sexta-feira, 28 de abril de 2017

O Sol bailou ao meio dia

Um importante livro sobre Fátima escrito por um historiador. Não deixa de ser curioso que esta apresentação se tenha dado no Museu Municipal de Ourém, antiga casa do Administrador, Artur de Oliveira Santos, onde os pastorinhos estiveram os dois dias em que foram interrogados pela autoridade do concelho.




O escritor Luís Filipe Torgal apresentou  no Museu Municipal de Ourém  o seu livro “O Sol Bailou ao Meio Dia”, uma análise do fenómeno de Fátima. Integrada na rubrica “Acontece no Museu”, a sessão deu a conhecer ao público uma visão dos factos sociais e económicos que rodearam as Aparições de 1917 e que permitiram que Fátima assumisse uma dimensão mundial. 

Luís Filipe Torgal distancia-se da análise factual do fenómeno, referindo apenas que Fátima foi o resultado da sua época histórica e da exposição mediática do fenómeno realizada posteriormente pela Igreja. O autor e académico começou por dizer que Fátima é um elemento essencial para entender a Primeira República (1910 - 1926). Para perceber todo o fenómeno em torno desta cidade do concelho de Ourém “tem que se olhar para os dois lados, a forma católica e a forma republicana”. 

Luís Filipe Torgal não se limitou a estudar apenas os documentos da época, mas também os interrogatórios aos três pastorinhos, as memórias da Irmã Lúcia e a chamada literatura fatimista. “O meu objectivo não é dizer que Fátima foi ou não uma farsa. Essa questão não me interessa. Como historiador pretendo analisar a questão com objectividade”. 

O autor referiu primeiro o chamado Milagre do Sol, a 13 de Outubro de 1917, que foi o momento que deu efectivo “sucesso” à questão de Fátima. “O sol bailou de facto ou foi um fenómeno meteorológico? Há ainda quem aponte que poderão ter sido OVNIS”. Luís Filipe Torgal acaba por concluir que o artigo escrito pelo jornalista do jornal “O Século”, em que este referia que o sol havia bailado em Fátima, foi “reproduzido até à exaustão, sobretudo pela Igreja”, esquecendo-se outros artigos de jornalistas que também estiveram no local e que questionaram o fenómeno, assim como depoimentos que o negaram. 

“Em 1917 a República começava a perder força e houve um reforço do catolicismo”, comentou, lembrando que a Igreja também viria a reagir às violentas leis de separação da Igreja do Estado impostas pela Primeira República. “É preciso que a gente relacione esta ambiência. Era um período de uma guerra violentíssima que vai agravar mais a situação do país. Fátima surge num ambiente quase de fome, peste e guerra”. 

O autor lembrou ainda que todo o país tem uma longa história de aparições marianas e que só entre 1916-1918 foi registada uma dezena, em que a questão da guerra era comum. “É dito que Fátima se impôs à Igreja. Não concordo! Conseguimos encontrar vários argumentos de que foi a Igreja que impôs Fátima”. Mensagem de Fátima foi evoluindo“Não sou dos que dizem que Fátima foi uma farsa”, salientou. Mas este “foi um fenómeno de religiosidade popular que surge neste contexto de guerra, instabilidade política, fome”. 

“Acho que depois vai haver aqui é um grande aproveitamento, porque a Igreja a certa altura vai mediar o caso. Por isso é que este fenómeno vingou e os outros não”, acabando aqueles por se resumir aos tradicionais locais de romaria e arraial. “A partir de Outubro a imprensa católica começa a dar outra dimensão ao caso”.Como provas de que a Igreja tomou as rédeas da questão de Fátima, o autor destaca que a partir de 1919 os terrenos em torno do local das aparições começaram a ser comprados e cercados pela diocese, afastando-se do espaço de culto as romarias, os locais de comida e bebida. A interferência da Igreja é sentida até na chamada “mensagem de Fátima”. 

Luís Filipe Torgal comentou que em 1917 a mensagem resumia-se apenas à guerra. “É preciso rezar o terço para acabar a guerra. Nem sequer há segredo”, afirmou. Já nos anos 30, após o bispo ter pedido à Irmã Lúcia que escrevesse as suas memórias, a religiosa fala pela primeira vez no comunismo. “Até aí não havia uma única referência à conversão da Rússia”, sendo que estas memórias surgem no tempo do Estado Novo, quando se combatiam os ideais do comunismo. 

Após algum diálogo com o público, em que se juntaram mais factos à investigação do autor, este concluiu que “a história de Fátima tem sido mal esclarecida à opinião pública, tendo sido sempre quase um tabu”. “Fátima tem a dimensão que tem porque foi aproveitada pela Igreja e propagandeada pelo mundo todo”, concluiu.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

O 25 de abril e o ouro de Fátima


Excertos da entrevista ao Correio da Manhã de 23/04/217, do padre Luciano Guerra, Reitor do Santuário de Fátima entre 1973 e 2008.

"
...lembro-me de, em certa altura, ter tido conhecimento de que Otelo Saraiva de Carvalho teria falado, numa reunião do COPCON, na possibilidade de se nacionalizar os tesouros das catedrais e que o objetivo seria chegar ao ouro de Fátima. De facto, naquela altura, o Santuário tinha bastante ouro, muitos quilos de ouro.
...
Coloquei-o em caixas, em várias caixas, e, com a ajuda de uma pessoa de confiança, enterrei-as. E lá se mantiveram até à altura em que considerámos que já não havia qualquer ameaça de nacionalização ou coisa do género. 
...
Pois… Aconteceu uma história curiosa, que nem sei se deve contar-se. Quando fomos desenterrar as caixas do ouro, não me aparecia uma caixa. Fiquei preocupadíssimo, como é natural, e fiz um plano de escavações em dois ou três lugares possíveis. Tive de ir tratar de um assunto urgente à Câmara e deixei dois homens a escavar, sem lhes dizer porquê. Quando regressei encontrei-os sentados a contemplar o ouro, já que a caixa tinha-se aberto com uma pancada da picareta. Falei com eles e combinámos nunca se falar disto a ninguém, e não se falou. Aliás, é a primeira vez que falo disto e os homens que me acompanhavam, que já não estão entre nós, respeitaram exemplarmente o acordo.
"

Questões que deixo:
- Qual seria a origem deste ouro? Teria sido trazido do Céu, em alguma aparição, para distribuir pelos pobres? Ou teriam sido os pobres que o ofereceram à Virgem para Ela levar para o Céu? Nesse caso, pergunta-se, para é que pode servir ouro no Céu? 
- Será que um dos objetivos do 25 de abril era devolver o ouro de Fátima ao povo? Não acredito mas lá que era bem feito era! Para que raio quer uma Igreja que se diz dos pobres ter tanto ouro em caixa? 

domingo, 23 de abril de 2017

A senhora apareceu-me

A senhora apareceu-me!... Aparição, visão, sonho ou fantasia?
Dormia eu a sesta à sombra duma azinheira (numa manta de retalhos, pois claro!) quando uma senhora brilhante, não tanto como o sol, chegou à minha beira.

Não me disse para a louvar por ser celeste,
Não me sugeriu que sofresse para lhe agradar,
Não me exigiu que lhe agradecesse a força do meu trabalho,
Não me pediu que lhe suplicasse a felicidade,
Não me rogou que lhe repetisse como um papagaio preces e avés,
Não me segredou guerras futuras se não a venerasse,
Não me culpou pelos meus prazeres carnais,
Não disse nada.
Não vinha de calças, nem de saia comprida, nem de mini-saia.
Nua e serena, aproximou-se. 
Só uma senhora assim para me pôr de joelhos.
Pôs-se de joelhos também.
Enrolámo-nos na manta de retalhos. Paz, amor e sorte.
Azar, era dia 13, um melro largou-se no meu rosto. 
Acordei.
Da santa ou companheira, nem sinais.
Dei um salto.
Falei alto
À sombra duma azinheira:
25 de abril sempre! Fascismo nunca mais!



sexta-feira, 21 de abril de 2017

Fátima - Visão ou Aparição - eis a questão!

Fátima em três tempos, três histórias.

A primeira história de Fátima desenvolve-se até meados dos anos trinta com testemunhos de gente simples, analfabeta e temente a Deus, com uns clérigos que não perdoam a República e que vêem na moda das aparições uma forma engenhosa de chamar crentes ao seu "partido" e com Lúcia, a atriz escolhida para personagem principal.

A segunda história começa a desenvolver-se quando a Igreja toma oficialmente o caso em mãos. O articulado ganha nova prosa, os livros trabalham os depoimentos e abafam os testemunhos orais e é construída a necessária Mensagem que, à moda da época, não poderia deixar de dar ênfase à ameaça da Rússia e aos males do comunismo.

Mas eis que, chegados a estes tempos que vivemos, a verdade histórica e a Mensagem construída não oferecem coerência suficiente para serem defendidas por teólogos credenciados ou por um papado que se quer credível.

Sendo assim, como explicar a vinda dos Sumos Pontífices ao Santuário de Fátima? Efetivamente , o Vaticano está bastante comprometido com as histórias de Fátima mas, se repararmos, nos últimos anos tem existido uma hábil agenda de descalçar botas. Em 2010, Bento XVI revelou, sem grande entusiasmo, o terceiro segredo, deixando incrédulos os crentes: - Afinal era só isto?!
É também neste contexto que podemos entender a vinda do inteligente papa Francisco a Fátima. Tudo parece indicar que se começa a virar o bico ao prego e que estamos a dar início à terceira história de Fátima. Daqui a cem anos não se dirá "Centenário das Aparições" mas sim "Centenário das Visões":

No livro "Fátima: Das Visões dos Pastorinhos à Visão Cristã", D. Carlos Azevedo explica por que é que no fenómeno de Fátima se deve falar de visões e não de aparições, como vulgarmente acontece.

Clique na imagem para ver "a mosca"


terça-feira, 18 de abril de 2017

Os primeiros terços de Fátima

Para os que sabem que um terço é uma coisa que se reza e distinguem uma novena ou uma dezena dum terço ou dum rosário, aqui vos deixo o testemunho dum industrial de terços que conheço.

Crescia Fátima, nos anos trinta de Salazar e Cerejeira e a Fé em milagres do Céu fazia milagres comerciais de vendas de santinhos, de água, de vinhos e enchidos quando um pastor, pouco pastorinho, começou para lá a caminhar em dias de romaria, para vender os seus terços artesanais. Eram feitos de caroços de azeitona, que era o que por ali mais havia  além de pedras e pobreza. A mulher aos serões esburacava as "contas", uma a uma, com uma sovela e ele durante o dia encadeava o arame nos terços.
- Mas um terço feito de caroços de azeitona não seria muito agradável à vista?!
- Para os fazerem brancos, davam os caroços a comer às ovelhas para que a passagem pelos seus intestinos os fizessem brancos. No outro dia era só pôr a criançada  a dissecar caganitas e o produto estava revestido de um branco imaculado.

E foi assim que começou por aqui a indústria de produtos religiosos. Um dia o pastor já entusiasmado pelo sucesso do negócio foi a Lisboa, descobriu bolinhas de vidro da Marinha Grande já com o furo feito e tudo, e então aí,  foi um ver se te avias até aos nossos dias.


domingo, 9 de abril de 2017

Na Cova dos Leões


Tive, nos idos anos 80, um primeiro contacto com o livro ao folheá-lo no sotão dum amigo. O livro ficou-me atravessado e falei dele a outros amigos. Um deles, mais tarde, contou-me tê-lo encontrado num alfarrabista ao preço de 100 euros. Porque razão um dos documentos mais esclarecedores da história de Fátima tinha sido proibido pelo fascismo não me custou a perceber. Custava-me a perceber porque razão o 25 de Abril não proporcionara a sua reedição se os exemplares existentes tanto valiam. Até que a Antígona o reeditou em 2009. Li-o de uma noite para a outra e fiquei saciado. Pela primeira vez tive acesso ao Relatório do Administrador do Concelho de Ourém datado de 1924. Para quem se interessa pelo fenómeno da Cova de Iria esta é uma leitura obrigatória.
Do autor, Tomás da Fonseca, falarão outros. Do livro, Cova dos Leões, outros falarão. Eu simplesmente recomendo a leitura, não para criar ou eliminar crenças mas porque é bom.


quinta-feira, 6 de abril de 2017

A minha primeira peregrinação a Fátima


Tinha onze anos, os mesmos que a Lúcia tinha quando começou a ter visões. A minha mãe não era muito devota das coisas de Fátima mas não teve volta a dar-lhe. Perante a minha insistência de querer ir na peregrinação da aldeia a Fátima, antes que o Diabo as tecesse, o melhor seria fazer-me a vontade porque, por detrás da minha vontade, poderiam existir vontades de Deus.

E lá partimos, por volta das cinco da manhã, doze peregrinos sendo eu o único homem. 

A mais velha ia pelo filho que andava na guerra em África e, não sendo mulher de promessas egoístas de prometer à Virgem não sei quantas idas a pé e voltas à capelinha se  o seu rapaz voltasse inteiro, ia para pedir à Senhora que o livrasse dos tiros dos pretos e o trouxesse saudável como ele sempre fora. Como a distância a Fátima a pé não lhe fizesse grande mossa, andar era como ela, muitos quilómetros fazia todos os dias, fez seu compromisso  ir calada, sem abrir pio todo o caminho.

Quando, ao fim de duas léguas andadas, se parou para a bucha, caçoada pelas companheiras com interrogações - vozes do Demónio em bocas de gente de Deus - ora fazendo má cara, ora sorrindo, não caiu em nenhuma provocação, não se lhe ouvindo verbo nem interjeição. Amoleceu bem o sal do pão com toucinho do seu farnel com dois e meio dos sete e meio que levava do seu vinho, dando de vencidas todas a tentações das primas e vizinhas que a queriam, escarnecidamente, ver descair-se com uma palavra.

Levantaram-se as mantas e os panos para continuar na estrada de piso de terra e mal composto e, num passo mal dado, uma  raiz exposta à superfície, despoletou tropeço, fê-la andar três dias a cair e, vai daí, ei-la estatelada no chão enlameado, sem tempo para pensar que tem de estar calada e a exclamar naturalmente, "carvalho  - ou "caralho!"(ao fim de tantos anos não me lembro do termo exato!) - do cachopo que me passou uma rasteira!".
- Eu?! - perguntei na minha inocência.

Ela levantou-se a rir e disse-me "menino, estava a brincar!" E,  invertendo o sentido dos seus passos, disse às demais:
- Rezem por mim que eu vou para casa que tenho por lá mais que fazer do que farei indo convosco. Não há-de ser por causa de uma carvalhada - ou "caralhada", (ao fim de tantos anos não me lembro do termo exato) - da sua mãe que o meu filho não há-de voltar são e valente!

E, virando-se para mim, lembro-me bem, disse-me exatamente assim:
- E tu menino, já que a Santa prefere ouvir meninos, exige-lhe que Ela acabe com a guerra, que Ela tem bem poderes para isso! 


terça-feira, 4 de abril de 2017

Acredito em Fátima

Emigrantes em Clermont Ferrand - anos sessenta.  Portuguesa trai marido com francês. Como recetor do par de cornos, o português teve direito à guarda da filha. Para ficar bem guardada, trouxe-a para Fátima e deixou-a à guarda das irmãs do Colégio Nossa Senhora de Fátima. 

Maria de Fátima conhecia-me de férias passadas na aldeia e foi feliz o encontro. Encontrámo-nos por acaso nas traseiras do Santuário de Fátima. Eu estava estafado de ter ido a pé, eu estava sentado sozinho num banco de jardim. Ela fugia da proteção das freiras para fumar um cigarro adolescente. Era dia treze de maio. Tínhamos ambos trezes anos. As nossas idades somadas davam vinte seis. Encontrarmo-nos ali?! Que coincidência!... Que pedra!... Deu-me uma passa. Tossi desajeitadamente. Para me socorrer deu-me um beijo na boca. Foi a primeira vez na vida que experimentei uns lábios encostados aos meus. Mas o melhor nem foi isso. O melhor foi encostarmos os nossos olhos. Pedi-lhe namoro. Ora! - disse ela - Eu queria era casar contigo!... Mas não podemos! Tu andas a estudar para padre!

Naquele mesmo dia, decidi fazer tudo para ser expulso do seminário! Só consegui quando acendi um cigarro durante uma missa presidida pelo reverendíssimo bispo de Fátima.

Nunca mais vi Maria de Fátima a não ser ontem. Ontem fui a Fátima. Que pedra Fátima! Eu estava a observar, com espírito científico, os devotos que rezavam na Capelinha de Fátima. Era ela. Só podia ser ela! Aqueles lábios! Aqueles olhos!... Ou talvez não! Talvez tudo não passasse duma aparição! Maria de Fátima freira?! Maria de Fátima com meia idade?! Maria de Fátima com o hábito das Irmãs Servas da Nossa Senhora de Fátima, de joelhos e de mãos erguidas?!
Acenei-lhe com ambas as mãos! Num leve olhar, sem interromper o dar de lábios da oração, pareceu-me querer dizer "deve estar a confundir-me com outra!". Conformei-me, contente com a fantasia, triste com o fim do flash. Vi-a levantar-se, retirar-se, aproximar-se, caminhar na minha direção e, ao passar entre mim e outros peões dizer-me: dá-me licença, senhor padre!
Fiquei sem reação. Vi-a afastar-se. Uma freira cinquentona pelas pedras do recinto! Que pedra!... Acendi um cigarro e dei uma passa. Tossi. Ninguém me deu um beijo.

- Maria, no próximo dia dia treze de maio vou a Fátima a pé! 
- Cala-te homem de Deus! Tu nem sequer tens fé! 
- Mas preciso de andar a pé para abater a barriga!
- Então eu vou contigo!
- Isso é que não! Com essa barriga, tu não te aguentas!

Se eu conseguir encontrar Maria de Fátima em Fátima hei-de tentar ver as cores que estão por baixo daquele hábito a preto e branco. Se o conseguir, ela vai renunciar aos votos, que julgo, fez por mim, e lá vou eu ter de viver com duas marias.