenados a serem incompreendidos pelo grosso dos seus contemporâneos, gerou-se um rebuliço fenomenal de opiniões e o monumento desapareceu do fundo da avenida. Se foi mandado retirar ou foi roubado, ninguém se esforçou por apurar, ninguém quis prestar declarações e os jornalistas do regime escolheram a discrição.

Mas em Reguendos foi mais do que falado. Quando em dezembro, o filho da terra voltou à serra amada, o seu monumento de estimação, do largo da sua rua, vandalizado, era um monte de pedras, boas para reciclar para calçada.

No entanto, ele continuou o seu caminho e a sua arte, nunca mais deu mostras do seu trabalho aos aldeões e passou a recusar  todos os prémios e medalhas. Num dia histórico para a freguesia, o presidente da junta convidou o presidente da república para conhecer e promover as pedras por que a terra devia ser conhecida. Cortou-se uma fita, bateram-se palmas. Falou-se dele, ele não estava, parece que estava na festa de aniversário dum amigo de infância! Apagaram-se umas velas, beberam-se uns copos e falou-se da Arte, o Artista e a Sociedade.


terça-feira, 8 de março de 2016

8 de março - dia de Portugal

Dedico àquela que foi encarregada pelo médico de me vigiar um sinal nas costas.
desenho de Álvaro Cunhal

No dia do Pai , lembro-me dos que não têm pai.
No dia da Mãe, lembro-me dos que não têm mãe.
No dia da Mulher, lembro-me dos homens.
No dia dos Animais, lembro-me dos homens.
No dia da Árvore, lembro-me dos homens e dos ninhos.
No dia da Água, lembro-me do vinho.
No dia Sem Carros, lembro-me dos cavalos.
No dia do Não Fumador, lembro-me de fumar.
No dia do Consumidor, lembro-me do Intermarché.
No dia da Europa, lembro-me de África.
No dia de Portugal, lembro-me dos que não são portugueses.
No dia de Camões, lembro-me de Bocage.
No dia da Liberdade, lembro-me da prisão.
No dia do Trabalhador, lembro-me dos desempregados.
No dia da Defesa, lembro-me dos meus dezoito aninhos.
No dia das Mentiras, lembro-me do Cavaco.
No dia de Todos os Santos, lembro-me de todo o povo.
No dia de Natal, lembro-me do Ano Novo.
No dia da República, lembro-me do Rei.
No dia de Reis, lembro-me do Rei dos Leitões
No dia dos namorados, lembro-me dos que não têm namorada.
Mas a verdade é que geralmente não me lembro de nada.
A não ser quando tenho comichão mas costas:
- Ó amor chega aqui!
- Só se me disseres que dia é hoje!...
- Terça-feira!
- Dia de Portugal!...
Qual dos dois o melhor!... A idade não perdoa!

segunda-feira, 7 de março de 2016

Ó como as tomadas de posse são ridículas!


Todas as tomadas de posse são ridículas mas não são ridículas como as cartas de amor.
As cartas de amor são,porque expectáveis, comuns e de redondos vocábulos, mas podem ser úteis e são um gesto informal de submissão e de humildade perante alguém a quem se deseja dar prova escrita de abertura a um compromisso romântico.
As tomadas de posse são momentos onde a palavra inócua pretende ditar o subjetivo, onde o protocolo exige o fato da autoridade e da vaidade, onde a assinatura é um mero gesto fotográfico a assinalar um compromisso vão sobre um cargo, dito pesado,mas que apenas alivia o seu sujeito.

Todas as cartas de amor que já escrevi, e que nunca releria, já devem ser cinza e de certeza que nunca nunca foram agrafadas. Pelo contrário, há-de constar num livro de atas da assembleia da minha freguesia de nascença, a assinatura trémula do dia em que tomei posse de mandato como seu membro, ata essa que nunca relerei porque marca um ato absolutamente muito mais ridículo do que aquela madrugada em que escrevi a primeira declaração de amor, que por mero ou feliz acaso ou sorte, não foi correspondido.

A tomada de posse desta quarta será ridícula, por valor próprio, histórico e mediático. Lá acertará o passo para a mesa, o empossado, pegará na caneta e assinará numa caligrafia segura e sobre juramento o seu compromisso de cumprir e fazer cumprir a constituição, centenas de flashs iluminarão o seu ego, e discursará em termos vagos, coisas vagas que não acordarão o menino Jesus.

Na televisões comentadores tirarão a carne dos ossos da declaração, momento histórico ó, será declarado um novo ciclo, cavaco é para esquecer, marcelo promete, a cor da gravata, o retrato, a pose, o futuro...
Ridículo, sem paixão, pretenso, inócuo, folclore de palácio, apenas mais um, ironicamente melhor que o antecessor, culto, simpático, popular e tudo como dantes no quartel de abrantes. Marcelismo?!
Tudo tão ridículo,

sábado, 5 de março de 2016

A luz como presente

O banco fica no centro onde todos passam quando vão à vila. Trata-se dum banco clássico de jardim, com tábuas paralelas pintadas de verde, separadas por espaços vazios paralelos de mais ou menos dois centímetros e onde normalmente as pessoas se sentam para passar tempo. Enquanto o autarca não tiver oportunidade de recorrer a um fundo para dar luz à ideia de renovar o centro, equipando-o com mobiliário urbano de design moderno, o banco manterá os seus clientes. Como estes que são as personagens que dão história ao banco e fazem esta história.


Foi lá que se conheceram. No começo, cada um na sua ponta, deixando no meio dois lugares vazios onde ninguém se sentaria. Um olhando os carros que passavam, as senhoras e crianças que passeavam, os rabos dos borrachos e as pombas que depenicavam as migalhas que a humanidade deixava cair, o outro fazendo precisamente a mesma coisa, apenas com um olhar diferente, porque ninguém vê as coisas da mesma maneira. Claro que, como observadores de banco de jardim teriam, cada um, entre as suas observações objetivas, múltiplas  reflexões e distrações subjetivas.

Com o andar dos dias, o acaso de se encontrarem ali costumeiramente aproximou-os: a cumplicidade duma troca de olhares acerca dum incidente comum com um transeunte, sabe-me dizer que horas são?,  o incontornável estado do tempo, empresta-me o jornal para ler as gordas?, o simultâneo e concordante salivar sobre um naco de mulher. Com o andar do tempo, haveriam de vir a saber um do outro, o nome, quem eram e onde moravam. O mais velho era viúvo e reformado dos correios, vivia bem porque bem abonado e mal porque sozinho, o mais novo era filho de pai solteiro e desempregado de nascença, vivia mal porque agora lhe faltava a pensão do velho, recentemente falecido e bem porque não tinha filhos nem mulher. O mais velho lia as partes do jornal que falavam das coisas que se passavam no mundo, o mais novo lia a parte do futebol e dos crimes da semana, portanto, embora lendo ambos o mesmo jornal, não viam nem viviam o mesmo mundo, apesar de partilharem o mesmo banco.

Com o andar dos dias e do tempo, eis que o mais velho começou a falar dos livros que lia, contando as histórias, enquadrando-as nos momentos históricos e falando dos autores. O mais novo, que nem dinheiro tinha para o tabaco, quanto mais para livros, ouvia com a condescendência que se tem de ter com os mais velhos; mas, com o andar dos dias, do tempo e a insistência, começava a saber de literatura mesmo sem ler, começou a interessar-se pelos livros mesmo sem os ver e começou a ter carinho e admiração por um homem que apenas conhecia de se sentar no mesmo banco de jardim.

- Que interesse tem um homem mais para lá do que para cá em continuar a ler e a aprender? Porque fala com tanta vida das coisas do mundo se não tarda outro mundo terá a sua vida? Que interesse tenho eu em ouvi-lo? Porque não sou eu como ele?...

- Hei-de trazer-te esse livro!

O mais novo sentiu-se outro quando entrou em casa com um livro debaixo do braço.

- Já leste o livro que te passei?
- Não tenho candeeiro na cama!...

Um candeeiro de presente  desarmou-o de desculpas. Fazia muito tempo que não recebia uma prenda. Tinha de ler, quanto mais não fosse, como forma de reconhecimento. Ao fim duma dúzia de meses e de livros, o mais novo entregou uma longa carta de agradecimento ao mais velho, por sinal muito bem escrita onde, entre outras coisas, manifestava o desejo de arranjar emprego numa livraria.

Passada mais uma dúzia de meses e de livros, o mais novo deixou de aparecer. Soube o mais velho, pelo jornal local, que o corpo havia sido encontrado em casa já em estado de decomposição.

- Talvez seja também esse o meu destino! – pensou.


Pensou também que tinha perdido um amigo e que não dava por perdidos os mais de mil euros que já lhe tinha emprestado. Nada que o impedisse de continuar ou de voltar a encontrar um jovem a quem pudesse dar livros depois de os ler.