domingo, 27 de maio de 2018

Lição de português

- Cuida da burra João mas não vás para ao pé do poço!

Dizia minha mãe antes de desaparecer, descalça, pelo milheiral adentro para, com os calcanhares e a sachola, encaminhar a água à raiz de cada pé de espiga. E eu ficava ali, seguindo as voltas da burra emprestada p´lo ti Adelino, vendada e amarrada à nora, repetindo voltas sempre iguais, cumprindo com os seus círculos o sucesso da próxima colheita. E eu andava por ali, também às voltas, seguindo solidário as suas voltas, caçando borboletas, contando os alcatruzes a cada despejo, seguindo os caminhos da água até esta desaparecer pela sombra fechada do milho que escondia a minha mãe. Impossível repetirem-se esses cheiros, essas águas, esse verde; nem a vida me permitirá chegar aos calcanhares do ti Adelino - dificilmente conseguirei um dia ter uma burra!

Mas sou bem herdado na parte que toca a ter passado. Usufruí dessa riqueza de partilhar com a burra o verde do milho, o som da água, a sombra da latada que completava o poço e toda a engenharia da secular nora.


Incrível como é possível que a foto que se segue me tenha permitido banhar-me nesta infância! Recebi-a com a legenda "anda tudo à nora!" Não me ofendam! "Andar à nora" não tem nada a ver com "à procura do lugar para a fotografia"!

Dum comentário: "A Merkl disse: hoje quero dormir com o colega de sapatos castanhos! Aí o pessoal entrou em pânico e todos quiseram certificar-se que não lhes tinha saído a fava no bolo-rei. Tá visto!"

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Serei procurado pela Brigada de Trânsito?

Ontem o meu irmão mais novo fez anos. Para assinalar o aniversário ofereceu um porco no espeto a toda a malta da Terrinha. Bebi a seiva das minhas raízes entre laços e entrelaços, entre conversas e desconversas, entre escárnios e cantigas.
Escusado será dizer que houve festa até às tantas e que às tantas dei por mim com uma "porca" de todo o tamanho.
No regresso, já perto de casa, fui mandado parar pela BT...
Num estado lastimável, saí do carro e vi três polícias a pedirem-me para soprar no balão...
Felizmente, do outro lado da estrada surge um camião que subiu a divisória, capotou e espalhou uma carrada de tijolos pela estrada. Ao verem isto os polícias começaram a correr em direcção ao sinistro e mandaram-me embora.
E eu lá peguei no carro e vim todo contente a dar graças à minha sorte.
Hoje acordei com a minha mulher a perguntar-me:
- Olha lá! O que é que faz um carro da Brigada de Trânsito na nossa garagem???!!!!

terça-feira, 22 de maio de 2018

A propósito do Sporting

Sob a influência da leitura de «Monsieur Gurdjieff», de Louis Pauwels


...
O desporto - mentira máxima dos humanistas - não se destina a desenvolver a máquina e a coordenar-lhe harmoniosamente as funções mas apenas a fazer dela a máquina de competições» que sirva nas pistas e estádios + ou - olímpicos.
O desporto, no clima de alienação geral, é apenas uma fábrica de mitos com que se jugulam massas ou se estabelece competição de homem para homem, de região para região, de cidade para cidade, de país para país, de continente para continente.
O desporto é mais uma forma (uma força) de alienação, uma forma de distrair e adiar, de adiar e distrair, de tornar dóceis grandes massas humanas para os fins últimos que as potências se propõem, de as escravizar à vontade dos que (hipocritamente em nome delas) delas decidem.
...

Texto completo aqui

domingo, 13 de maio de 2018

13 de maio - há quem tenha parado em 1917

Aparições de e Fátima. Ou será Visões de Fátima? Ou será das Alucinações de Fátima? Ou será da história engendrada por um grupo de pessoas a fim de enganar outro grupo de pessoas? Nunca saberemos, mas sabemos.




Dia 13 de Maio, um dia especial para muitos portugueses, e não só, que celebra a vinda de Nossa Senhora à Terra para falar a três crianças portuguesas. Primeiro, devo afirmar que um jornalista sério nunca pode dizer “As Aparições de Fátima” já que nunca ficou provado que Nossa Senhora apareceu mesmo. Para não desrespeitar o código deontológico, a nomenclatura correcta para este evento seria “As alegadas aparições de Fátima” ou, mais honestamente, as “As alucinações de Fátima”.
No entanto, como a religião ainda está tão embrenhada na nossa sociedade, trata-se o assunto como se, efectivamente, se tivessem suspendido todas as leis da física e do bom senso naquele dia em 1917 em que uma senhora se materializou no ar e ali ficou a pairar. Os anos conferem à história um peso que seria impensável se ocorresse nos dias de hoje. Aliás, nos dias de hoje, Nossa Senhora teria de se materializar num vídeo de um Youtuber para as crianças darem pela sua presença, já que crianças a brincar no meio de um descampado seria impensável. Brincar, como quem diz, passear gado, hoje, seria considerado trabalho infantil, os pais dos pastorinhos seriam julgados e a Segurança Social sinalizaria as crianças e retirá-las-ia dos pais para irem para uma qualquer instituição amiga que recebe subsídios por cada acolhimento.
Mesmo que as crianças estivessem a brincar na rua e vissem Nossa Senhora, a primeira coisa que fariam era tirar uma selfie com ela para publicar no Instagram e toda a gente ia comentar a dizer que era fake. Chegavam a casa, transtornados, dizendo aos pais que haviam contactado com um adulto vestido de branco que lhes disse para guardarem segredo. Os pais, ou os levavam ao psiquiatra que lhes diagnosticava uma qualquer doença da moda e medicava-os, ou alertavam a PJ para um possível caso de pedofilia. Depois ainda se descobria que tinha sido um padre vestido de Nossa Senhora que tinha abusado das crianças, mas não acontecia nada e este era recolocado noutra paróquia a mando de altos cargos da Igreja, abafando o caso.

O que mais me choca é que Nossa Senhora escolheu os pastorinhos como mensageiros, mas depois matou logo dois, passado uns meses. Nos dias de hoje, isso dificilmente aconteceria porque a medicina já evoluiu e dificilmente morreriam de gripe espanhola. Nossa Senhora teria de se esforçar mais e dar-lhes um cancro agressivo para os levar tão depressa. A Lúcia ficou para freira, algo que não teria acontecido nos dias de hoje devido à existência do Tinder.
A sociedade vai evoluindo e vamos ficando menos permeáveis a novos milagres, mas continuamos a achar que os que aconteceram há centenas ou milhares de anos foram verdadeiros. Num país evoluído, já nenhuma mulher se safa com a história que engravidou virgem do Espírito Santo; já ninguém acredita numa criança com astigmatismo e miopia quando ela diz que viu uma senhora no cimo de uma árvore.
Moral da história: cada um acredita no que quer, mas os jornalistas e os media não podem compactuar com ficção, tratando-a como se fosse verdade. Hoje, é o aniversário das alegadas aparições de Fátima ou, se quisermos ser factuais e basearmo-nos em várias investigações já feitas: aniversário do dia em que crianças foram crianças e inventaram mentiras, mas das quais um grupo de pessoas decidiu aproveitar-se por motivos religiosos e económicos.

domingo, 6 de maio de 2018

os dias da minha mãe

Ficou orfã de pai e mãe aos nove anos. Feita a terceira classe, teve de ir "servir" - como se dizia na altura - para ganhar o seu pão. Escreveu assim ( não, não era a minha tia Anselma, essa é de facto uma personagem da ficção!). Tenho consciência do valor literário destas poesias mas... o que é que querem? São da minha mãe. Aqui fica o que, por mais não seja, tem valor por ser autêntico.

desventurada
amargurada
sentia-me eu aos nove anos
p'la hora que vim ao mundo
triste sorte
tão cedo chegou a morte
levou-me o amor profundo
deixou-me orfã neste mundo
perdi chorando
os que não mais encontrei
desde então fiquei limpando
as lágrimas que chorei
e nessa idade
que eu queria amor e carinho
ficou comigo a saudade
daquele calor do ninho

nesse vazio os anos foram passando
eu ao calor e ao frio
o meu pão ia ganhando
e a seguir para a minha sina cumprir
casei pegava o troféu
com a cruz que Deus me deu
deu-me também
rosas criadas com espinhos
o maior tesouro de mãe
com lágrimas e carinhos
e convencida
que sofrer não é pecado
por isso a quem me deu vida
eu rezo e digo obrigado
(1964)

nós os dois, a nossa casa e o Hillman - 1975

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Poesia da tia

Depois de enterrada a tia Anselma, aqui contada recentemente, vasculhando o seu magro espólio, encontrei esta poesia que justifica a sua opção pelo celibato:

há homens de bom agrado
há outros são diabo
que aparecem às mulheres
em solteiros são tão lindos
mas aqueles lábios finos
em casados são colheres

nunca são o que parece
há homem que só se conhece
zangado e das avessas
quando briga com a mulher
chama-lhe aquilo que quer
esqueceram-se as promessas

há homem que é extravagante
por vezes é um moinante
passa a vida nas tabernas
quer é beber e jogar
e a mulher ir encontrar
disposta a abrir-lhe as pernas

em novos são ciumentos
em velhos são rabugentos
triste vida negro fado
não te metas em sarilhos
que aturar marido e filhos
é porca que torce o rabo

há homem que é um fascista
por vezes é egoísta
ainda meiguinho e a rir
mostra-se um bom camarada
faz da mulher uma criada
que ali está para o servir
eu tinha uma companheira
vivia também solteira
um dia perdeu o jeito
ao fim de um mês de casada
apareceu com a cara inchada
e um braço amarrado ao peito

rapariga se és solteira
e queres morrer de velha
vê-te bem a este espelho
estás a tempo não te cases
não dês conversa a rapazes
toma se queres meu conselho

ao falar-te deste assunto
se tenho vivido muito
pois foi sempre ajuizada
cá no meu entendimento
fiz porém meu juramento
de morrer sem ser casada

seja antero ou artur
quem os tiver que os ature
sempre disse e hei-de dizer
nunca me aventurarei
e só os aturarei
se algum dia enlouquecer

quero aqui escrito deixar
mulher que pensa em casar
traz sua alegria morta
deixo-te aqui recordado
este tão velho ditado
homens nem de barro à porta

A todos aqueles que duvidaram da autenticidade da história, julgo que a forma e teor da poesia atestam que não inventei nada.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Vai amanhã a enterrar a minha tia Anselma

Património da terra, a tia Anselma, vai amanhã a enterrar. Do leito da agonia, o mesmo onde dormiu todos os seus sonos desde que se fez moça, nem uma única pernoita fora daquela cama se lhe conta, disse-me isto assim:

- Abre aí essa gaveta, julgo que está aí dinheiro que chegue para não teres de entrar para o meu enterro. Se não chegar... olha, amanha-te! Se sobrar para um ramo de flores, que seja de cravos, acho que os mereço! Sei que não és de missas, por isso, se não houver padre, descansa, não me vou levantar!

Os pequenos, na idade em que se iniciavam na palração, não tendo língua para dobrar o nome Anselma, chamavam-lhe An e, os maiores, corrigiam-nos, completando com acentuação as sílabas em falta: - ... sel-ma! Mas foi assim, como se dum acordo de gerações se tratasse, que acabou por ficar An para os mais novos e para os mais velhos, Selma.

Por condição de solteira, mais tarde solteirinha e, a partir de certa altura, por correção sua quando a referiam nestes termos, assumidamente solteirona, ficou, por herança, com a casa dos pais, meus avós.
Com o andar dos anos, o espaço outrora cheio, foi perdendo a vida, as crianças, os animais, as arcas e as pipas cheias, as vizinhanças, até ficar só ela com mais meia dúzia de velhos enviuvados, os residentes do lugar. Enquanto teve forças, virou a terra, fez a burra carregar a palha que comia, escorou as capoeiras que ameaçavam desabar, substituiu telhas partidas, regou a horta, as hortenses e sardinheiras, caiou os muros, acendeu o forno, fez a sopa e cinco almudes de pinga por ano. 

Aos sete anos, a casa era-me de tal modo familiar que eu entrava cozinha dentro, sentindo os pés pegarem-se às tábuas sebosas, fazendo vistas largas à loiça suja e o nariz estreito ao cheiro a fumo e dizia:
- Tia An, tenho fome!
Então ela arranjava-me um naco de pão com tanta marmelada como se gastava na minha casa numa semana.

Aos doze anos, a tia An solicitava préstimos meus e dava-me em troca uns trocos que me davam jeito para comprar costelas para os pardais e fitas para os punhos da bicicleta.

Aos dezoito anos, comecei a tomar consciência do modo de ser da tia An. Teria sido, mais jovem, bonita e jeitosa, ainda era bonita e jeitosa, mas o vestuário austero, o cabelo sem cuidados, o semblante geométrico, davam-lhe um ar neutro, o ar duma pessoa que nunca surpreendia,  conformada com o destino de apenas ter de trabalhar para sobreviver.

Aos vinte e quatro anos, comecei a interrogar-me acerca da filosofia de vida da tia An. Limitada ao seu quinhão rural, na missa era mulher dos lugares do fundo, não tinha rádio nem televisor, era de conversas limitadas ao essencial, nunca dando largas a assuntos banais, era generosa mas não aprofundava grandes relações e escolhera-me como seu familiar de estimação.

Aos vinte e oito anos, quando a fui convidar para o meu casamento, tivemos a conversa das nossas vidas. Agradecia o gesto, aliás meu dever, mas saberia eu que não iria, não por não ter roupa, não a envergonhava o seu fato domingueiro, não por não ter dinheiro, saberia bem que eu não lhe cobrava a presença, mas porque não lhe apetecia e sabia bem que eu não a julgava, que comprasse eu os sapatos que quisesse que ela os pagaria.

- Ora essa tia An! Trar-lhe-ei o talão! Pena só tenho de não ter ido ao seu!
- Ó rapaz, não penses tu que não tive namorados! Dois! Um sabia bem o que ele queria e o outro o que ele queria sei eu!...
E então, dito isto,  divagou sobre si própria, a sua opção de não viver para satisfazer os caprichos ou desejos dum homem peludo e de hálito vinhateiro, de gostar de viver sozinha, da vida que levava, surpreendendo-me com uma confidência que me fez corar como se de repente se tivesse despido à minha frente:
- Homem?! Eu tenho mãos para ganhar a vida e tenho dedos para me desenrascar!

Até anteontem continuei a visitar regularmente a tia An. Acompanhava-me sempre ao carro com umas batatas ou umas cebolas, uns ovos ou umas maçãs, uma galinha ou um coelho. Falávamos à volta da lareira se fosse inverno, no sobrado se fosse verão:

Foi uma vez a Fátima, jurou para nunca mais. A Coimbra nunca foi, nem sequer para fazer uma colonoscospia. Nos anos sessenta foi uma vez numa excursão à Nazaré. Dos carros tinha medo, a televisão para ela era bruxedo, telefonar só se fosse para os bombeiros, 25 de abril, sempre! votar só uma vez e foi na foice e no martelo, às Festas do Bodo se lá te apanho lá te... e ria, ria...

A tia Anselma vai amanhã a enterrar. Tentei encontrar padre para a encomendar, não consegui mas estou confortado com o facto dela não se importar. Comigo vai estar uma meia dúzia de pessoas. Nem uma lágrima se verterá. Durante uma semana outros saberão da morte dela e é natural que dela se vá falar. Feito o orçamento da agência acho que ainda me vai sobrar algum. Daqui a uns meses aparecerão os meus primos e vai haver desentendimentos sobre montes que nada valem e montantes que deveriam existir. Daqui a uns anos ninguém saberá quem foi a última moradora, nem quem são os donos da casa dos meus avós que estará em ruínas.

Se nunca teve uma causa maior pela qual lutasse, se não era de crenças, se não deixou descendência, se não deixou obra que lhe lembre a vida, se nunca viajou, se nunca partilhou a cama para se dar ou possuir e aos outros disse nada, o que deixou a cidadã Anselma que se diga com humanidade que valeu a pena?

Ela mesmo disse do seu leito de agonia, que foi um instante e não dois dias como é hábito dizer-se, que nem ao padre alguma vez se dobrou ao arrependimento, que foi feliz sem homem e sem outra criação que não fosse as das suas cabeças e tomates e que ficaria morta em paz sem alguém que lhe velasse a sepultura.

E eu mesmo digo, continuar-se-á a respirar o oxigénio das árvores que plantou, comer-se-ão as filhas das filhas das filhas das crias que criou, ninguém poderá assegurar que o cabrito no forno que irá comer um ano destes pelo Natal não teve como antepassado uma cabrão que ela guardou, nem eu sei quando se esvairão no ciberespaço os significados deste texto que dela fala e conta. A sua vida foi tão importante como a de milhões de servos, nobres  e eremitas que já morreram e dos quais não há uma única lembrança. A sua vida valeu tanto e tão pouco como a de qualquer um.

Serena, Anselma, património da terra, vai a enterrar amanhã.