domingo, 29 de outubro de 2017

Isto é só a gente a imaginar


Imaginem que a nossa televisão fizesse igual cobertura daquilo que se passa em Lisboa e no resto do país, tivesse por hábito ter equipas na província a recolher notícias, a fazer entrevistas, a gravar documentários, a registar acontecimentos.

Imaginem que a nossa televisão tomava,  também como sua, a luta contra a desertificação do interior e estava no terreno denunciando o fecho de serviços, a falta de comunicações, o desordenamento territorial e divulgando as iniciativas locais, os sucessos e insucessos das suas gentes, as suas dificuldades, a sua qualidade de vida.

Imaginem que os jornalistas conheciam e sentiam empatia pelas aldeias e vilas que não fazem parte de roteiros turísticos, cujo quotidiano está bastante longe daquilo que cantam as novelas.

Certamente que, com uma televisão assim, o interior não estaria tão abandonado e, porventura, a tragédia dos incêndios não teria tido um impacto tão grande. Por isso, atirem dos vossos estúdios as culpas para tudo e para todos mas não se esqueçam de refletir sobre a vossa quota parte.

Sabe-se que o espetáculo mediático do fogo é um estímulo para os pirómanos mas as goelas das vossas objetivas não resistem. Desta vez nem isso vos chega, já enjoam os relatos de perigos e infernos, as imagens das terras queimadas, o jornalismo mórbido de que vos alimentais, também estes alinhamentos estão a dar um contributo determinante para a desertificação do interior ao amedrontarem e a assustarem, não só os que querem viver no campo, como aqueles que  querem viver com ele, conhecê-lo ou visitá-lo.

Convidei um amigo de Lisboa para vir passar um fim de semana a minha casa:
- É pá! Tenho medo dos incêndios!
- Ó pá! Não te assustes! Por aqui ardeu muito pouco!
- Pois por isso mesmo! Não podemos adiar isso para quando o problema da desertificação estiver resolvido?
Caiu a chamada.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O adultério tem os anos contados



Trabalhei que nem um louco. Entrei no T2 exausto. Ouço sons ofegantes, suspiros, grunhidos que vêm do meu quarto.
Pensei:
Entro de rompante e armo um chinfrim? - Não, isso seria um ato pouco civilizado.
Bato à porta? -Era o que faltava!
Espreito pelo buraco da fechadura? - E se a cena me desagradar? E se a cena me agradar?
Um cigarro, isso mesmo um cigarro, o cigarro é uma vantagem que, em certas ocasiões, os fumadores têm. Dirigi-me à marquise e à janela, inspirei um cigarro bem pensado.
Ouço a porta de entrada do T2 bater. Alguns instantes depois ela disfarça a surpresa da minha presença e carrega a máquina com roupa da cama.
- Então querido, não ouviste a porta a bater quando entrei?
- Ouvi, ouvi mas não liguei! Até pensei que pudesse ser um assaltante!
- Lá estás tu com o teu humor de homem! Fazes um bifinho para o jantar?
- De boi ou de vaca?
- Credo! Lembras-me o teu pai a falar! Sempre com esse humor machista!
Arranjei um bife de porco, jantámos e fui para o computador!

Religiões vizinhas condenar-me-ão por ser  infiel e comer porco, religiões próximas dirão que sou manso por não ser touro, religiões ateístas contemporâneas chamar-me-ão porco por escrever este texto.

Publiquei um anúncio num site de classificados: "Procuro parceiro(a) para cometer adultério".
Por segurança não deixei nenhum contacto. Não sei se foi por isso que ainda não recebi nenhuma resposta ou se é pelo facto do meu desejo não se encaixar em nenhuma cultura.

Tenho um trabalho que enlouquece. Só espero que um dia não me condenem por ter enlouquecido.


domingo, 22 de outubro de 2017

A terra a quem a trabalhar


Quando Leonor voltou à terra já não era a mesma que dali partira nas raias da maioridade. Na capital deveria ter encontrado companheiro com bons abonos, emprego em boa loja ou repartição já que, aos olhos de quem a via, virara fina. Quem a vira e quem a via: óculos de sol, saltos altos, lábios e unhas pintados, permanente, colar, malinha no ante-braço, cuidada no uso da palavra com recurso a termos por ali pouco usados e, a juntar a tudo isto, conduzia ela própria um volkswagen azulinho claro. 

A meio da volta das visitas a que vinha, desceu, com os cuidados que o seu calçado e o seu jeito exigiam, a rampa de acesso à taberna da rua onde nascera, entrou e, naturalmente, toda a gente se calou para a mirar e para a ouvir.
Falou, do posto da autoridade efémera que lhe concederam, não do pedaço de vida que lhe desconheciam pela ausência mas das mudanças que notava na terra e que a surpreendiam.

- Efetivamente, estou chocada, a quantidade de silvas e ruínas que vão por este lugar além! Que desmazelo o desta gente! Hoje em dia ninguém quer trabalhar!
Foi o Zé da Venda, que por sabedoria de ofício ouvia muito mais do que falava, que a pôs no seu lugar:
- Leonor, se ainda sabes distinguir uma foice dum foice, vais ali às minha alfaias e podes começar já naquilo que herdaste dos teus pais!

Meia engasgada, abreviou as despedidas, saiu porta fora e pôs-se ao volante, deixando abafadas pelo ruído do motor algumas gargalhadas. E então não é que na primeira curva por entre o casario, de má visibilidade, diga-se, espeta uma traseirada no carro de bois do Esquim Manel. A junta aliviou a canga por instantes mas os animais nem olharam para trás. Pararam à ordem do boieiro que veio à retaguarda verificar o acidente. O capot do automóvel bem amolgado e coberto de esterco que resvalou da carga, Leonor a sair irada e de voz esganiçada, os clientes da Venda e outras vizinhanças a acudirem ao local convocados pelo estrondo e pela discussão crescente.

- Efetivamente isto não se admite! Não devia ser permitido andar com gado nesta estrada!
- Já por cá andavam muito antes de teres carro!
- Ó Esquim mas tu tens de me pagar efetivamente os estragos no carro!
- Ó cachopa, eu não tenho a carta mas sempre ouvi dizer que quem enfia por trás paga!

A discussão prolongou-se, como é normal, alargou-se ao julgamento dos outros presentes, elevaram-se alguns tons mas, fosse qual fosse o argumento ou a sentença, a todos o Esquim Manel respondia:
- É muito simples, quem enfia por trás paga!

Não tendo corrido muito bem a ida de Leonor à terra, ressabiada, nunca mais voltou mas é ainda recordada por alguns com o "enfia atrás" e "efetivamente". Ou melhor, voltou hoje, já septuagenária, numa passat conduzida por um filho, depois de ter visto na televisão a sua terra em chamas. Não conseguindo localizar as sua propriedades teve de pedir ajuda a um primo residente!
- O que isto era e o que isto é! Isto tinha de acontecer! Esta gente sempre foi muito desmazelada! E depois ninguém quer trabalhar!
- Ó prima, há já aí quem diga que o pessoal que cá vive tem de se unir e fundar uma cooperativa e que as terras abandonadas irão ser propriedade de quem a trabalha!
- Efetivamente estou a ver que também tu viraste comunista! Tu, ouve bem, ai de quem tocar naquilo que os meus paizinhos me deixaram ou que ouse mexer nos meus marcos!
- Efetivamente prima, vou dizer-te uma coisa que nunca te disse: eu quero que tu te... tu te... tu te...

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Alguém que explique ao balola do Marcelo


Alguém que explique ao professor Marcelo, presidente de todos os telespetadores, especialista em tudo, ator de afetos, que as gentes da província podem ter muitos pêlos mas não são cachorros!...  Percebem muito bem a diferença entre passar a mão pelo pêlo a um animal e dar conforto a um cidadão desamparado pelo Estado e pelos seus chefes.

Se viesse ter comigo eu faria rom rom e com certeza que ele não sujaria as mãos!..

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O Fogo que arde em Lisboa

Arde na capital uma fogueira que projeta focos de incêndio país fora. Cresce desde a tragédia de Pedrógão Grande e ganhou fulgor este fim de semana.
Os incendiários espalham teses. De que há uma máfia terrorista do fogo no país. De que o Governo deixa. De que a classe política ganha com isso. De que há interesses.
Quer-se sacrificar alguém. A Ministra? O Governo todo, se possível!
Só não se quer pensar.
O fogo que arde em Lisboa só arde em Lisboa porque só Lisboa é que não ardeu.
Aproveita-se da ignorância e da impotência. Do choque. Do horror.
O fogo que arde em Lisboa, nas redações dos principais jornais, revistas e televisões do país, propaga-se na voz de gente que já não sai de Lisboa. Que não conhece o país. Que não tem qualquer ligação ou empatia com o modo de vida rural, com as suas práticas. Mas que dirige os principais meios de comunicação do país.
E tem a ajuda dos idiotas úteis que se vieram embora das terras, do campo e hoje vivem nas capitais ou nas periferias, desprezando a vida que os seus pais e avós tiveram. Que lhes permitiu estudar, viajar, ver outros mundos e ter, hoje, uma vida com qualidade, mas em contexto urbano.
Por isso alinham nas manifestações silenciosas contra nada. Nas partilhas de vídeos virais. Por isso clamam que se faça algo, quando não querem fazer coisa nenhuma. Nem eles, nem os incendiários que eles respeitam, cujas palavras disseminam aos quatro ventos.
Os incendiários, claro, querem cabeças a rolar. São os mesmo que defenderam a entrada da Troika, as privatizações, a estabilidade do BES ou do BPN, o benefício das autoestradas, o fim do Estado Gordo, os cortes no número de funcionários públicos em escolas, hospitais, repartições de finanças ou segurança social, que viveram a expensas das PTs e hoje passeiam à conta das EDPs.
São os mesmos que escarnecem das lutas de ambientalistas e ativistas. Que se riem de quem tenta falar contra os esquemas das barragens inúteis que vão destruir os nossos rios e encarecer a fatura da eletricidade; que se riram quando houve oposição ao fecho de linhas de caminho de ferro no Tua, no Corgo, no Tâmega, por esse Alentejo fora; que se riem quando se fala em Proteção da Natureza; que acham bem que se tenha acabado com Guardas Florestais e Guarda Rios; que ignoram as lutas contra a exploração de gás natural e petróleo; que propagam os mitos da agricultura intensiva, de um Alqueva em cada esquina ou de um fábrica de pasta de papel em cada região.
São os mesmos que bloqueiam ou censuram os poucos jornalistas que se especializaram em questões de Ambiente. Que não lhes dão espaço, nem tempo para escrever. Que se riem das suas propostas e, quando os deixam trabalhar, lhes dizem que o ângulo tem de ser mais apelativo, falar de casos de sucesso, de empreendedorismo, de mudar de vida, de famílias vintage.
Por isso, ignoram os ciclos naturais, as dinâmicas agro-pastorícias e florestais. Não sabem que o fogo faz parte da vida do campo. Não sabem que o país que ainda não ardeu anda por estes dias a apanhar azeitona. E que desse ritual faz parte, muitas vezes, podar ramas e pernadas das oliveiras. E queimá-las. Ali mesmo, nos terrenos. Porque o pão já não se faz todas as semanas no forna a lenha. Porque já não há camas de animais para fazer com essas sobras. Porque muitos desses terrenos continuam a ser semi-cultivados por gente que já não mora nessas terras e lá vai apenas aos fins de semana. Ou por gente velha, abandonada ou simplesmente entregue ao seu dia-a-dia e ao que há para se fazer. E há que limpar os terrenos. Há que queimar.
Os incendiários que hoje projetam as suas farpas incandescentes pelos ecrãs não querem discutir o país.
Não querem saber se a gestão dos Parques Naturais vais ser desmantelada e entregue às Câmaras e aos mais paroquiais caciques; fazem por ignorar que todos os dias os gabinetes dos Ministérios da Agricultura e do Ambiente abrem exceções à integridade da Reserva Agrícola Nacional e da Reserva Ecológica Nacional, permitindo que se construa em todo o lado; não fiscalizam, nem investigam o trabalho da Agência Portuguesa do Ambiente ou das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional – onde mora o verdadeiro Poder do país, o que molda o território, que autoriza ou chumba todo e qualquer investimento e atividade económica fora dos núcleos urbanos, toda e qualquer exploração de recursos; não querem saber se o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas há anos que não tem vigilantes, meios ou orçamento para tratar das Áreas Protegidas; estão-se marimbando para as alterações climáticas, que não explicam, não querem explicar, nem entendem.
Os incendiários o que não querem é os seus Turismos Rurais queimados. A suas reservas de caça afetadas. Os seus caminhos para as aldeias e vilas pitorescas – de onde muitos, na verdade, são originários – cobertos de preto e cinza. Porque é desagradável.
Porque incomoda a narrativa daquelas reportagens bafientas de verão sobre as tradições do Interior: os queijinhos, os enchidinhos, o cabritinho, as senhoras de bigode, os velhos bêbedos barrigudos de samarra.
E, acima de tudo, porque obrigava a ir conhecer o país, as suas contradições, o seu analfabetismo e iliteracia, o seu atraso. Mas também as suas realizações, acima e apesar das falhas do Estado, que há muito não existe para quem vive longe do mar.
Já os idiotas úteis não querem pensar. Porque os obrigava a calarem-se antes de cuspir tudo e um par de botas nas redes sociais. E porque isso é pouco instagramável.
Obrigava a pensar se querem mesmo pagar com os seus impostos o Estado que têm exigido ao longo deste verão e outono. Se querem pagar um corpo nacional de bombeiros profissionais – o voluntariado é muito bonito, mas não chega; um Serviço Nacional de Proteção das Florestas e Rios; se aceitam financiar o Estado para que este pague a pessoas para viverem e cuidarem das nossas serras e montes, Interior fora, onde os da cidade não querem viver, nem fazer agricultura, nem cuidar das florestas, nem criar gado; se aceitam que mais Estado é igual a mais funcionários públicos; se aceitam que a propriedade intocável tem de acabar e estão dispostos a abdicar de “ter” ao abandono a sua terra, a sua casa, a courela perdida não se sabe onde, para que alguém – seja o Estado ou o vizinho – cuide dela; se aceitam que o Estado pague a reflorestação de milhares de hectares privados ardidos; se estão dispostos a perceber que este “mais Estado” custa o dinheiro que estamos a torrar numa dívida impagável. E que negar discutir a dívida e o seu pagamento é continuar em dívida. E a arder.
Acima de tudo, se estão dispostos a meter as mãos na empreitada que é construir este País. Que não poderá ser feito só pelos outros, pelos partidos, pelos políticos profissionais de sempre.
O fogo que arde em Lisboa é só fogo de vista. Quem dá para esta fogueira, não quer pensar, nem fazer. Quer fogo de artificio.
E de fogos, está o país farto. E queimado.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O próximo ministro da administração da interna é...



Por este andar o próximo ministro da administração interna só vai aguentar até à época das cheias. Isto se não houver um terramoto antes.

Por outro lado, o primeiro ministro tem agora a oportunidade de fazer com a floresta o que o Marquês de Pombal fez com Lisboa. Mas para isso, talvez fosse melhor começar por mudar a sede do governo para Vila do Rei.

domingo, 15 de outubro de 2017

Desabafo a quente e seco


A conversa incontornável do tempo a completar os "bons dias", os encontros de circunstância a aproximar vizinhanças de vidas diferentes, a salvar diálogos obrigatórios ou que apenas se desejam e, neste outono faúlhento, o fogo e o vento a pedir chuva.

Pois então que chova três dias sem parar
Que desabe o tempo
Que chova a rodos, a cântaros e a potes
Que molhe todos e não só os tolos
Que dancem a chuva, façam novenas e procissões
Águinha que Deus a dê
Que S.Pedro solte a sua incontinência
E vós, presidentes, ministros e secretários
Tirem o cavalinho da chuva
Se esta noite chover não será certamente por obra vossa.

- Ela faz cá tanta falta!
Disse-me a vizinha que sabe o que diz.


A restauração de Portugal


O puto já foi onde eu nunca fui, Paris, Rio, Londres, Praia mas para ele Portugal é Lisboa e, via A2, Albufeira. 

Gosto de Idanha a Velha porque os naturais, apesar do peso histórico da povoação, ainda não se deixaram intimidar pelos turistas, pelos estudiosos ou pelos projetistas de terra alheia. Nas ruas apertadas vêem-se garrafas de gás com o tubo a entrar na parede de cozinha, tanques de lavar a roupa, estendais  e a venda, que resiste, tem caricas de cervejas e beatas na calçada junto à porta de entrada. Por incrível que possa parecer, isto também me faz gostar desta aldeia.

Voltas dadas por ruínas e muralhas, com o meio dia o puto começou com o "tenho fome" e não se vê sítio de matar a dita e a mulher da venda não tem por negócio servir pratos.
- Mas a senhora não vende aqui latas de atum?
- Vendo.
- Não tem por aí uma cebola?
- Tenho.
- Um pingo de azeite?
- Também.
- Um pão?
- Também se arranja!
Bela refeição, belo o ambiente, bela a mulher da venda. O puto indagou que ela não tinha ar de quem gostava de heavy-metal pelo que não percebia porque se vestia totalmente de preto.

Passar por Fátima para a patroa acender um vela. O puto desconfiado da história e das crenças da avó a fazer perguntas até chatear. 
- Cala-te! Não vês ali escrito "silêncio"?!
A avó a aproximar-se dum orifício com duas notas dobradas. O puto avança comigo.
- Com esse dinheiro bem podíamos ir a um restaurante e estávamos na mesma a ajudar! As gentes daqui são das que mais dão à Santa como forma de agradecer o sucesso dos seus negócios!  

O moço que servia à mesa usava calças pretas e camisa branca!
- Meio viúvo? Morreu-lhe a namorada? 
Perguntou o puto acrescentando que o tipo não tinha pinta de gostar de heavy metal.
O moço era estagiário da Escola de Hotelaria de Fátima e tinha a simpatia e a educação suportadas na utilização abusiva de diminutivos.

- Pretendem uma mesinha? Temos bifinhos, um bacalhauzinho, pãozinho, um vinhinho, a comidinha está boazinha? Uma sobremesinha? E, no final, a continha: quarenta e cinco euros.
Juro que se ele tivesse dito "eurinhos" teria havido maus entendimentos com o pagamento! 

Atum enlatado com cebola é bom. Não formatem o bacalhau, a sopa, os moços e as moças que nos servem e lembrem-se, lá prós lados de Idanha, a Senhora do Almortão também faz milagres: para o ano o puto quer passar as férias com os avós e não quer ir ao Algarve nem a restaurantes com rapazinhos de fatinho.

domingo, 8 de outubro de 2017

A única vez em que fui eleito


Quando eu andava lá, no seminário, havia uma espécie de associação de estudantes cujos responsáveis eram eleitos nominalmente em assembleia anual. Daquela vez, determinados o presidente e o secretário, entre os mais velhos, chegada a vez de escolher o tesoureiro, viraram-se os olhares para os mais novos e calhou-me a mim ser o escolhido. Eu, pobre puto e pobretanas,  não poderia ter grande experiência de mexer com as mãos na massa mas era o melhor na matemática. Os meus quinze anos não esconderam o nervosismo quando subi ao palco mas também não escondi o orgulho de ter merecido a confiança dos meus amigos.

Quando chegou a hora de apresentar contas, a porca torceu o rabo. Despesas de teatros, torneios, livros, viagens e velas; receitas de quotas, contributos e bilheteiras e... eh lá grande contabilista que faltam quatrocentos e setenta escudos!

Três causas possíveis: engano grave nas contas, alguém que me foi ao baú ou então, coisa que eu acreditava na altura, intervenção divina para me pôr à prova.
Três saídas possíveis: aldrabar as contas para que batessem certas, reconhecer o meu falhanço e confessar ao reitor, ou arranjar o dinheiro em falta. 
Convencido da segunda causa, optei pela terceira saída.

- Mãe, se vais ter um filho padre, seria bom que houvesse uma bíblia em casa. Estão lá, no seminário, à venda umas antigas e de boa encadernação e, diz-me Deus, que uma comporia muito bem a mesa da nossa sala.
- Quatrocentos e setenta escudos? Só falando com o pai!

Lá consegui que a família cristã abrisse a bolsa e cristaneamente avancei para comigo: se roubar para comer não é pecado, roubar livros também não e então, se for "o livro dos livros", "a palavra do Senhor", nem de roubo se poderá falar mas antes de ato louvável de louvor a Deus.

Quatro da manhã, levantei-me no silêncio da camarata, percorri pela calada da noite os longos corredores que levavam à capela mor, enfiei por debaixo do pijama a bíblia sagrada e regressei à cama.

Chegado o final do ano letivo fui expulso do seminário - a Igreja Católica e Apostólica Romana perdeu um jovem promissor que viria, certamente, a dar um bom pastor.

Dias antes, um padre fora a casa dos meus pais averiguar os equilíbrios da família, entre os quais não poderiam escapar os financeiros, ou não estivesse sempre em cima da mesa o espaço para um aumento da mensalidade; padres recebem-se na sala, na mesa da sala estava a bíblia, a minha mãe falou da aquisição, o padre reconheceu a encadernação e não vale a pena contar mais nada: a Igreja Católica e Apostólica Romana perdeu um jovem promissor que viria, certamente, a dar um bom pastor e, tendo o caso corrido os meus pequenos mundos, dado como incompetente, ladrão ou pouco esperto, sempre candidato, nunca mais voltei a ser eleito.

- Esse gajo andou a estudar para padre! Sabe muito, sabe-a toda, se for para lá faz igual aos outros!...
E eu pergunto, se faço igual aos outros, porque raio escolhem os outros e não me escolhem a mim! Porra, eu andei a estudar para padre!