quinta-feira, 28 de março de 2019

Há sangue rosa, laranja, azul, até há sangue vermelho


Anda para aí muita gente indignada com as relações familiares entre gente do governo, como se isso fosse coisa nova ou exclusiva do PS. Se querem ficar ainda mais indignados investiguem mais a fundo e descubram quantos filhos e enteados, cônjuges e amantes, amigas e amigos da corja da esfera do poder, não ocupam gabinetes de direções gerais, administrações vogais, televisões, fundações e outras organizações de utilidade ou inutilidade pública, quantos deles já em posições imunes aos ciclos governativos. Se querem saber mais, podem também descobrir as surpreendentes relações familiares ou de afinidade entre figuras de diferentes partidos, desde o Gaspar que é primo do Louçã, à filha do Dias Loureiro que é casada com o filho do Ferro Rodrigues. 

Quer queiramos quer não, somos obrigados a aceitar que "ele há coincidências"!

Pois a mim, o que me indigna mesmo, no meio de tanta relação, sejam elas de elite,  familiares ou de amizade, é que estes figurões, por via desses relacionamentos, paradoxalmente, tratem da nossa vida em privado e da sua vida em público (ou o contrário, já me perdi no raciocínio).



quarta-feira, 27 de março de 2019

Em nome do Pai, do Filho e do Novo Banco


"Em nome do Pai, do Filho e do Novo Banco" é assim que se benze agora o povo crente, o povo que acredita que é assim que se vai lá, ao futuro melhor. É assim que o povo se conforma em nome da Santa Estabilidade Financeira. Mário Centeno passou de abade a bispo por venerar essa santa e não deixa de a invocar. 

Mas o que é afinal a Estabilidade Financeira senhor ministro? 
- É um processo em que as contribuições dos pobres cobrem os desvios financeiros cometidos por uma dúzia de figurões de renome. Esses figurões não se satisfazem com os milhões desses desvios, para os camuflar exibem chorudos rendimentos de gestores, não só da banca mas também de empresas do setor público e privado, de cargos políticos e de património herdado. 
O banquete é deles, bailam entre cargos, entre cidades e aeroportos, trocam de par, dançam a ronda no pinhal do rei.

Senhor ministro, não vale a pena estar sempre a pôr o milho na arca se não se puser uma porta no celeiro. Se não tem carpinteiro para a fazer nem ferro para o cadeado, mais vale dar o milho aos frangos que é para os ter que o povo trabalha as sementeiras.

Ou será o senhor ministro apenas mais um desses figurões? Sou levado a acreditar que sim, caso contrário não o teriam posto como pastor da moeda alemã!

terça-feira, 19 de março de 2019

Dia de S.José: padroeiro dos trabalhadores, sim! Dos pais, não!


Eu ainda sou do tempo em que 19 de março era feriado. Existe, perto da minha, uma aldeia de nome S.José e era para a festa dessa terra que toda a gente das redondezas ia nesse dia, sem ninguém se lembrar de quem era o pai.

A sociedade capitalista foi transferindo a sua religiosidade para o consumismo e os dias dos santos foram-se transformando em festividades mais consentâneas com o espírito do balcão do que com o culto de referências sagradas. 
E foi assim que o dia de S.José  passou a ser apenas o Dia do Pai.

Tenho pena porque S.José,  padroeiro dos trabalhadores, não merecia este enxovalho. Não chegava ao desgraçado o registo histórico-religioso de se ter conformado com o facto da sua noiva aparecer grávida dum filho, que não era seu, de ter criado o Puto e aceitar viver com ela conservando a virgindade, ainda por cima a crueldade dos crentes humilhou-o, celebrando-o também como padroeiro dos pais. 

Eu pergunto, a qualquer um dos homens que venera nas igrejas a Santíssima Trindade e a multiplicidade de santas Mãe de Deus, o que fariam se, por acaso, ao fim de mais de nove meses de namoro sem qualquer encosto de genitais, a futura esposa vos dissesse "estou grávida e não é de ti"?  - Não é do teu irmão, nem do padeiro, nem do pastor, nem do Rabino! É do Espírito Santo! (Do Ricardo? - perguntariam alguns). Imaginem que a moça acrescentaria: acredita que isto não é fruto de qualquer ato sexual. Mais ainda diria: quero que sejas apenas o seu pai nutrício e não contes comigo para te deixar fazer alguma coisa que me emprenhe outra vez!

De facto esta história brada aos céus! De tal forma que eu não reconheço como verdadeiro cristão qualquer homem que, perante uma gravidez inexplicável da sua mulher ou namorada, não aceite uma explicação do género: foi obra e graça do Espírito Santo.

Começar a chamar ao Dia de S.José o Dia do Pai também me parece muito pouco cristão. 
Senhores do Vaticano, para não dar cabo do comércio, e tratando-se do santo dos trabalhadores, talvez fosse melhor que o Dia de S.José passasse a ser o 1ª de maio.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Almada-Negreiros-X



Ó Horror! Os burgueses de Portugal
têm de pior que os outros
o serem portugueses!

A Terra vive desde que um dia
deixou de ser bola do ar
p'ra ser solar de burgueses.
Houve homens de talento, génios e imperadores.
Precisaram-se de ditadores,
que foram sempre os maiores.
Cansou-se o mundo a estudar
e os sábios morreram velhos
fartos de procurar remédios,
e nunca acharam o remédio de parar.
E inda eu hoje vivo no século XX
a ver desfilar burgueses
trezentas e sessenta e cinco vezes ao ano,
e a saber que um dia
são vinte e quatro horas de chatice
e cada hora sessenta minutos de tédio
e cada minuto sessenta segundos de spleen!
Ora bolas para os sábios e pensadores!
Ora bolas para todas as épocas e todas as idades!

Bolas pròs homens de todos os tempos,
e prà intrujice da Civilização e da Cultura!

Eu invejo-te a ti, ó coisa que não tens olhos de ver!
Eu queria como tu sentir a beleza de um almoço pontual
e a f'licidade de um jantar cedinho
co'as bestas da família.
Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam
porque são muitas mais que as boas
e enche-se o tempo mais!
Eu queria, como tu, sentir o bem-estar
que te dá a bestialidade!
Eu queria, como tu, viver enganado da vida e da mulher,
e sem o prazer de seres inteligente pessoalmente!
Eu queria, como tu, não saber que os outros não valem nada
p'ra os poder admirar como tu!
Eu queria que a vida fosse tão divinal
como tu a supões, como tu a vives!
Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
a boiar à tona d'água, à mercê dos ventos,
sem nunca saber que fundo que é o Mar!

in Cena do Ódio - Almada Negreiros - 1915

sexta-feira, 8 de março de 2019

Dia da mulher de quem?


Dia da mulher de quem
Nem sempre se fala
Dia da mulher que não se cala
Dia da mulher fadista
Dia da mulher artista
Dia da mulher doutora
Dia da mulher do ferro de engomar
Dia da mulher operária
Dia da mulher agrária
Dia do mulher do mar
Dia da mulher professora
Dia da apresentadora de televisão
Dia da mulher do norte
Dia da mulher de Baleizão
Dia da mulher de Nova Iorque
Dia da mulher do Afeganistão
Dia da mulher violentada
Dia da mulher libertada
Dia da mulher amada
Dia da minha mulher
Dia da mulher a pilhas
Dia da mulher que dá à luz
Dia da mulher com filhas
Dia das mulheres do Pinto da Costa
Dia da mulher do Costa
Dia da mulher do outro
Dia da última dama
Dia da mulher de quem se gosta
Dia com a mulher na cama
Dia da mulher com marido
Dia da mulher com homem
Dia da mulher solteira
Dia da mulher solteirona
Dia de todas as marias
E se todos os dias há mulheres
E se o Natal é todos os dias
Ah Mulheres! Perdoem-me!
Mas o Dia da Mulher
É sempre que um homem quiser!..

- Dia da mulher de quem?!
- As mulheres não são de ninguém!
Nem sequer a minha mulher é minha! 

Ai mãe, disseste-me um dia que só por acaso não nasci mulher e que só por acaso eu não era filho de outra qualquer. Só que  eu via e tinha ti todas as mulheres e, a partir daí, em divino incesto ou divinal orgia, eu devia ser de todas sem que nenhuma fosse minha.

Dia da mulher querida
Dia da mulher que não se quer

quarta-feira, 6 de março de 2019

Há homens que não tem jeito nenhum para as mulheres

Se eu fosse mulher não queria um dia, preferia um porco.

Em 1953 todos aqueles vales estavam rodeados de floresta, todas as propriedades eram limitadas por regatos, todos os campos eram cultivados. Nas imediações dos milheirais existiam sempre represas rodeadas de salgueiros, carvalhos e outros arvoredos. Era para aí que as mães mandavam os filhos brincar à hora do calor. Mesmo quando estes começavam a ganhar corpo para agarrar na enxada, naquela idade em que não se é uma coisa nem outra, ao fim duma leira de canseira, haveria sempre uma voz com mais poderes que mandava:
 - Vão lá agora brincar um bocadito!

Foi no cumprimento duma dessas ordens que os dois se viram a sós num daqueles recantos sombrios onde sempre brincaram. Passou a concha da mão pela água da represa e atirou sobre o corpo que começava a ser outro.
- Ai! Molhaste-me a mama!
- Molhei!? Ora mostra!

Abriu a blusa lentamente e exibiu com legítima vaidade só uma das duas. Não adianta descrever o que foi visto, toda a gente já viu! Enfim, a perfeição como ela se revela no corpo de qualquer rapariga, salvaguardando que a perfeição é sempre relativa e que não interessa aqui particularizar esse conceito aos olhos de quem viu. Aquela visão, aquele seio, vi-lo-ia a perseguir em toda a vida.

Quando, já barbado, deu pelo pai fugido para o Brasil, a irmã mais velha a dar lareira a um homem casado e a mãe, conformada, agarrada a todas as alfaias, determinou-se a dar caminho ao sonho e emigrou para a Austrália. Veio duas vezes curtas, a última em 78, visitar a mãe mas, por vergonha, medo, mania ou por acaso, não se encontrou com a irmã nem correu o povoado a rever velhas relações.

Voltava agora com 74 anos, com duas malas, num táxi que tacteou lentamente a estrada asfaltada coberta de folhedos, entre silvados e a paisagem cruel dos campos ao abandono: a primeira casa do vale, abandonada, depois, frente a frente, duas com poucos sinais de vida, mais à frente ”uma casa estilo maison com janelas à la fenetre”, residência de férias pela aparência, um pouco mais adiante uma outra em ruínas e, ao fundo, a casa do seu destino.
- Foi aqui que eu nasci!
- Não me diga que vai ficar aqui?!
Anotou o número de telefone do taxista e despediu-se. Olhou, apreciou, sentiu saudade, alegria, tristeza, reviveu. À parte as ervas, as silvas e as teias, tudo deveria estar como a sua mãe deixou quando morreu, fazia poucos anos.
A irmã, que pelo remetente da carta fazia vida lá para o norte, reclamara a sua presença para arrumar partilhas. Ele poderia até ficar definitivamente. Em terras de poucas mulheres havia feito vida apenas com mulheres da vida - diga-se que vira muitos mas nunca mais vira um igual ao da represa - não fizera família e bem que, como homem livre e aventureiro, lhe poderia dar para viver ali o resto dos seus dias.
Perguntava a si próprio o que ganhara em sair dali. Poderia pagar a sua longa ausência à memória da sua mãe, voltando a cultivar os campos, reconstruindo a casa e os anexos, restaurando ferramentas e utensílios – afinal de contas, em tudo o que via, sentia a presença e a energia dela.

Deu volta ao pátio e à casa e arrombou a porta apodrecida. Foi duro entrar, foi duro olhar cada prateleira, cada objecto e a lareira ainda com as cinzas da última fogueira. Já esperava não encontrar condições para pernoitar. Precavera-se com equipamento de campista para os primeiros dias. Antes de dar mais tempo a recordações, a projectos e trabalhos de limpeza teria de arranjar terreiro e montar a tenda. Estava agachado na preparação das estacas quando ouviu um carro de mão.
Aproximou-se. Depois dos primeiros instantes de reconhecimento, surpreenderam-se mutuamente. Cumprimentaram-se. Fizeram a conversa da ocasião. Estou eu, viúva, e a minha cunhada mas lá em baixo no lugar ainda vive muita gente!
- Por aqui passam-se os dias, as horas não. Ao menos hoje vai lá comer a casa. Alguma sopa se há-de arranjar!

Durante a ceia as duas mulheres não pararam de contar e fazer perguntas. Acabariam por ficar só os dois na despedida e, ao levantar-se, o evitável aconteceu: um copo de água despejou-se na blusa negra de Rosalina.
- Mostra-me a outra!
- Júlio!!!
Para quem nunca teve jeito para abordar mulheres, teria sido apenas mais um estalo. Aconteceu que o mesmo não criou desculpas, nem ressentimentos mas apenas uns pares de gargalhadas, sinal que ambos ainda estavam a tempo de poder começar. Quando se dirigiu à porta e olhou para trás para dizer boa noite, viu exibir-se a blusa entreaberta e sentiu de novo a juventude.
- Ainda bem que não me pediste para te mostrar a mesma!
Joaquina já devia estar a dormir. Mesmo que espreitasse pela janela nunca iria acreditar no que veria, os dois num beijo.
- Não te desejo pela perfeição, o teu sorriso é e será sempre belo nem que te caiam os dentes!

sexta-feira, 1 de março de 2019

Um dia de Natal no Carnaval

Há uns anos, preparava com uns amigos uma peça de Natal para o Natal da coletividade. A três dias da estreia as coisas estavam tão mal!... os atores não sabiam o texto, os cenários não se desenrolavam, as músicas enrolavam-se, os projetores fundiam-se, o desastre anunciava-se, de modo que decidimos cancelar o espetáculo.

Custava-nos desperdiçar o trabalho entretanto realizado, adiar para o próximo ano seria demais, pelo que decidimos fazer uns ajustes ao guião para que a história encaixasse no Carnaval e, assim mesmo, ela foi a cena, no domingo gordo, com o nome "Um dia de Natal no Carnaval".

Foi um sucesso. Natal e Carnaval rimam de facto. Desde então não consigo separar as duas festividades e janeiro é quase como se não existisse. Também o Fabrício me ajudou a esta combinação.

O Fabrício é uma daquelas personagens únicas que todas as pequenas cidades de província têm, acarinham e faz parte do meio. É portador de um qualquer distúrbio mental que lhe dificulta o ganha-pão. Jovem ainda, assume-se atleta e corre as redondezas em treino permanente. Entra na barbearia, no talho, no supermercado, na repartição, contando as proezas das provas de atletismo em que participa, e sempre a correr, como se os seus afazeres não lhe deixassem tempo para parar muito tempo em algum lado.

Por vezes permanece imóvel em lugares frequentados, põe uma caixa de sapatos à sua frente e espera que caiam algumas moedas dos peões. Fica estático, numa pose que assume a sua condição, e essa autenticidade retira-lhe o grau menor de mendigo e confere ao seu gesto a dignidade de um trabalho a 
que tem direito. Julgo que consegue, por isso, resultados suficientes para o sustento.

Naquele Carnaval, o Fabrício fez uma bem dele! Dispenso debruçar-me sobre as suas razões e convido cada um a cogitar nelas: o Fabrício andou pelas ruas vestido de Pai Natal!


Este texto, tal como esta foto, homenageiam o Fabrício. 
O Fabrício é o do meio.