domingo, 31 de maio de 2015

6 de Junho - Dia da mãe

- Acorda João! Vais perder os 3 como eleitor! O pai já votou antes da missa enquanto eu fui comprar sardinhas! Disse que eu podia ir depois do almoço contigo, que nos emprestava a mota! Levanta-te filho do diabo! São três da tarde! O pai já foi para o café jogar às cartas e deixou-te a mota!
Cumprido o dever e o direito e já em casa, a mais de 500 m  da mesa:
- Sei que não são coisas que se perguntem mas como estamos entre mãe e filho e foi a tua primeira vez,  em quem votaste João?
- ....
- Cruzes canhoto filho! Não digas isso a ninguém! Ai se o teu pai sabe! Bem dizia ele que era má política dar-te a liberdade de não ires à missa! Se as pessoas sabem? Já viste João o que vão dizer de nós!?...

Passados 10 anos:
- Acorda João! Hoje é dia de eleições! O pai diz que já não vai votar! Já foi para o café jogar às cartas mas deixou-te as chaves do carro para tu me levares aos votos. Ou tu também já não votas?!
- Eu voto sempre, tenho pena é que não votes como eu!
- Aí é que tu enganas! Por vezes os filhos também nos ensinam algumas coisas! A partir de agora voto sempre nos teus! Não digas é ao pai nem a ninguém! Fica um segredo nosso!

Passados tantos anos, Deus pela morte, tirou o direito de voto à minha mãe - a lei da vida! Só tenho pena de não lhe ter explicado que muito antes de eu, surpreendentemente, a ter levado a votar assim, já ela me tinha ensinado, naturalmente, a votar do mesmo modo.


sexta-feira, 29 de maio de 2015

Isto tinha de dar merda

"Merda"- a palavra mais versátil da língua. Quem nunca disse "merda" a despropósito da essência da própria substância que atire a primeira pedra. Dizemos "merda" por duas razões: por tudo e por nada.

ORIENTAÇAO GEOGRAFICA: -Vai à merda!...
ADJECTIVO QUALITATIVO: -Tu és uma merda!
MOMENTO DE CEPTISMO: -Não acredito em merda nenhuma!!
DESEJO DE VINGANÇA: -Vou fazê-lo em merda!
ACIDENTE: -Já fizeste merda!
EFEITO VISUAL: -Só vejo merda!
SENSAÇÃO OLFACTIVA: -Cheira-me a merda...
DÚVIDA NA DESPEDIDA: -Porque é que não vais à merda?
MOMENTO DE SURPRESA:-Merda!!!
SENSAÇAO GUSTATIVA: -Não comas esta merda!
DESEJO DE ÂNIMO: -Anda mais rápido com essa merda!!
SITUAÇAO DE DESORDEM: -Isto está uma merda!
REJEIÇÃO: -Não quero essa merda!
DESCOBRIR O PARADEIRO DE ALGO: -Nao sei onde está aquela merda!
INTERJEIÇAO COMUM: -Mas que merda!!
COMPARAÇAO: -É tudo a mesma merda!!
SAIR DO TRABALHO: -Vou-me embora desta merda!!
Chego a casa: a televisão só dá merda, os comentadores só falam de merda, o governo é uma merda, o  primeiro ministro é um cara de merda, com gente desta isto só podia dar merda.
Um amigo telefona-me e diz-me: tu sempre fostes um merdas, tu tens de fazer como os outros e cagar nesta merda.
A conversa do meu amigo deixou-me na merda. Deito-me na merda. Cheira-me a merda. Estou outra vez com um problema nos esgotos. Fecho a porta da retrete e enfio a cabeça debaixo das mantas. Uma lufada de mau cheiro. Lembro-me que ao almoço comi uma couvada.
Levanto-me e escrevo este post de merda. Espero que compreendam esta merda. Ao monarca da pocilga desculpa-se qualquer merda.

(adulterado por mim, depois de adulterado por outros, provavelmente embrionado por autor adúltero)

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Sete olhos inchados


A malta estava naquela idade do "não é nem deixa de ser" em que o maior divertimento da festa era apanhar as canas dos foguetes e em que, ao mesmo tempo,  já se podia desempenhar a tarefa de andar a colar, a pedido do senhor prior, os cartazes do programa da Festa da Nossa Senhora do Rosário lá da terra.
A nossa energia e habilidade deve ter sido reconhecida por um filho de gente bem parecida lá da terra, estudante em Lisboa, que nos deu uns trocos para que colássemos pelas paredes lá da terra, uns cartazes dum movimento cuja sigla terminava em "P"  e cujo símbolo tinha uma foice e julgo que um martelo.

E nós, já noite feita como nos tinha sido recomendado, cumprimos a missão com o mesmo entusiasmo e com a mesma inocência com que tínhamos colado os cartazes da Festa da Nossa Senhora do Rosário, apenas com a pequeníssima diferença de que agora não era Deus que nos pagava mas um rapaz filho de gente bem parecida.
Durante o caminho de regresso do trabalho ficámos surpreendidos porque todos os cartazes tinham voado - vento não estava e era boa a cola, de modo que ali teria havido mão do diabo.

No noite seguinte o gadelhudo mal parecido, filho de gente bem parecida, veio ter connosco, espetou-nos uma carga de porrada e espetou-nos na mão mais uma carga de cartazes para que desta, lhe fizéssemos a encomenda já paga e que se não a fizéssemos levávamos mais.

E quando íamos a meio da penitência, surge-nos um outro filho de gente bem parecida lá da terra, reconhecido militante dum partido cuja sigla terminava em "D" e espeta-nos uma carga de porrada.

Não sei se este episódio foi determinante nas minhas opções políticas, sei que lá na terra, sou reconhecido por elas.

Sei também que hoje fui à terra e, ao entrar no café, vejo numa mesa cheia de imperiais e cascas de camarão, dois velhos bem parecidos. Reconheço-lhes, pela pinta, a simpatia por um partido cuja sigla termina em "D" e reconheço-os de duas cargas de porrada. Com eles está um terceiro indivíduo que conheço como sendo o presidente da junta que é dum partido cuja sigla começa por "P" e termina em "S" sem nenhuma outra letra no meio.

Dirijo-me ao balcão para um tinto e uns tremoços. Vejo-os a rirem-se e a olharem para mim. Voltam e rir-se e a olhar, trocam palavras, olham e riem-se, voltam a olhar e a rir, inchados! Pago a despesa e, ao sair, juro que sem querer, dou um valente encontrão na mesa dos figurões. Vira-se a loiça toda e sujam-se as calças finas dos figurões. Peço-lhes desculpa.
Tenho um olho inchado?! Mas no total são sete olhos inchados com vitória a favor do meu partido.
- Fiz um figurão!...

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Para acabar de vez com a segurança social

Quando não sei do telemóvel tenho uma técnica original e quase infalível que passo a revelar: pego noutro telemóvel cá da casa, ligo para o meu e pelo som consigo-o localizar. Normalmente ele revela-se em sítios normais como o bolso das calças, a própria mão ou em cima do comando da televisão. Mas também já aconteceu estar na gaveta das meias, na caixa dos estores da janela da cozinha e no sítio mais inesperado como na mesinha de cabeceira do quarto da vizinha. E ela, cínica, a bater à minha porta, a troçar do meu espanto:
- Mas como é que raio é que ele foi aparecer em sua casa se a senhora é nove um?!
- Deixe lá vizinho, se fosse o da sua esposa era mau sinal!
Ainda bem que a minha mulher não ouviu esta conversa, caso contrário teria ouvido mais uma discussão típica entre as duas:
- Cala-te que a tua gata é uma cabra!
- E a tua cabra é outra!
Mas quando me desaparecem os óculos, é que é o delas! Além de não dar para utilizar uma técnica, inteligente como esta, tenho dificuldade em vê-los sem os ter. 

Se, comprovadamente, estes desaparecimentos domésticos são sintomas de perda progressiva das minhas faculdades mentais, qual será a relação, que não encontro, entre os mesmos e a segurança social? É verdade que a segurança social participa no custo dos óculos e nos telemóveis não. Mas não deve ter sido por isso que me pus a escrever este texto...

Baixar a Taxa Social Única - a TSU como lhe chamam agora - é uma medida típica da direita neo-liberal que detem o poder.
Baixar a TSU e simultanemaente a Contribuição para a Segurança Social - não sei porque não lhe chamam CSS - é uma proposta atípica, típica, própria, imprópria de quem?!

Anda este gentinha da direita e da esquerdinha preocupada com a sustentabilidade da Segurança Social ou estão a brincar com a nossa saúde mental?

A minha mulher diz: 
- Despareceram-te os óculos?! Ainda bem! Que assim não te vejo!
A minha vizinha, da direita cristã, diz que o problema da Segurança Social é demográfico e que deviam era fazer aos contracetivos o que fizeram com o tabaco e, ao dizer isto, provoca-me um medo enorme de eu me vir a sentir um pai incógnito!... 
O meu vizinho, socialista e social democrata em alternância,  diz que na próxima manifestação vai levar um cartaz a dizer: "não quero que me baixem a contribuição para a segurança social".

Mas está tudo doido?! Acham normal o telemóvel dum tipo aparecer na mesinha de cabeceira da   vizinha e a minha mulher não ter visto que eu tenho os óculos na cara, coisa que me apercebi agora mesmo?!

Estes políticos, democratas cristãos, socialistas, sociais democratas, querem dar cabo da Segurança Social - ponto final. Porquê?! Como travá-los?! Desafio a sanidade mental de cada um a encontrar resposta!

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Elogio póstumo

Companheiro de águas passadas,
Perdemos a meada ao caminho da poesia. A poesia é o caminho dos condutores de palavras. Os júris falam da engenharia e da arquitetura das palavras, as palavras devem ser complicadas, de modo a serem só compreendidas por pessoas inteligentes e complicadas. Mas para nós, simples, os poemas teriam de ser como borboletas, teriam de nascer e morrer no mesmo dia e, assim, irrompiam de ti versos espontâneos a um ritmo que a escrita não podia acompanhar. Vinham aos jorros entre a espuma de cerveja nos teus lábios, muito menos pensados do que os das pessoas simples da terra que cantavam à desgarrada, enleavam-se no fumo dos charros e cigarros. Se fossem escritos perdiam o sentimento. Os versos eram donos e coisa do momento e, quando começavas a debitar o que sentias, o grupo inteiro se envolvia e até os poetofóbicos metiam no meio um verso ou uma palavra, de modo que de poesia de todos se tratava. Um verso era uma onda efémera que se formava da ventania dos nossos pensamentos e que desaparecia no areal do céu das nossas noites longas. Mais uma cerveja. Talvez mais um poema coletivo até que o homem de serviço dissesse que ali no café não se falava de política. Quando nós até dizíamos que faltava política à poesia e poesia à política. Depois, para que se adiasse o regresso às casas frias e pobres onde dormíamos, alongávamos o caminho pelo arrabalde e lá te vinha outra vez um ataque de poesia onde, na pausa certa, até o zé, que não sabia uma letra, metia uma farpa de poeta. E se acontecia a perturbação dos faróis dum carro na nossa direção, de certo conduzido por um velho, que não perceberia ponta dum chavelho das conspirações da juventude, muito menos de poesia, algum de nós haveria de ordenar:
- Apliquemos o velho truque, fingimos que estamos a mijar!...

Até que um dia, Egídio, farto da política sem poesia, decidiste passar-te. De anarquista passaste a usar fato e gravata, de republicano passaste-te a monarca e, como se não bastasse, o rei eras tu. Nova monarquia. O partido será fundado sobre o cadáver do rei. O motociclo de el-rei, chamavas tu à tua casal dois.
Já nada sei de ti há muitos anos. Mas nestes tempos que nos vencem todos os dias, vem-me muitas vezes a força da tua esperança:
 “Sei que perdi os mares e o império e a satisfação do momento
Mas é preciso não esquecer o chilrear das aves que se amam ao nascer do sol”

domingo, 3 de maio de 2015

Sou um grande filho duma grande mãe!

"Meu caro". "Meu amigo". "Meu caro amigo".
Tudo junto ainda gosto menos. Não gosto destes tratamentos onde entram em choque a pretensa proximidade com a evidente distância.
Também não gosto daqueles tratamentos de rua tipo: "ó chefe, sabe-me dizer onde é que fica a repartição de finanças?"; "ó patrão, olhe que lhe caiu a carteira!".
Gosto do "tu" quando ele me convence de que ainda sou novo. Não gosto de "tu" quando ele transporta um ar de abuso de confiança  ou um desejo implícito de me trepar.
No trabalho não gosto do "você" porque me faz velho, não gosto do "colega" porque colegas são as putas, dizia-se na tropa. "Camarada"? Ai isso sim! Sempre! E aí não pode entrar "você", nem "senhor", nem "meu sargento"! É o "tu cá, tu lá", a cumplicidade é sempre um prazer.
Aqui então, no Rei dos Leittões, onde eu só procuro cumplicidades, onde os amigos não têm rosto, nem morada, nem idade, fico irritado quando um comentário começa por "meu caro amigo".
Meus caros amigos, aqui o trato certo é a devida "Majestade" ou então, por falta do reconhecimento da coroa, venha o "ó pá", gosto do "ó pá", o "ó pá" serve para tudo, "porreiro, pá", diziam os outros um para o outro.
Lembrei-me agora duma cantilena que me ensinou a minha mãe:
"Olá pá! Já casaste pá?
Eu não pá! E tu pá?
Eu já pá!
Com quem pá?
Com a filha do Zé, pá!
Eina pá tanto pá!..."
Gosto do "pá". Dizem que são questões culturais mas ninguém gosta de ser tratado de qualquer forma, a não ser se for por uma amigo. A esses tudo se permite: "ó meu cabrão por onde é que tens andado?", "olha-me o filho da puta que aqui vem!...
Pois bem! Mas o que eu gosto mesmo é de ir à terrinha e sentir que ali sou sempre tratado como em nenhum outro lado. Pode ser carinhosamente por "cabrão", "filho da puta" mas o mais corrente é ser referido ou tratado por "João da Emília. Para quem não sabe, "João" é o meu nome próprio, "Emília" é nome de mãe aqui na ficção, porque não quero misturar a Idália com estas coisas.