domingo, 31 de dezembro de 2017

O discurso da hérnia

Eu é que beijo,
Eu é que abraço,
Eu é que sofro como o povo,
Eu é que fui a Pedrogão,
Eu é que venço nas sondagens,
Eu é que dito os acontecimentos,
Eu é que apareço na televisão,
Eu é que sei.

Eu é que sei se as leis são boas ao más,
Eu posso vetar.
Eu é que opino se os juízes julgam bem ou não,
Eu sou de direito.
Eu é que digo como o governo deve governar,
Eu sou o mais eleito.
Eu é que dito se os professores ganham bem ou mal,
Eu sou o professor.

Eu sou frenético,
Eu sou incansável,
Eu sou omnipresente,
Eu sou incontestável;
Eu sou o desejado.
Eu sou querido,
Eu sou querido por todos,
Eu sou o Marcelo.

Cum Caetano! Eu venci a história! A mim não é qualquer hérnia  que me leva o umbigo!
Eu é que sou o presidente!
Eu sou o homem de 2017 e 2018.
Que pare o país:
A minha mensagem vai passar em todas, todas as televisões, todos se vão pronunciar sobre a minha mensagem!

E, no entanto, já todos sabemos o que vai dizer e que o que vai dizer não vai dizer nada de novo!
É assim, a vida! Vai ser assim o ano novo.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Desejo a todos que não passem em 2018 o que eu passei em 2017


Um gajo chega a uma certa idade, a uma certa altura, a um certo ponto e começa a estar-se nas tintas para as efemérides, para o calendário gregoriano, para as comemorações anuais e para as passagens de ano. Um gajo já tem idade, altura e pontos de sobra para estar farto do "faz hoje anos que", "hoje é dia de" e para as mensagens de bom carnaval, boa páscoa, boas férias, feliz aniversário e et cetera
A mim, já nem o "bom dia" me diz nada: repetitivo, obrigatório, vazio, automático, inconsciente, desnecessário - Bom dia? Porquê?
Chateia-me o passar dos dias e dos anos, até das décadas. Sou mais condescendente com o passar dos séculos e das horas. Aos minutos ligo, quando espero. Aos segundos não lhes passo cartucho.

Mas esta coisa do natal e do fim de ano, das boas festas, dos desejos, votos, do ano que passou, do ano que aí vem, da solidariedade empacotada, das homilias de conteúdo medieval, dos jantares das instituições, associações, empresas, grupos de amigos e famílias, das mensagens sms, do papa, do ministro e do presidente rebentam-me com o calendário todo! De tudo querer ser novo, nada é novidade, de tudo querer ser novidade, tudo é vulgaridade, de tudo querer ser invulgar, tudo é vulgar, o brinde, a ementa, a prenda, o verbo, o voto, o gesto, montes de mensagens gastas para nada, atiradas para janeiro, como uma macheia de grãos de areia atirada para o mar.

O ano que passou, as graças e desgraças, a personalidade do ano, o jogador do ano, o filme, a reportagem, a imagem, o acontecimento,  dão-me uma tal vontade de dizer "foda-se" que só não o digo porque tenho receio que essa seja eleita a palavra do ano. Antes vou mas é... porque não ousarão lembrar-se de eleger a cópula do ano!

Quanto ao ano que termina, apaguem esse tema dos incêndios duma vez por todas! Quanto ao ano que aí vem, apaguem-me os marcelismos na televisão que eu ainda sou do tempo das "conversas em família"!

- Estou farto! Estou mal disposto, eu? Não, não é para me gabar mas lá no meu serviço chamam-me o mal disposto!

Pronto! Venha mais um que eu ainda aguento! Entre 2018 que eu acho que ainda aguento! Vai fazer 101 anos da Revolução de Outubro, vai fazer 101 anos das Aparições de Fátima!... A gente aguenta!.... 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O Natal não resolve nada

O Natal não resolve nada.
Amanhã os pobres já terão comido o quilo de arroz que a leviana solidariedade lhes foi levar a casa; a casa dos pais, que receberam filhos e netos, voltará à quotidiana pasmaceira; os postais de natal irão para o papelão ou para os eliminados do gmail; o presidente da república continuará a descascar bananas para as câmaras; o campeonato de futebol voltará para a ordem do dia; tudo se continuará a não resolver com sorteios de santas casas; os suinicultores continuarão o seu trabalho porco e o Rei dos Leittões continuará a ser carne para canhão. 
Pois em verdade, em verdade vos digo, o colesterol há-de tornar-se a faca com que me desmanchastes. 

Palavra de minha majestade: em janeiro hão-de reconhecer que o natal nada resolveu.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Crónica cruel em dó maior para três irmãos pelo Natal


As aldeias desaguam nas ribeiras.
Nas margens dos campos das ribeiras ficam os casais dos dois ou três mais abastados das aldeias.

Custódio é um dos dois ou três na sua aldeia, tem parcelas por tudo o que é ribeira, monte ou charneca, de modo que se diz, na aldeia, que não há quem não tenha um talho, pinhal ou olival que não confronte com ele com dois marcos.

Naquela aldeia, em mil novecentos e sessenta e dois, Custódio é o último homem que ainda usa barrete, que tem duas juntas, mula e burro e que vive exclusivamente da terra. Ainda assim, quando a mulher faleceu, em mil novecentos e quarenta e cinco, os filhos foram para Lisboa.

Custódio não teve outro remédio senão casar-se com uma das criadas, a mais lerda, surda que nem uma vaca, que talvez por assim ser, ou por adiantada idade, ou por consanguinidade de filhos incógnitos de antepassados, não lhe deu filhos sãos como os primeiros, os três, foram, saíram com defeito de mentalidade.

Por desgosto, coincidência ou por capricho, Custódio foi a enterrar no mesmo dia de António de Oliveira Salazar, deixando os três faltados aos cuidados da também já faltada e cada vez mais mouca, segunda mulher.

Emília, a mais velha, falava, falava, falava se Deus a dava, falava de mais, falava a toda a gente das coisas que se passavam em casa, fazia correio da aldeia e até falava das suas mesntruações. Dava-se de tal modo ao desrespeito que os rapazes rudes, que a cruzavam, a demandavam a respeito:
- Emília mostra-me a tua crica! Emília, fodes? Emília para que queres a crica se não fodes?

Adriano, o do meio, era pacato, mas tinha desembaraço para tratar do gado e de toda a lavoura, nada que o livrasse da troça das gentes rudes de que era parte: provocavam-no acerca da coisa da irmã, tentavam embebedá-lo sem sucesso e, quando num grupo, a sua boina andava sempre de mão em mão.

Fernando o mais novo, aprendera a ler e a escrever. A loucura só o apoderou já adolescente, talvez por consciência tomada do lar em que nascera, talvez por atos da mãe, talvez por maldição hereditária, o que é certo é que, diferentemente dos irmãos, com ele não se brincava, era violento, rangia dentes e não ria, lia o jornal e depois rasgava-o, não permitia que o atentassem com balolices.

Um dia, zangando-se com o Adriano no meio duma lavoura, deu-lhe com a folha metálica da vara do charrueco num sobrolho, destinando-o ao hospital. A vizinhança deu asas à sua crueldade e, de sua justiça,  amarrou-o durante horas, de cabeça para baixo, a uma oliveira centenária.

(A minha mãe levava-me pela mão, íamos a passar, não teve tempo para me ocultar a tortura, o cenário ficou-me gravado para sempre e nunca mais fui o mesmo. Ainda bem que vi. Não se deve esconder tudo das crianças.)

Os meios sobrinhos de Fernando, Emília e Adriano, entregaram-nos há uns anos anos para uma Instituição Particular de Solidariedade Social. Tentaram vender a herança dos campos da ribeira, dos pinhais e olivais mas não apareceram compradores.

Um destes dias, deste Natal, fui a um funeral, Fernando, Emília e Adriano, foram os três a enterrar.
- Os três no mesmo dia?
- É verdade! Vá lá a gente saber porquê!


Por aqui, o Natal é sempre tempo de consternação. 
- E que tal leitão?
Filhos da puta|!

Natal de quem?

As coisas por aqui não estão a ficar muito famosas. O espírito natalício tem fome, devora tudo, nem que seja um porco, rei, infante, pata negra ou atravessado, vai tudo!


Imagem por via do Avinagrado

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Também a Grécia Antiga era uma democracia


Ouçam lá, o consentimento tem de ser quebrado, foram feitos presos políticos em Espanha!
Aqueles homens foram presos pelas posições políticas que defendem!
Houve eleições na Catalunha com lideres das principais forças políticas atrás das grades!
A Espanha deixou de ser uma democracia? Se fosse só isso!
As posições tomadas pelos senhores da Europa e, em particular, as declarações do senhor Costa e do comentador Marcelo dão sinais preocupantes! Esta gente enxerga-se!

É a altura de todas as forças democráticas, de todos os democratas, quebrarem o silêncio:
a chantagem capitalista de que a Catalunha está ser alvo, a manipulação informativa dos media dominantes, as declarações do senhor Costa e do comentador Marcelo não fazem adivinhar nada de bom para um sistema democrático, já de si, em acelerado apodrecimento. 

Catalunha, independente ou não, mas sem presos políticos!

sábado, 16 de dezembro de 2017

Resolvido

- Temos de fazer o presépio!... Temos de fazer o presépio!... Nhe! Nhe! Nhe! Temos de fazer o presépio!...Se vem alguém a casa!... Nhe! Nhe!Nhe! Temos de fazer o presépio!...
- Se o queres, fá-lo tu!
- Eu vou pôr a roupa na máquina e limpar a casa de banho!
- Podes ir para as compras que eu trato disso tudo!


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Com amigos destes nem sei como será o meu Natal

Há dias um amigo provocou-me comentando que, embora eu fosse dizendo que o Natal não é a minha época, que me estou nas tintas para o Natal e que dou muito pouco pelo espírito, pelas lâmpadas  e pelos desejos de Natal, todos os anos eu me esmerava na originalidade e no cuidado da minha mensagem de Boas Festas.

Tive de engolir alguma coisa mas contrapus argumentando que as minhas mensagens têm sempre uma intenção de sátira e de provocação para estimular reações da parte dos recetores.

Além disso, se ele falava do meu postal-natal-2017, deveria concordar que pouco esmero havia tido na sua conceção, já que me limitei a fazer uma pesquisa no youtube e a encontrar um clip em que um quarteto anónimo, em aparente harmonia familiar, em modo heavy-metal, chama filho da puta ao Pai Natal. Identificado com essa aversão ao barbas brancas da coca-cola, sensibilizado pela simplicidade dos autores/atores desse youtube, talvez abusando de alguns dos seus direitos,  fiz desse clip o meu Postal de Natal, partilhando-o com alguns amigos, ele incluído.

Acontece que a maior parte dos amigos a quem dei a conhecer o dito filme, feito postal de Boas Festas, nem sequer me retribuiu uma resposta seca de "boas festas para ti também" levando-me a concluir que ou me ignoraram ou ficaram pura e simplesmente desagradados com a provocação. E os que me deram troco, contornando os motivos de Natal, limitaram-se a fazer comentários pouco abonatórios ao estado de consciência do vocalista, às pantufas da guitarrista ou à qualidade da gravação.

Por tudo isso, digo, o meu amigo não tem razão e peço agora aos leitões-leitores que vejam o vídeo e digam de sua justiça, se a escolha do vosso Rei é ou não é uma boa rabanada de Natal.



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Prá gaveta


Tendo acordado, como todos os dias, num dia assim:

Disse às pedras que poderiam ser árvores,
As pedras responderam-me que não tinham ouvidos.
Disse às árvores que se comportavam como pedras,
As árvores alegaram que as pedras não têm raízes.
Perguntei aos meus irmãos pelos nossos pais,
Eles afirmaram que não temos o mesmo apelido.
Perguntei ao vento de que lado vinha
E ele empurrou-me contra a montra da loja.
Juntei-me aos manifestantes que desciam a avenida
E os peões em trânsito tinham palas equestres.
Juntei-me ao povo que protestava na praça,
E puseram tapumes em todo o perímetro.

E depois fui para casa e liguei a TV:
Um periscópio manipulado por filhos da puta, que acabavam de ter um jantar de atum azul,  mostrava um oceano sem peixes; um filho da puta dum comentador, bem pago pelo dono, questionava  o aumento do salário mínimo em dez euros, um trabalhador duma superfície imperial agradecia ao falecido dono o quilo de arroz que lhe dera como prémio no natal.

Ao lado do televisor tenho uma foto do meu pai em fato operário. Cada vez que a olho tenho a sensação que ele está a olhar para mim.

Liguei o leitor e pus-me a ouvir o FMI, desliguei naquela parte em que o José Mário Branco começa a debitar palavrões e procurei, na estante, a Cena do Ódio do Almada Negreiros.

Adormeci a ler e a pensar que, embora, não desista de mudar o mundo, eu já só quero é que o mundo não me mude a mim.

- Almada - Negreiros?
- Xis.
- Se ao menos eu ganhesse o totobola!

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Dia das maculadas

Imaculada, rainha dos pastéis
Faz com que o vinho não se acabe nos tonéis
E a aguardente seja cada vez mais forte
Juro, beberei, beberei até à morte!


E é por isto que eu bebo e só escrevo por isso:

Os feriados só não dão gozo a quem não trabalha nos outros dias. Por isso, estou de acordo com este feriado mas não com a sua razão.

No Islão há correntes que consideram a mulher obra ou instrumento do diabo, a Cristandade idolatra a Imaculada, a Virgem, a que concebe por obra e graça do Espírito Santo, colocando-a, por esses atributos, acima ou em oposição à mulher que se mancha com o sémen. À maculada, a serva do macho, a parideira,  é-lhe vedado o acesso ao sacerdócio e o direito ao prazer sexual. 

Por isso, estou de acordo com este feriado, mas não por uma razão assim assim, que um ano é sagrado, outro ano pode não ser, dependendo da produtividade ou da sensibilidade política dos trabalhadores do alto clero.
Este dia devia ser o dia de todas as mulheres que, até aos dias de hoje, foram fodendo a velha civilização, que se deram ao prazer de ter prazer, que se estiveram nas tintas para os tabus da virgindade e bateram o Homem-de-Deus por razão e por direito, que sempre repulsaram a ideia de engravidarem dum espírito oculto, que se divertiram em estábulos, confessionários e paragens de autocarro, que estiveram por baixo, por cima, e de lado, com o namorado, com o amante ou com outras marias, que tomaram pílulas, que tiveram filhos, que amaram homens e continuam a amar, com exceção daqueles que beijam chão, paredes e sepulcros em Jerusalém.

Vivam as maculadas, as amalucadas e os malucos dos homens também!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Para se ser feliz é preciso ser-se egoísta.


Não faltam receitas, recomendações, frases e livros para se alcançar a felicidade e, em particular, na época de Natal o termo felicidade e seus derivados são marca de comunicação até ao ponto de nos sentirmos felizes por obrigação ou deprimidos por uma felicidade obrigatória que não conseguimos experimentar.

Poderíamos andar aqui às voltas com reflexões e conceitos do que é e do que não é esse estado de espírito, trazer ao discurso a velha máxima de que a dita não depende do dinheiro, haja saúde, medir quem é mais feliz do que quem, eu sou mais feliz do que tu, colocar numa escala de avaliação objetiva, como se exige para tudo nas nossas sociedades de competição, o grau de felicidade dos indivíduos.

Mas no caso presente, o que me traz ao título, foi a declaração segura duma personagem que hoje ouvi na rádio, apresentada como solidária, altruísta, preocupada com as desigualdades sociais e com as tragédias infligidas à humanidade, com os que sofrem e com os que não têm e que, no fundo, não acrescentava nada ao que já ouvi centenas de vezes ao longo da vida, seja da parte de outros testemunhos nos media, da minha vizinha do terceiro esquerdo, dum colega de trabalho ou do padre da paróquia.

Efetivamente, a felizarda criatura, fez-me mais infeliz: como é possível um ser minimamente sensível, afirmar a plenitude da sua felicidade perante o mundo, o país ou a governação que temos. Das duas uma, ou é doida ou é uma profunda egoísta. 

A única coisa que nos pode fazer sentir menos infelizes é a luta!

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Até hoje tenho escapado!


Tanto a minha mãe como o meu pai morreram prematuramente e, obviamente, eu fiquei orfão, também prematuramente! Portanto, de morte, já tenho o meu quinhão, embora tenha de reconhecer que, verdadeiramente, conhecedor do assunto só o serei tardiamente na minha hora, que acontecerá, espero, a partir deste preciso momento, fora de tempo para falar da minha experiência pessoal.

Há três dias para cá, morreram várias pessoas em Lisboa, no Alentejo, em Trás os Montes e Trás dos Matos, que é uma aldeia que fica ali próxima de Vila Cã. Peso igualmente a morte dessas pessoas mas mais pesaria se alguma delas me fosse próxima. Não podem é acusar-me de frieza por não ir no embalo mediático de aqui del preços baixos, aqui del rock, aqui del rei,  tens de chorar votos de pesar de nomes sonantes, sonae-heróis ou punks-heroínas que me dizem ainda menos do que o senhor José, natural de Vila Cã, que eu nunca conheci e de quem nunca ouvi falar.

Na morte somos todos iguais, não é o que dizem? Pois saibam que não verti uma molécula de lágrima nem por um, nem pelo outro, embora tenha consciência que um deles fez mais pelo rock português  e deu muito menos chutos do que o outro pontapés em tudo o que é português. Se o senhor José foi dono duma mercearia, facto que desconheço, terá sido um comerciante sério e terá sempre preferido a música popular portuguesa.

Agora parlamento? Já agora panteão, não?!  Não sei se houve ou não uma coroa de flores do Rei da República, nem isso me interessa. Recordo uma cantilena que o meu pai me contava e a minha mãe me ensinava:

À morte ninguém escapa, nem o rei, nem o cura, nem o papa.
Mas hei-de escapar eu! Tenho aqui um vintém, compro uma panela, meto-me dentro dela, tapo-me muito bem! Vem a morte não me vê. Bons dias meus senhores passem todos muito bem!